Introdução à Espiritualidade no Mercado de Trabalho | Espiritualidade nos Negócios

Introdução à Espiritualidade no Mercado de Trabalho

A crise e o despertar de uma nova consciência

Alguns anos depois da crise de 2008, ainda hoje sentimos os efeitos em escala mundial e somos obrigados a lidar com os malefícios de condutas antiéticas e egoístas, fruto de um sistema que privilegia poucos em detrimento do sofrimento de muitos, e que alimenta um karma negativo de sofrimento sobre as nações do mundo inteiro. Quando olhamos para trás e analisamos os motivos que levaram à crise deflagrada com o estouro da bolha hipotecária nos Estados Unidos, temos uma certeza: alguma coisa muito errada estava acontecendo no modelo de gestão adotado por grande parte das corporações. Incrédulos e perplexos, assistimos, de uma hora para outra, ao desmoronamento de instituições até então “idôneas”, classificadas pelos próprios mecanismos de “regulação” do mercado financeiro como “acima de qualquer suspeita”. O fato é que a falência de baluartes do sistema capitalista, como o Lehman Brothers, originou um tsunami de proporções globais que devastou a confiança do mercado em instituições sólidas, levando medo e ondas de desemprego, caos e instabilidade às economias de todos os países.

Com precedentes históricos que remontam ao Crash da Bolsa de Valores , em 1929, a crise de 2008 não colocou em xeque apenas o sistema capitalista, mas mostrou-se mais profunda, revelando sua origem na quebra da postura ética que sustenta as relações humanas praticadas entre empresas, profissionais e a sociedade como um todo. A crise trouxe à tona o lado vil das relações humanas. Orientados apenas pelo egocentrismo e pela ganância, empresários e executivos transformaram o mercado financeiro em um grande sistema de apostas alimentado por bônus milionários, com o propósito de beneficiar apenas a si mesmos. Pouco a pouco, as empresas foram perdendo os valores e se distanciando do elo que as ligava às suas missões. Perderam assim a razão de sua existência. Já não importava mais produzir bens ou prover serviços para a satisfação das necessidades de uma sociedade. Mas usar o capital da empresa para fins especulativos egoístas, com o único propósito de gerar riqueza rápida que beneficiasse um grupo pequeno de pessoas no comando dos processos de decisão.

Se por um lado a crise trouxe imensos prejuízos à sociedade, analisando a questão de um outro ponto de vista, podemos afirmar que ela teve um lado benéfico. A crise serviu como um alerta de que estamos no caminho errado e precisamos mudar a forma como vivemos e nos comportamos. Assim como acontece com um paciente doente, a crise atuou no papel coadjuvante dos sintomas. Serviu para mostrar ao médico que algo está comprometendo a saúde do paciente. Para chegarmos ao diagnóstico real por trás dos problemas, no entanto, devemos tomar cuidado para não confundir os sintomas com a doença.

Assim como um paciente com câncer ou problemas cardíacos não consegue expurgar seus males apenas com remédios, mas com a adoção de uma nova postura frente à vida, mediante a incorporação de novos comportamentos e hábitos saudáveis, as empresas também devem adotar e multiplicar um novo modelo de gestão virtuosa que as possibilite recuperar sua verdadeira missão ou razão de existência: servir as pessoas. E não tirar proveito delas.

Esta transformação não acontece da noite para o dia. Requer um olhar interno, coragem e maturidade para poder encarar males internos, paciência e muita determinação para colocar em prática os planos de ação adequados à transformação positiva. Revolução Espiritual: uma nova ética frente à crise de virtudes do mundo corporativo tem como proposta contribuir com este trabalho de reflexão e auto-conhecimento, discutindo, abordando cenários e propondo caminhos à atual crise de valores éticos que assola as corporações, gerando instabilidade nos mercados econômico-financeiros de todo o mundo, e principalmente tormenta no espírito cada vez mais angustiado de funcionários, empresários e executivos.

