Valores da mudança: a lição começa em casa | Espiritualidade nos Negócios

Valores da mudança: a lição começa em casa

Achei bem interessante o artigo escrito pela ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para a Folha de S.Paulo nesta semana. No texto, intitulado “Valores da mudança”, ela reflete sobre o ponto central da atual crise que assombra nossa civilização: a quebra ou perda dos valores. Movidas pela ganância, muitas pessoas acham normal o vale-tudo que leva ao ganho material e imediato, mesmo que isto acarrete no prejuízo ou malefício de outras pessoas e do planeta (o que invariavelmente sempre acontece…).

Como Marina salienta, a mudança depende de cada um de nós. “Para os cidadãos que não aderem ao vale-tudo e ainda sonham com uma sociedade eticamente sustentável, o esforço de ‘estar no mundo sem ser do mundo’ leva à busca esperançosa de contribuir para as necessárias mudanças. Mais uma vez, a sabedoria popular recomenda que se comece em casa”, afirma.

Como Marina enfatiza no final, a prática dos valores éticos em prol de um mundo independe da sua crença, ideologia ou qualquer tipo de pensamento ilusório que lhe desperte o sentimento de separação. “A lucidez, o desapego ao poder e a capacidade de ouvir não são valores exclusivos. Não é preciso ser crente nem ateu, progressista ou conservador, nem é preciso deixar de ser. Reconhecer o gesto e a palavra do outro não ameaça a identidade de ninguém.”

Lembre-se sempre: somos todos iguais e estamos todos no mesmo barco… Pra quem tiver interesse, leia a seguir o artigo completo de Marina Silva…

Valores da mudança
por Marina Silva

Comentando um artigo que denunciava um desses golpes na internet para tirar dinheiro dos incautos, um cidadão declarou seu receio em investir agora, preferia esperar mais um pouco. Impressionou-me que ele não questionasse a legitimidade, mas apenas a oportunidade do negócio. Eis, a meu ver, o centro da crise civilizatória: o ganho material e imediato, como medida dos valores, e a indução a fazer qualquer coisa para consegui-lo.

No Estado, como no mercado, se as negociações forem feitas com os mesmos valores e métodos da partilha de um butim, vamos naturalizar a divisão de poder entre pessoas cujo histórico recomenda o contrário. E mesmo o debate sobre questões estratégicas pode ser contaminado pela disputa de interesses imediatos de grupos econômicos ou políticos.

Para os cidadãos que não aderem ao vale-tudo e ainda sonham com uma sociedade eticamente sustentável, o esforço de “estar no mundo sem ser do mundo” leva à busca esperançosa de contribuir para as necessárias mudanças. Mais uma vez, a sabedoria popular recomenda que se comece em casa.

Por isso, minha esperança se renova quando vejo exemplos de lucidez e desapego aos ganhos materiais e imediatos. No debate público recente sobre comissões na Câmara e no Senado, palavras ponderadas vieram de pessoas que não se envolvem no bate-boca em que se responde um preconceito com outro, mas mostram a responsabilidade dos escalões mais altos, em que se dá a negociação dos cargos. Prejuízos sociais e ambientais são inevitáveis ao se trocar a primogenitura do bem comum pelas lentilhas do vale-tudo na política.

A autolimitação é pré-requisito da liberdade, sem ela nos tornamos escravos do tirano que nós mesmos podemos ser. Os resultados desse difícil, porém necessário, esforço não são imediatos, mas, mesmo quando nada parece acontecer, é a partir dele que as pessoas se dispõem a ouvir umas às outras, formar novas relações e tecer os consensos possíveis.

Alguns gestos são simbólicos, sua força consiste em promover reflexões. Não podemos desconhecer, por exemplo, a renúncia do papa Bento 16 e o reconhecimento da necessidade de mudanças por parte da Igreja Católica na escolha do novo papa. Milhões de pessoas, em todo o mundo, são agora alcançados por um novo nome, Francisco, carregado de significados históricos que induzem a considerar a simplicidade e o convívio harmonioso com a natureza como valores necessários à superação da crise civilizatória.

A lucidez, o desapego ao poder e a capacidade de ouvir não são valores exclusivos. Não é preciso ser crente nem ateu, progressista ou conservador, nem é preciso deixar de ser. Reconhecer o gesto e a palavra do outro não ameaça a identidade de ninguém.

Fonte: Folha de S.Paulo

 

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