Trabalho, o Castigo Divino | Espiritualidade nos Negócios

Trabalho, o Castigo Divino

Antes de abordar o conceito espiritual propriamente dito, é importante que voltemos atrás na história para responder algumas questões. Onde erramos? E, principalmente, o que deu errado neste processo? Desde que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, o trabalho sempre foi visto de maneira negativa, como punição. Pelo menos é o que diz a Bíblia. É onde encontramos as raízes do velho ditado: “se trabalho fosse bom, a gente não precisaria receber dinheiro, trabalharia de graça”.

“Vais trabalhar!”. Eis a condenação a que Deus submete Adão após ser desobedecido. Sobre este trecho do Antigo Testamento em questão, o filósofo Mário Sergio Cortella chama a atenção para o fato de que a primeira coisa que Adão e Eva percebem logo após traírem Deus é que estão nus. Para Cortella, a nudez neste contexto tem um sentido completamente diferente ao qual as pessoas normalmente associam, afinal, não devemos esquecer que até então, Adão e Eva não trajavam roupas. Por que a nudez passa a ser um problema, ou melhor, castigo, de um minuto para o outro? O fato de Adão e Eva terem que alimentar e sustentar um corpo a partir deste momento apenas reforça a noção de castigo que o trabalho ganhou ao longo da história. Para o professor italiano de Sociologia do Trabalho e autor da célebre teoria do ócio criativo, Domenico de Masi, esta passagem bíblica representa o único ponto de convergência entre todas as religiões: a noção de que no Paraíso ninguém trabalha.

Dos tempos remotos do castigo divino em diante, o significado de trabalho só piorou no decorrer da História. A própria etimologia da palavra trabalho endossa isto. No vocábulo latino, trabalho remonta a tripalium, um instrumento de tortura que consistia em três paus entrecruzados, que eram colocados no pescoço de uma pessoa a quem se intencionava castigar ou subjulgar, na condição de escravo.

No mundo greco-romano (do século II a.C. ao século V), período que serviu de berço cultural para a civilização ocidental atual, o trabalho era uma tarefa relegada às classes inferiores e aos escravos. As profissões eram descritas como “sórdidas artes”. O trabalho era desprezado, visto como algo indecente, imoral, encarado como punição. Tal conceito enraizou-se no DNA das culturas ocidentais porvindouras e contribuiu para que o sistema escravocrata fosse considerado algo natural até tempos recentes. Não se esqueça que a escravidão de trabalhadores, principalmente de estrangeiros ilegais, é um delito ainda hoje presente em nossa sociedade. Em pleno século XXI, não raro nos deparamos com notícias sobre a existência de trabalho escravo em países com regimes democráticos. Esta é uma mancha que ainda nos dias de hoje assola o Brasil, principalmente em regiões rurais, distantes dos grandes centros urbanos (infelizmente, esta prática se verifica até mesmo em grandes centros urbanos como São Paulo, mediante a imposição de funcionários, principalmente imigrantes ilegais, a condições de trabalho degradantes).

Ainda na Antiguidade, os homens eram valorizados pelo ócio entre gregos e romanos. A palavra ócio vem de scholé, termo que serviu como origem para a palavra escola. Naquela época, os homens livres utilizavam seu ócio para se dedicar às artes, filosofia, política e às guerras. Até mesmo Aristóteles e Platão, dois grandes filósofos e pensadores da História, desprezavam o trabalho manual e viam no trabalho um castigo do ponto de vista moral-religioso a partir da vontade dos deuses. Já na Idade Média, os escravos foram substituídos pelos servos. O sistema mudou, mas a mentalidade da escravidão permaneceu a mesma, assim como o conceito pejorativo associado ao trabalho. Neste novo modelo, o servo trabalhava sem descanso para o senhor dono das terras e para sua própria subsistência.

Estes dois períodos da História têm em comum o fato de que apenas a classe dominante – formada por poucos homens livres, nobres, senhores de terras e o clero – podia processar significados existenciais. Escravos e servos não tinham tempo para isso, afinal, quando não estavam trabalhando – o que normalmente acontecia durante grande parte do tempo –, estavam ocupados demais tentando sobreviver às agruras do período.

O tempo livre para processar significados marca justamente um ponto crucial na evolução da trajetória do homem, pois, conforme veremos nos capítulos posteriores, permite ao homem fazer perguntas que o direcionam na busca de sua missão pessoal e, com isto, fazer escolhas conscientes. Este caminho leva justamente à felicidade e à espiritualidade no ambiente de trabalho.