Se por meio de um olhar externo são evidentes os malefícios causados pela crise, dentro das empresas podemos afirmar que os prejuízos são ainda maiores e traumáticos. A cada dia, as empresas exigem mais do profissional. As constantes fusões, aquisições e relações comerciais derivadas do modelo vigente de globalização exigem um profissional com perfil multidisciplinar, não apenas focado na área de sua especialização, mas com inúmeros atributos agregados. Independentemente da área em que atue, o profissional hoje deve ser criativo, empreendedor, comunicativo, ótimo negociador, poliglota, antenado com as inovações tecnológicas, acompanhar os constantes movimentos de mudanças político-sócio-econômicas que acontecem diariamente e, principalmente, saber trabalhar sob pressão. Em meio a tantas transformações, entretanto, o mundo corporativo parece não ter dado a devida importância a uma pergunta crucial: o profissional de hoje está preparado para lidar com este turbilhão de mudanças e com tanta pressão?

Ao que tudo indica, a resposta é “não”. Como uma pessoa pode ter êxito em um processo de mudança exterior tão complexo, quando falta a ela conhecimento sobre si mesma? Um estudo com mais de mil executivos brasileiros de 350 empresas, divulgado em 2007, concluiu que 84% dos entrevistados são infelizes.

O dado é alarmante! Como corporações podem ter sucesso e alcançar metas com equipes de profissionais desmotivadas e infelizes? Dentro desta pergunta, cabe outra talvez ainda mais importante: onde as empresas (e por empresas leia-se também nossa sociedade) está errando? O fato é que na corrida pelo próximo blockbuster ou benchmarking , os recursos humanos foram relegados a segundo plano. Os recursos financeiros direcionam práticas, princípios e condutas de gestão. Com isso, empresas e profissionais se esqueceram do principal componente do seu capital: o ser humano.

Mas, afinal, em que parte do caminho as empresas se perderam? Quando foi que a ganância e o ego passaram a ditar as regras do jogo? Quando foi que as coisas mudaram? Ou será que as coisas sempre foram assim, apenas permaneceram iguais, e o ser humano agora é que está despertando para esta realidade? Por que empresas e funcionários têm atualmente tantas dificuldades em lidar com um novo mercado de trabalho emergente?

Em primeiro lugar, é preciso entender que o ser humano mudou. Em alguns aspectos para melhor, principalmente no que diz respeito às revoluções proporcionadas pela tecnologia. Em muitos outros aspectos, para pior, em função do uso que passamos a fazer desta mesma tecnologia.

Para entender melhor esta situação, precisamos voltar um pouco no tempo. Com o término dos anos 70, a geração crescida entre os preceitos libertários do “paz e amor” de Woodstock finalmente chegou ao mercado de trabalho e deu início a um processo de transformação tecnológica que mudou o mundo. Do primeiro computador ao computador pessoal e à introdução da World Wide Web foi apenas um “pequeno passo”, que mudaria para sempre a forma como nos relacionamos em sociedade, seja no ambiente familiar ou empresarial.

A transformação tomou vulto maior com a chegada ao mercado de trabalho, nos anos 90, da geração X . Também conhecida como “geração perdida” (gap generation), esta geração cresceu em plena Gerra Fria e testemunhou a decadência de uma série de valores cultuados até então por seus pais, como a felicidade no casamento e a conquista do emprego perfeito, entre vários outros padrões sociais ditados pelo american way of life . A geração X teve de se adaptar a uma nova realidade em que a competição por uma vaga de trabalho é ainda mais desenfreada, tudo caminha mais rápido, empresas atuam globalmente e tentam equacionar o dilema de crescer com sustentabilidade, num mundo à beira de um colapso sócio-ambiental, onde os recursos naturais são cada vez mais escassos.

A entrada da geração Y neste cenário complicou ainda mais a equação. Acostumada a lidar com o mouse e a troca de informações digitais desde o berço, esta geração digital não se prende aos valores tradicionais cultuados pelas grandes corporações, odeia burocracia e protocolos, está acostumada à liberdade da informação e rapidez nos processos de decisão, o que exige uma nova postura por parte das corporações e gestores na forma de “lidar” com o funcionário.

