Capitalismo Consciente: propósito e felicidade além do lucro | Espiritualidade nos Negócios

Capitalismo Consciente: propósito e felicidade além do lucro

“O propósito das empresas é gerar valor, qualidade de vida e felicidade. O lucro é muito importante e tem de ser um objetivo. Mas existe algo além do lucro, que é o orgulho do que você faz. As empresas precisam gerar valor para todos. É preciso ter compromisso com as pessoas, cultivar a harmonia e a felicidade. Fazendo isso, o dinheiro toma conta dele mesmo”. A frase acima parece ser te sido retirada de algum livro de auto-ajuda. No entanto, não foi dita por nenhum guru ou postulante a palestrante-motivacional-salvador-da-pátria, mas sim por um empresário brasileiro de sucesso conhecido pelo pragmatismo (muitas vezes polêmico) com que gere seus negócios: Abílio Diniz.

Impensável até alguns anos atrás, quando a única preocupação das empresas resumia-se ao “ganha ganha” a qualquer custo, o pensamento verbalizado por Diniz dita a tônica de uma nova consciência emergente entre empresas e gestores, que começa a tomar corpo por meio de movimentos globais como a inteligência espiritual e o capitalismo consciente.

Em resposta ao sistema do capitalismo tradicional, em declínio flagrante desde a crise de 2008, novas vertentes de pensamentos estão surgindo tendo como premissa a ética, os valores e uma forte compreensão da nossa interdependência em relação a todos os que nos cercam, bem como ao meio ambiente.

Um destes novos caminhos é o capitalismo consciente, cujo modelo de gestão parte do princípio de que as empresas devem existir e caminhar em razão de uma motivação maior do que a simples busca pela lucratividade ou ganho pessoal. Neste contexto, o lucro deixa de ser um fim, mas um meio para a realização de um bem maior. E as organizações passam a perceber a real importância de seus papeis como agentes socioeconômicos de transformação da sociedade.

Sistema centrado nas relações humanas, o capitalismo consciente tem como principais pilares:
– A criação de um propósito e valores que norteiem e inspirem gestores e funcionários
– Uma forte relação de respeito e confiança entre equipe (lideranças e subordinados)
– Uma liderança baseada em transformações positivas para todos os stakeholders
– Adoção de práticas sustentáveis que suportem o negócio estratégico
– Uma comunicação transparente que mantenha todos engajados no mesmo objetivo

Empresa consciente e lucrativa
A boa notícia é que algumas empresas já estão adotando este novo modelo de gestão. Melhor ainda: estão agregando diferencial competitivo por causa disso e lucrando com a iniciativa. É o caso, por exemplo, da Whole Foods, rede norte-americana de supermercados especializada em produtos naturais, que, preocupada em ensinar seus consumidores a se alimentar de maneira mais saudável, lucrou US$ 456 milhões em 2012. Totalmente na contramão da indústria de vestuário, a grife de roupas de aventura Patagonia aposta em produtos de maior durabilidade, para que seus consumidores não precisem comprar tantas vezes, aposta no empowerment dos funcionários como linha de gestão e tem uma pegada sustentável em toda sua linha de produção. Faturou no ano passado US$ 540 milhões. A relação de confiança com os empregados é também um diferencial na gestão da Southwest Airlines, companhia aérea com sede em Dallas que registrou em 2012 ganhos de US$ 421 milhões em meio a um setor em crise e de grande concorrência.

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“Os valores da sociedade estão mudando. Cada vez mais pessoas se preocupam com o propósito de suas ações. As empresas que não perceberam isso podem até parecer grandes e fortes. Mas vale lembrar que os dinossauros também eram grandes e fortes e acabaram extintos.”
Raj Sisodia

Para o professor indiano Raj Sisodia, um dos precursores e defensores do capitalismo consciente, os valores da sociedade estão mudando e o modelo de Wall Street naufragando. As empresas que não despertarem para esta nova consciência morrerão na praia. Leia a seguir a entrevista de Raj para a revista IstoÉ Dinheiro.

