Arrogância, Ganância e Novos Paradigmas | Espiritualidade nos Negócios

Arrogância, Ganância e Novos Paradigmas

Para o filósofo Mario Sergio Cortella, a fratura ética que aflige nossa sociedade tem origem na arrogância e na ganância. “A ambição faz a humanidade crescer, a ganância faz a humanidade regredir. Ambiciosa é a pessoa que quer mais, gananciosa é a pessoa que quer só para si. A humanidade cresce porque as pessoas são ambiciosas, querem mais trabalho, mais lucratividade, mais conhecimento. A ganância, junto com a arrogância, são mecanismos de apodrecimento ético. Nós, humanos, somos um animal arrogante. Tão arrogantes que achamos que somos proprietários do planeta. Não somos. Somos usuários compartilhantes. Quais foram os animais mais poderosos do planeta antes de nós? Os dinossauros. Dominaram o planeta por 110 milhões de anos. Nós estamos dominando há 40 mil anos e estamos achando que podemos fazer qualquer coisa” (CORTELLA, 2009, p.120).

Ainda segundo Cortella (2009), o mundo capitalista caiu em uma armadilha ao especializar-se nos “comos” e deixar de lado os “porquês”. As pessoas pararam de enxergar propósito naquilo que faziam dentro das empresas, porque para os gestores isto já não era mais tão importante quanto o fato de o funcionário saber como fazer seu trabalho. Este tipo de comportamento negativo fez com que as pessoas parassem de se reconhecer na obra em que trabalhavam. Quando você bate martelo todo dia em uma parede, mas não sabe a razão, o porquê das marteladas, acaba desmotivado e alienado.

“Reconhecer” significa conhecer a mim mesmo. Eu preciso me ver naquilo que faço. Do contrário, eu não me realizo. Se eu não me realizo – usando a palavra em duplo sentido –, não me torno real ou, se eu usar o termo em inglês, to realize, não me percebo. E se não me percebo no que faço, eu me sinto infeliz (CORTELLA, 2009, p.65).

A espiritualidade no trabalho opera justamente sobre esse vazio existencial na alma, ou espírito, dos profissionais, ou seja, busca conectar todos a um propósito. Para tanto, convida todos a olhar para dentro de si mesmos. O objetivo é que você comece a se questionar: por que estou trabalhando nisso? É isto que quero para minha vida? Tenho qualidade de vida? E mais importante: sou feliz?

Aos poucos, as pessoas começam a despertar do sono profundo que as afastavam dos “porquês”. Este momento, que no futuro deverá ser tratado como marco na história da humanidade, tem a ver com o atual estágio evolucionário do planeta e seus habitantes. Alguns chamam este momento de Era de Aquário, outros mais pessimistas enxergam nos sinais a chegada do Apocalipse. Eu prefiro o termo Revolução Espiritual. Assim como a Revolução Industrial e a Revolução Digital foram determinantes para transformar radicalmente o mundo a nossa volta, a Revolução Espiritual em andamento irá redefinir e transformar para melhor nossas relações de vida e trabalho.

Conforme veremos nos próximos capítulos, a Revolução Espiritual que se desenrola atualmente frente aos nossos olhos é um processo natural da evolução que começou a tomar forma, ainda que de forma tímida, com o avanço da psicologia e da inteligência emocional no campo do trabalho, nos anos 90.

A espiritualidade vem suplantar o materialismo e propor um novo modelo ao saturado sistema capitalista vigente. Trata-se de uma quebra urgente e necessária dos tradicionais paradigmas aos quais estamos habituados. Nesse aspecto, a crise instalada com o estouro da bolha hipotecária tem seu lado positivo, afinal, o homem costuma se mover apenas frente às adversidades que desafiam sua zona de conforto. É aquele velho ditado que diz que “mudamos pelo amor ou pela dor”. Na maioria das vezes, a mudança acontece pela dor. É no limiar das grandes crises que a humanidade avança. Assim como a doença, as crises que enfrentamos em nossas vidas e em sociedade são alavancas para nosso processo de transformação e evolução na Terra.

Na opinião de Fernandes (Época Negócios, 2009), “quanto pior melhor”. Para ele, apenas uma crise aguda, que quebre a espinha dorsal do sistema capitalista vigente e que imponha custos enormes à população e ao sistema financeiro, vai fazer com que as pessoas pensem para valer numa reestruturação do sistema internacional. “Os hábitos do consumidor americano têm de mudar. O resto do mundo financia essa esbórnia consumista. É insustentável, do ponto de vista moral”, critica Fernandes (Época Negócios, 2009, p. 35). O professor do Massachusetts Institute of Technology Sloan School of Management, Thomas W. Malone, partilha uma visão similar. “Crises estimulam pessoas (e companhias) a deixar hábitos tradicionais e considerar possibilidades inovadoras. E a descentralização é uma delas”, afirma (MALONE apud LOIOLA, 2009, p.54).

Antes de seguir adiante é preciso deixar claro que as críticas ao capitalismo apresentadas neste estudo não são uma defesa de outros sistemas político-econômicos vigentes em outros países de esquerda ou direita. O que defendo aqui é a adoção paulatina de um novo capitalismo, mais humano, que coloque a sociedade em primeiro lugar, ao invés dos interesses individualistas e mesquinhos de executivos e acionistas de uma empresa. Também pode parecer utopia à primeira vista, mas tal sistema não contradiz a busca pelo lucro. No entanto, enxerga no lucro um meio e não um fim. E já está sendo praticado por muitas empresas. Ironicamente, esta nova visão acaba trazendo mais lucros para as organizações, conforme veremos adiante.

Especialista em RH e gestão de pessoas, James C. Hunter fala sobre a importância de revermos constantemente nossos paradigmas:

Paradigmas são simplesmente padrões psicológicos, modelos ou mapas que usamos para navegar na vida. Nossos paradigmas podem ser valiosos e até salvar vidas quando usamos adequadamente. Mas podem se tornar perigosos se os tomarmos como verdades absolutas, sem aceitarmos qualquer possibilidade de mudança, e deixarmos que eles filtrem as novas informações e as mudanças que acontece no decorrer da vida. Agarrar-se a paradigmas ultrapassados pode nos deixar paralisados enquanto o mundo passa por nós (HUNTER, 2004, p.42).

E você, está pronto para quebrar seus paradigmas e rever seus conceitos? Abra sua mente…

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