A Era do Conhecimento ou da Informação que vivenciamos hoje abriu as portas para uma avalanche de novidades que são despejadas a uma velocidade enorme diariamente. A história passou a ser reescrita diariamente. O que antes era um fato passou a mudar constantemente. A única certeza que hoje temos é que nada é mais “certo”. Amanhã podemos acordar e encontrar tudo mudado. O conforto de um emprego dos sonhos com carteira assinada, aposentadoria garantida e uma família “estruturada” deu lugar à incerteza. A única coisa permanente passou a ser a dúvida. De uma hora para outra, o diploma da faculdade já não valia tanto assim. As companhias passaram a exigir funcionários com novas aptidões, mais qualificados a entender novos processos criados pela tecnologia e pelas novas relações de trabalho.

Nesse meio tempo, as mulheres invadiram o mercado de trabalho e começaram a demonstrar que eram tão boas quanto qualquer homem na execução de tarefas que, até então, eram exclusividade do sexo masculino. As mulheres, por sua vez, estão pagando um preço alto pela mudança: a angústia e o sacrifício de não acompanhar mais o crescimento de seus filhos, que desde cedo são “educados à distância” – em escolas, creches, pela empregada ou pelos avós. A maioria das mulheres ainda sofre para conciliar as atividades corporativas com as tarefas domésticas, afinal, o expediente ainda continua quando chegam em casa. Muitas também assumem a postura de chefes de família e tomam para si a responsabilidade solitária de criar os filhos e garantir a comida na mesa.

A luta pela sobrevivência ficou ainda mais difícil. Com novos competidores no mercado de trabalho e tendo que se manter atualizado em meio a um turbilhão de informações diárias, muitas pessoas tentam achar hoje um propósito e uma forma de entender, ou sobreviver, num mundo que muda a todo instante. O impacto destas mudanças no ser humano não é nada bom, o que pode ser verificado nos inúmeros casos de angústia, estresse e depressão que acometem grande parte da população mundial. Tais sintomas são ainda a ponta do iceberg para o desenvolvimento de outras doenças crônicas, como obesidade mórbida e diabetes, com origem direta no sedentarismo e na péssima qualidade de vida da sociedade.

Grande parte deste mal é reflexo direto de uma enorme crise existencial que a humanidade atravessa, em razão das escolhas erradas – ou da falta de consciência sobre as escolhas certas – que desenham nosso futuro. Para mudar este cenário é necessário que o homem reveja suas verdades e “pré-conceitos”, e faça uma análise diária de suas ações e intenções, promovendo desta forma uma reforma íntima. É preciso que o profissional busque o auto-conhecimento, enfrente e resolva seus conflitos internos, faça um diagnóstico espiritual de seus problemas para que possa então colocar em prática a correção de rota. Só a partir deste ponto, uma pessoa consegue descobrir o que a faz feliz, consegue vislumbrar onde quer chegar, criar metas e meios para alcançar este fim. Somente o auto-conhecimento permite o despertar da consciência, tornando-nos pessoas mais assertivas e éticas nas decisões que tomamos no dia a dia. O resultado direto desta ação se traduz na satisfação pessoal e profissional de trabalhar em torno de um propósito que nos leve a uma evolução consciente constante.

Assim como o Iluminismo, a Revolução Industrial e a revolução tecnológica (em marcha atualmente), ente tantos outros movimentos, modificaram o papel do ser humano no planeta, precisamos de uma nova revolução, desta vez espiritual, que nos ajude a romper com velhos vícios e jogue luz sobre novos conhecimentos e condutas, trazendo consigo uma nova consciência e uma profunda transformação positiva, necessária ao mundo novo que se desvela a nossa frente. A espiritualidade (não confunda com religião ou esoterismo) no ambiente de trabalho propõe novos caminhos para o resgate da ética perdida nas relações profissionais e pessoais, contribuindo desta forma para um ambiente de trabalho produtivo e saudável, com foco na inovação, criatividade e sustentabilidade das empresas e da sociedade.