O que significa capitalismo consciente?
Trata-se de uma nova maneira de pensar os negócios. Sempre assumimos que a meta principal dos empreendedores é ganhar dinheiro. Mas, analisando a história das empresas, descobrimos que a maioria delas é criada por um motivo que é mais do que a simples busca pelo lucro. O que os empreendedores querem, geralmente, é cumprir uma missão e causar algum impacto no mundo. Isso é o que chamamos de propósito maior do negócio e é a base do capitalismo consciente. As empresas que buscam fazer a diferença são as que, no final das contas, acabam tendo um desempenho melhor mais lucro.

Do que se trata, exatamente, esse propósito maior do negócio? É uma meta ou um conjunto de valores que a empresa precisa seguir?
Vou dar um exemplo. Quando foi criada, a varejista Whole Foods, hoje a maior redemundial de produtos orgânicos, tinha como propósito mudar a maneira como as pessoas pensam sobre comida. O objetivo não era apenas vender alimentos e ganhar dinheiro. Eles se importam com a saúde dos clientes e buscam ensiná-los a ter uma vida mais saudável. Fazendo isso, a empresa consegue melhorar a qualidade de vida dos consumidores. É nisso que os seus fundadores e todos os funcionários realmente acreditam. Esse é o propósito do seu trabalho. E, quanto mais dinheiro ganham, mais eles acreditam nesse propósito.

Mas como aplicar o modelo em mercados com o de petróleo ou o de cigarros?
Empresas de qualquer setor podem adotar o capitalismo consciente. No caso do mercado de óleo e gás, o propósito das empresas pode ser como tornar a produção de energia mais eficiente e sustentável. O conceito também não está associado somente à maneira como você faz negócios, mas ao modo como as pessoas são tratadas dentro e fora das organizações. Muita gente passa 14 horas no trabalho todos os dias. As companhias precisam se preocupar em como inspirar as pessoas e com o que vai acontecer com elas no futuro. Agora, em relação ao tabaco, é um pouco mais difícil. Eu diria que os fabricantes de cigarro deveriam se preocupar em encontrar outras formas de satisfazer seus consumidores.

Uma de suas propostas é um novo sistema operacional para as empresas. Como isso funciona?
Digo que é um sistema centrado nas relações humanas. As pessoas costumam ser tratadas como um meio para um fim. Ou seja, meu objetivo é ganhar dinheiro e, para isso, eu preciso ter funcionários e clientes. Por conta disso, a maioria das empresas acaba usando o medo de perder o emprego como um fator motivacional. Isso tende a gerar muito estresse. O medo faz com que as pessoas busquem apenas sobreviver. Em um ambiente assim, não há colaboração ou inovação. O ideal é que a companhia busque o engajamento dos funcionários, convencendo-os de que estão trabalhando com um objetivo. Grandes líderes, como Martin Luther King e Gandhi, sempre usaram o amor para engajar as pessoas em suas causas. Eles devem servir de exemplo para as empresas. É muito mais fácil trabalhar em um ambiente que o amor e o respeito são o mais importante. Ser consciente significa entender as consequências de suas ações. Em uma empresa consciente, todos são importantes à sua maneira.

A questão é que muitas empresas com ambientes hipercompetitivos, como a cervejaria Ambev, são extremamente lucrativas.
É possível atingir um ótimo desempenho usando o medo como motivação. Mas será por um período limitado de tempo. Eu poderia correr muito rápido se estivesse sendo atacado por um leão. Só não sei quanto tempo aguentaria. Os seres humanos evoluem rápido. No mundo atual, há muita tecnologia e informação. Os valores da sociedade estão mudando. Cada vez mais pessoas se preocupam com o propósito de suas ações. As empresas que não perceberam isso podem até parecer grandes e fortes. Mas vale lembrar que os dinossauros também eram grandes e fortes e acabaram extintos.

É possível afirmar que as empresas conscientes são mais lucrativas?
Sim, absolutamente. Pesquisas que fiz para um dos meus livros mostram que, em longo prazo, as empresas conscientes conseguem desempenho mais de duas vezes melhor. É muito simples. Basta olhar para as companhias que lideram o ranking das melhores empresas para trabalhar. A relação entre um bom ambiente de trabalho e o desempenho das companhias na bolsa, por exemplo, é evidente.

