Starbucks – quando os valores falam mais alto do que a receita | Espiritualidade nos Negócios

Starbucks – quando os valores falam mais alto do que a receita

Schultz: olhar pela lente das pessoas, a favor da diversidade

Sabe aquela declaração que as empresas adoram ostentar no site ou na parede do escritório, onde se lê “missão, visão e valores”? Pois bem, muito embora essa “carta de intenções” faça parte da construção de imagem de 99,99% das corporações atualmente, poucas são as empresas que, de fato, honram o compromisso assumido no papel. Principalmente em relação aos valores que, na teoria, deveriam permear todos os processos e relações da corporação. Em boa parte dos casos, as relações econômicas e a receita acabam falando mais alto do que os valores (quando estes últimos são postos à prova na hora de se fechar um negócio muito rentável para a corporação)… Nesta semana, a Starbucks mostrou que faz parte de um grupo seleto de empresas que leva seus valores a sério.

No dia 20 de março, durante o encontro de acionistas da marca, o CEO da Starbucks, Howard Schultz (na foto), foi criticado e questionado sobre o fato de a rede de cafés ter se posicionado a favor do casamento gay – a empresa declarou publicamente que suporta a decisão da Casa Branca de legalizar o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, no ano passado. Segundo o acionista que colocou a questão na pauta, o boicote à rede promovido pela Organização Nacional para o Casamento estaria prejudicando as vendas.

Sobre um tema espinhoso, onde muitos CEOs recuariam e mudariam de posição, a resposta do CEO da Starbucks foi a seguinte: “Apesar de você citar estatísticas, nós provemos um retorno de 38% no último ano. Não sei em quantas coisas você investe, mas suspeito que não são muitas companhias, produtos e investimentos que lhe dão um retorno de 38% em 12 meses. Dito isso, não é uma decisão econômica para mim. A lente que pela qual estamos olhando é a lente das pessoas. Nós contratamos cerca de 200 mil pessoas, e nós queremos abraçar a diversidade. De todo tipo”, disse Schultz. E concluiu: “se você acha, respeitosamente, que pode conseguir um retorno superior aos 38% que teve no ano passado, estamos em um país livre. Você pode vender suas ações do Starbucks e comprar ações de outra companhia. Muito obrigado”.

O discurso de Schultz pode até fazer parte de uma convicção pessoal. Mais do que isto, entretanto, diz respeito a um valor defendido publicamente no site da Starbucks: o respeito à diversidade! Em seu site, a Starbucks afirma que “criou uma empresa a partir das ligações humanas, do envolvimento com a comunidade e da celebração das culturas” e que está comprometida “em patrocinar uma cultura na qual a diversidade é valorizada e respeitada”. A atitude de Schultz revela que o discurso acontece na prática.

Essa tal diversidade
Em tempo: em seu recém-lançado livro “Não se desespere! Provocações filosóficas”, o sempre oportuno e genial Mario Sergio Cortella dedica um capítulo inteiro à questão da “diversidade”. Primeiro ele nos lembra que a diversidade é uma expressão da vida humana em suas múltiplas, variadas e particulares manifestações. “O respeito à diversidade é a capacidade de afastar a tolice arrogante que supõe ser o único modo correto de existir e, ao mesmo, indica inteligência estratégica de aprender com o diverso”, afirma.

Ainda segundo Cortella, em uma obra (a vida!) que construímos coletivamente, a preservação e o respeito à individualidade é um valor a ser protegido. “O grande risco está em admitir o individualismo, ou seja, a postura egocêntrica e exclusivista, que costuma redundar em convivência predatória”.

Para o filósofo, neste caminho existe um passo essencial: “lembrar sempre que reconhecer as diferenças não implica exaltar as desigualdades. Homens e mulheres são diferentes, não são desiguais… A igualdade é um constitutivo ético, enquanto a diferença resulta do biológico ou de uma história que também pode ser mudada para melhor”. A responsabilidade por esta mudança é coletiva, ou seja, de todos nós.

 

Compartilhe

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*