O novo papa, a crise de liderança e as lições de branding para as marcas | Espiritualidade nos Negócios

O novo papa, a crise de liderança e as lições de branding para as marcas

A renúncia do papa Bento XVI e a escolha do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o lugar do novo pontífice trouxeram à tona algumas lições que podem ser aplicadas ou, pelo menos, analisadas pela ótica da gestão empresarial.

Em primeiro lugar, a renúncia de Bento XVI exemplifica a crise de liderança existente atualmente no mundo, seja nas corporações ou nos governos. Numa sociedade carente de exemplos de liderança, a quem possamos olhar e nos espelhar, o papel dos líderes está em xeque e é cada vez mais questionado por seus seguidores ou subordinados. Como questiona o editorial da revista Época Negócios de março, “se um líder vitalício, declaradamente ungido com o poder divino, sente-se enfraquecido para promover as mudanças necessárias em sua organização, que esperança têm os executivos, com seus mandatos provisórios, em companhias muito mais propensas à mudança do que a milenar Igreja Católica?”.

Um livro recente sobre a liderança – ou melhor dizendo, a falta dela – escrito pela consultora americana Barbara Kellerman também joga uma pá de cal sobre o tema. Em “O fim da Liderança”, a consultora especializada em liderança (olha só a ironia) cospe no prato em que comeu e denuncia uma indústria de palestras e treinamentos incapaz de entregar o que promete. “O incansável estudo da liderança não nos aproximou mais do nirvana da liderança. Não temos hoje uma ideia de como desenvolver bons líderes, ou pelo menos parar a proliferação dos ruins, mais clara do que há cem ou mesmo mil anos. Pensamos que liderança pode ser ensinada – o que pode ser ou não verdade. Achamos que o contexto em que se dá a liderança é secundário, o que está errado. Achamos que ser líder é melhor e mais importante do que ser um seguidor. Errado de novo”, afirma Barbara.

Enquanto os especialistas debatem a questão no divã, a escolha do novo papa também nos oferece outra lição: que grandes tormentas abrem também janelas no tempo para grandes oportunidades direcionadas à mudança positiva. É o que está acontecendo neste momento, com o início do novo papado. Em meio a uma das maiores crises da história da Igreja Católica – que envolvem graves denúncias de corrupção, pedofilia e disputas pelo poder, no caso que ficou conhecido como Vatileaks –, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, eleito novo papa, está mostrando que uma liderança pautada principalmente pela mudança de atitude pode fazer uma grande diferença. A começar pela escolha do seu nome como papa: Francisco.

Como bem observa o publicitário Nizan Guanaes em artigo escrito para a Folha de S.Paulo, “começava ali uma aula de comunicação para o mundo que resume e mostra de maneira instintiva tudo o que os teóricos enchem a paciência e perdem um tempo enorme para explicar: a comunicação de 360 graus”. Nizan chama atenção à habilidade do novo papa em ter conseguido de maneira simples e direta propagar uma mensagem de mudança que percorreu em instantes o mundo todo.

“O cardeal Jorge Mario Bergoglio mostrou sem PowerPoint nem lero-lero como uma palavra pode mudar tudo, como um nome pode ser capaz de transmitir para o mundo todo uma mensagem tão poderosa e precisa. A palavra é Francisco. Francisco é uma palavra rica de significados num mundo pobre de significado. Francisco quer dizer coma moderadamente num mundo obeso. Francisco quer dizer beba com alegria num mundo que enfia a cara no poste. Francisco quer dizer consumo responsável em sociedades de governos e consumidores endividados. Francisco quer dizer o uso responsável do irmão ar, do irmão mar, do irmão vento e de todas as riquezas debaixo do irmão Sol e da irmã Lua. Francisco é um freio de arrumação não só na Igreja Católica Apostólica Romana, mas na sociedade a quem ela deve guiar. Em 24 horas, Bergoglio pegou uma instituição que estava emparedada e a tirou da parede, transportou-a dos intramuros do Vaticano para o meio da rua, para o meio do rebanho”, descreve Nizan.

Em poucos dias à frente da Cúria Romana, o papa Francisco quebrou protocolos, dispensou o tradicional papamóvel blindado e se juntou à multidão de fieis, mostrando que o resgate da simplicidade está entre os principais “atributos da marca” a ser valorizado pela “nova administração”.

A homilia do papa Francisco, lida em italiano durante a missa de inauguração do pontificado para 200 mil pessoas que acompanharam a missa na Praça São Pedro, também dá o tom para o resgate dos valores sobre os quais a Igreja foi inicialmente edificada: o respeito a todas as criaturas e ao meio ambiente.

“Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito econômico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos guardiões da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para guardar, devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura. A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar, requer bondade, requer ser praticado com ternura…”, pregou o papa durante a homilia.

Embora ainda seja muito cedo para apontar o futuro da Igreja, uma coisa é certa, o papa iniciou um processo de revitalização de marca. Em outras palavras, o papa Francisco utilizou fundamentos reconhecidos do mundo corporativo, como marca, design, conduta, relações públicas, endomarketing, alinhamento interno, e deu uma verdadeira aula de branding. Será que os executivos prestaram atenção?

 

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