Qual é o primeiro passo a ser dado para se tornar uma empresa consciente?
O primeiro passo que o CEO ou o empresário têm de tomar é fazer uma autoanálise. Ele precisa responder a algumas perguntas. A primeira é: no que ele realmente acredita? Outra questão é: qual o motivo de sua empresa existir? Por fim, o que vai acontecer se a companhia desaparecer? Se a resposta para esses questionamentos for ganhar ou deixar de ganhar dinheiro, ele vai precisar de ajuda. Em alguns casos, é preciso voltar à época da fundação da empresa para responder a essas questões.

Como o senhor vê a evolução desse conceito nos países emergentes, como o Brasil e a Índia?
Vejo com certa preocupação. Há uma tendência, nesses países, de achar que não é preciso se preocupar com isso porque há crescimento econômico e investimentos. Trata-se de um grande desafio. O fato é que se você cresce de maneira tradicional acaba gerando uma série de efeitos colaterais negativos, especialmente em relação à qualidade de vida das pessoas. Sem contar que a melhor hora para realizar mudanças é quando tudo está indo bem.

O capitalismo, tal como é hoje, vai acabar?
O capitalismo não pode acabar. Isso seria um desastre. Agora, esse modelo de capitalismo de Wall Street, centrado nas finanças, não tem futuro. O que acontece é que o rabo está abanando o cachorro. Analistas financeiros não são capazes de dizer como uma empresa deve ser gerida. Eles não entendem as complexidades dos negócios, apenas possuem modelos matemáticos. Mas negócios não são apenas números, existem pessoas e relações humanas envolvidas. A cobiça não é uma virtude.

Fonte: IstoÉ Dinheiro (Rodrigo Caetano e Rafael Freire)

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1 Comentário on Capitalismo Consciente: propósito e felicidade além do lucro

  1. NEUSA SILVA GEORGE // 7 de janeiro de 2015 em 14:21 // Responder

    Gostei muito do artigo e penso que é muito importante integrar conceitos e projetos para que este discurso se torne prática. Não há como motivar, milagrosamente, funcionários que trabalham 14 horas por dia, pois o ser humano tem limites biológicos. Se um funcionário de qualquer nível na empresa precisa trabalhar 14 horas com certeza a empresa tem problemas de planejamento ou comunicação, tomada de decisão, processo, performance, gestão etc e com certeza isto cria gargalos que geram a necessidade deste profissional trabalhar este número de horas. Muitas vezes é a alta gestão e a gestão que geram tudo isto seja por não ter foco, seja por não comunicar no tempo e de forma certa, seja por não orientar e acompanhar, seja por não decidir, seja por centralizar, seja por não se preocupar com o retrabalho que os integrantes de sua equipe terão se faltarem esses elementos de Gestão e Liderança. Quando os líderes se preocupam não só com suas metas, mas também com um ambiente equilibrado e produtivo isto inclui pensar nas pessoas. Felizmente pude viver isto na minha última experiência profissional em que o grupo sênior de gestão trabalhava em prol dos resultados, bem como para o desenvolvimento, realização e equilíbrio das Equipes. As mudanças no mundo estão demandando um novo olhar para as práticas de gestão, eu digo prática e não só teoria. As novas gerações não estão preparadas para viver sua carreira e vida com um espírito de sacrifício pois foi uma geração que cresceu com muito mais conforto do que as gerações anteriores. Recentemente eu fui procurada por um grupo de jovens executivos, bem sucedidos, e com muito potencial de crescimento, pois pensam já em abandonar a carreira executiva por não sentirem espaço para a criação e “oxigenação”. E são profissionais de empresa que estão entre as “melhores para se trabalhar”. Enfim estamos na época de buscar o simples, porém é difícil enxergar e alcançar este simples pois estamos habituados demais ao complexo. Existe uma sofisticação humana no Simples porém perdemos a conexão com isto e temos que recuperar! Neusa George (Linkedin Neusa Silva George)

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