Conforme será possível ver nos capítulos seguintes, este novo modelo espiritualista também é resultado evolutivo de outras escolas e metodologias inovadoras que tomaram vulto com a inteligência emocional, passam pela psicologia positiva e afluem ao encontro da inteligência espiritual, em um ponto onde ciência e espiritualidade se enxergam como partes complementares de uma mesma engrenagem cósmica.

Pautada pela ética, respeito, compreensão da interdependência, resgate da intuição criativa e pelo controle das emoções, a inteligência espiritual atribui ao trabalho um significado transcendente, que abre as portas para um propósito de vida, permite a realização pessoal e o encontro da felicidade.

Mas, afinal, espiritualidade implica na condição de que as empresas terão que adotar uma religião a partir de agora? Muito pelo contrário. Neste livro, você entenderá que religião e espiritualidade não são conceitos obrigatoriamente análogos e que muitas vezes percorrem caminhos completamente distintos em forma e finalidade. Por meio desta visão holística do mercado corporativo, algumas empresas já estão promovendo transformações positivas na sociedade.

No decorrer da pesquisa para este trabalho foi possível constatar que, gradativamente, empresas e gestores estão desenvolvendo a consciência de que o sucesso e a sobrevivência das futuras gerações, em um mundo cada vez mais ameaçado pelas mudanças climáticas, dependem que as escolhas certas sejam feitas agora. Neste sentido, é preciso que os gestores cultivem uma cultura mais humanista, ou espiritual, nas relações de trabalho. As empresas precisam resgatar e valorizar a condição do ser humano como força motora indispensável ao sucesso das organizações. Se faz necessário caminhar rumo a uma gestão sustentada por práticas éticas, sustentáveis e até mesmo espiritualistas que imprimam qualidade ao ambiente de trabalho. Dentro deste novo contexto, as corporações precisam entender que hoje não vendem somente produtos, mas têm cada vez mais a responsabilidade de assumir e conduzir processos de transformações positivas, que contribuam para a felicidade e o desenvolvimento de funcionários, clientes, parceiros comerciais, fornecedores, enfim, de toda a sociedade.

A consciência de que cada um de nós é parte integrante do todo e de que nossas ações individuais repercutem, para o bem ou para o mal, numa esfera maior é cada vez mais aceita e difundida. Somos e estamos todos interligados. Daí a importância da valorização do papel social que as corporações estão sendo obrigadas a assumir como parte inerente a sua natureza. Talvez hoje este papel não seja tão crucial para a venda de seus produtos, mas com certeza irá ditar o sucesso ou o fracasso das empresas no amanhã, a partir do momento que consumidores mais conscientes passarem a valorizar marcas socialmente responsáveis e comprometidas não apenas com o meio ambiente, mas também com o ser humano.

Guiadas por uma forte onda de ações ambientalistas e sustentáveis, muitas corporações se movem cada vez mais na direção da responsabilidade social e já adotam uma atitude espiritualista, mesmo sem se dar conta disso. A espiritualidade neste contexto tem a ver com uma postura de forte conduta ética e moral, que prioriza acima de tudo o desenvolvimento humano e, no caso das empresas, afeta diretamente as relações de trabalho, trazendo à tona um profissional mais consciente de suas responsabilidades não apenas em relação à empresa em que trabalha, mas também ciente de que suas ações afetam de forma positiva ou negativa os colegas de trabalho, clientes, fornecedores e a sociedade a sua volta. Trata-se da descoberta, pelo funcionário, de que ele não está apenas executando uma tarefa para a empresa que o contratou, mas servindo a uma causa maior.

Esta visão sistêmica, ou holística, do processo em que estamos inseridos dá sentido e propósito à vida, nos conecta a um plano maior, permite o exercício de virtudes indispensáveis ao nosso crescimento pessoal e profissional e, por fim, nos permite vivenciar um estado de paz ou felicidade. No filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007), após passar por uma série de provações e privações, o personagem principal descobre que “para ser real, a felicidade deve ser compartilhada”. Cabe a cada um de nós a responsabilidade de construir este caminho. As ferramentas já estão nas nossas mãos.

 Autor: Fernando Ferragino

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