Durante o Renascimento, o protestantismo, de acordo com os valores da burguesia nascente, rompe relações com a ética católica do período e dá uma guinada de 360° na visão atribuída ao trabalho. Pela primeira vez na história, o trabalho passa a ser encarado como valor positivo, continuidade da obra divina e chave para as portas do paraíso. No entanto, este paraíso permanece ao alcance de poucas pessoas. Enquanto no capitalismo, a burguesia desfruta sozinha das vantagens do novo comércio, no comunismo, a história não é muito diferente. Antagônico à concepção idealizada por Karl Marx, de que a classe operária deveria ser a maior beneficiária do sistema de trabalho, na prática, o Estado totalitário leva a riqueza e o processamento de significados para as mãos dos burocratas, que controlam impiedosamente o regime a ferro e fogo.

Um pouco mais adiante, durante a Revolução Industrial e no Pós-Guerra, a classe operária é massacrada por longas jornadas de trabalho e condições de trabalho insalubres e desumanas. Assim como acontecia na Antiguidade e na Idade Média, a maior parte dos homens não tem tempo livre para pensar em nada, a não ser nos meios diretos que garantam sua sobrevivência dentro da sociedade. É justamente nesse período que o materialismo é entronado na nossa sociedade.

Orientado apenas pelo consumo e o lucro, este materialismo nega qualquer ligação entre o homem e o mundo espiritual, e passa a difundir com força a ideia de que habitamos um mundo e um universo puramente mecânicos, onde tudo se comporta com um grande relógio, e como tal, pode ser provado e previsto pelas leis da física tradicional. Neste novo mundo, a ciência rompe em definitivo com a espiritualidade e passa a negar a importância de valores ligados à intuição e às emoções. O homem passa a ser visto como uma máquina. Passamos a negar nossas emoções, assim como nossas intuições (ou insights) associadas ao mundo espiritual.

O paradoxo dessa história é que a própria religião, pelo menos no Ocidente, foi quem empunhou a espada, cujo golpe rasgou por completo os laços que até então uniam fé e conhecimento científico. Na Grécia Antiga, importantes filósofos como Platão, Sócrates e Aristóteles tinham uma visão humanista de tudo o que existia. Eles defendiam a ética como princípio eterno no trato da coisa pública, enxergavam o ser humano como depositário da verdade divina, e entendiam que por meio de atributos de bondade, justiça e dos talentos individuais (ou dádivas dos deuses), cada homem deveria ter como missão de vida dar continuidade ao trabalho incessante da Criação. Esta mesma filosofia encontrava reciprocidade em movimentos canalizados no Oriente, por personagens históricos como Buda, Confúcio, Lao T’Sé, Zaratustra, entre outros. Diferentemente do Oriente, entretanto, o Ocidente vivenciou uma ruptura brusca com todos estes conceitos filosóficos durante a Idade Média. A ideia de integração entre homens e deuses, espírito e matéria não era bem-vinda pela Igreja, afinal, desafiava todos os dogmas do Cristianismo. A ideia de que a verdade divina existe dentro de cada indivíduo e de que não precisamos de intermediários para alcançá-la constituía uma ameaça direta ao Papa e aos pilares sobre os quais a Igreja se erigiu.

A ruptura entre os pensamentos religiosos e científicos tomou vulto maior em 1543, quando Nicolau Copérnico desafiou a Igreja e o pensamento dominante na época ao afirmar que o Sol era o centro do universo, ao invés da Terra. Alguns anos depois, o astrônomo e matemático Giordano Bruno foi condenado por heresia pela Igreja e morreu nas fogueiras da Santa Inquisição por confirmar os cálculos de Copérnico. Conhecido como “o pai da ciência moderna”, Galileu Galilei somente não teve o mesmo destino, porque era amigo pessoal do papa. Isto não o livrou, entretanto, da condenação de viver em uma prisão domiciliar até o fim de sua vida.

A vingança dos cientistas não tardou muito a chegar. No século XVII, o filósofo e matemático francês, René Descartes, inaugurou a era do racionalismo da Idade Moderna ao defender a separação por completo da mente do corpo. Seguindo esta mesma linha de pensamento, o cientista Isaac Newton comprovou a lei da gravidade e formulou as leis mecânicas que explicam até hoje os movimentos dos corpos celestes, quebrando por completo o pensamento religioso vigente na época. Com base nestas novas teorias, que comprovavam a existência de um mundo mecânico a nossa volta, os cientistas partiram para a vingança e deram às costas para Deus. O problema é que os cientistas tornaram-se tão dogmáticos quanto seus antigos perseguidores. Diferentemente da Igreja, entretanto, a sentença condenatória da ciência para os poucos que ousavam desafiar suas leis não era a fogueira, mas a geladeira.

Autor: Fernando Ferragino

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