Aquecimento Global: a culpa é nossa e a hora de agir é agora | Espiritualidade nos Negócios

Aquecimento Global: a culpa é nossa e a hora de agir é agora

Após longas reuniões e discussões, o Quinto Relatório de Avaliação sobre o Meio Ambiente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, divulgado no final de setembro, não deixa mais espaço para dúvidas ou dilemas: o avanço do aquecimento global (o termo politicamente correto “mudança climática” foi aposentado) tem influência direta do homem – ou, pelo menos, 95% das estimativas indicam esta direção…

De acordo com o relatório, a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra hoje é a maior em pelo menos 800 mil anos e a temperatura média da Terra subirá 1,5ºC até o final do século, causando elevação do nível do mar e uma série infindável de problemas para nós, os habitantes deste planeta (é sempre bom lembrar, né? tem gente que se esquece desse “pequeno” detalhe…).

aquecimento

A concentração de CO2 na atmosfera aumentou 40% desde a era pré-industrial em razão das emissões oriundas da queima de combustíveis fósseis. Deste total, 30% foram absorvidos no período pelos oceanos, que por essa razão se tornaram mais ácidos e menos capazes de regular o clima. Em razão disso, a temperatura poderá subir cerca de 1,5ºC ou 2ºC (num cenário mais pessimista). À primeira vista, este aumento na temperatura pode parecer pouco, mas já é suficiente para fazer um estrago tremendo (lembra o que acontece com o nosso organismo quando estamos com febre?…). Com o aquecimento da Terra, entraremos de vez na era dos “extremos”, ou seja, as regiões mais úmidas sofrerão cada vez mais com enchentes e as regiões mais quentes com secas severas.

Cenário preocupante no Brasil
Segundo reportagem do Estadão, as projeções para o Brasil não são nada animadoras. A projeção é de um aumento da temperatura média de 0,5°C (Centro-Sul) a 1,5°C (Norte, Nordeste e Centro-Oeste) no País até o final do século no cenário mais otimista de emissões de gases de efeito estufa; e de 3°C (Sul e litoral do Nordeste) a 7°C (Amazônia) no pior cenário. Vale lembrar que as mudanças climáticas já vêm assolando o Brasil nos últimos anos, com secas no Nordeste e enchentes e tornados nas regiões sul e sudeste.

No dia 22 de setembro, por exemplo, um tornado deixou um rastro de destruição na cidade de Taquarituba (334 km a sudoeste de SP). De acordo com o levantamento feito pela Defesa Civil, 11 mil pessoas foram afetadas de alguma forma pelo tornado. Isso corresponde a cerca de 50% da população da cidade, que é de 23 mil habitantes. Duas pessoas morreram. Estimativas dão conta de que a reconstrução da cidade deve custar cerca de R$ 100 milhões. Veja abaixo no vídeo as imagens impressionantes da destruição:

“A grande mensagem do quinto relatório do IPCC é que a situação é cada vez mais crítica, e que, se nada ou muito pouco for feito, entraremos em uma trajetória muito perigosa. A janela de oportunidade para evitarmos o colapso do sistema climático é estreita. As emissões globais têm que atingir seu pico nos próximos anos e começar a ser reduzidas de forma acelerada para evitarmos que o aquecimento ultrapasse os 2°C de aumento médio da temperatura média do planeta, limite que os cientistas consideram como administrável. Mesmo no melhor cenário de redução de emissões, teremos que ter estratégias para lidar com as consequências do aquecimento que já ocorre hoje e que irá aumentar nas próximas décadas, afetando a vida de milhões de pessoas”, afirma André Ferretti, coordenador Geral do Observatório do Clima, rede brasileira de articulação sobre as mudanças climáticas.

marina
A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva falou sobre o problema do aquecimento global em uma entrevista recente, concedida à revista FH, do segmento hospitalar, antes da divulgação do painel do IPCC. Importante notar que o que ela diz encontra respaldo direto nos alertas divulgados agora pelos cientistas do IPCC.

“Não faz sentido pensar na saúde individual como se estivesse separada da saúde do planeta. Nossa saúde depende de fatores como a qualidade do ar, da água e dos alimentos. Como posso ser saudável se vivo em uma região sem saneamento básico? Como posso ser saudável se habito uma cidade que não controla os poluentes?”

“O aquecimento global traz riscos enormes. Há inúmeros estudos que preveem o aumento da incidência de doenças tropicais transmitidas por mosquitos, como a malária e a dengue. A Agência Francesa de Segurança Sanitária do Meio Ambiente já apontou que, com a elevação da temperatura dos oceanos em 1°C ou 2°C, podem surgir novas bactérias que representarão risco potencial para o homem. As mudanças climáticas provocam o aumento dos poluentes, como as partículas finas, que causam doenças respiratórias. Há na comunidade um consenso de que o aquecimento global é responsável também por uma incidência maior de eventos extremos, como furacões, chuvas intensas e grandes secas. O efeito desses fenômenos sobre a saúde pública pode ser tremendo, especialmente entre as pessoas mais pobres, como as populações do semiárido nordestino e das periferias das grandes cidades brasileiras. A questão é que não podemos enfrentar as mudanças climáticas por meio de instrumentos isolados e pontuais. Os governos têm o dever de transformar esse desafio em uma política central de Estado e, ao mesmo tempo, estabelecer diretrizes que envolvam diferentes áreas de suas administrações. A transversalidade das políticas públicas é fundamental para que possamos mitigar os desafios do aquecimento global. A dificuldade existente hoje no Brasil é que as políticas públicas são desenvolvidas para o curto prazo dos políticos. Mas é preciso pensar no País das próximas décadas, não dos próximos quatro anos.”
Marina Silva

As empresas, principalmente as grandes organizações, têm uma responsabilidade enorme frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, para que possamos mudar hábitos e atitudes. É preciso que os gestores exerçam um olhar sistêmico sobre todos os impactos que suas organizações estão causando ao meio ambiente e à sociedade de maneira geral. Os gestores precisam investir cada vez mais em negócios sustentáveis, fazer uma ampla revisão dos impactos socioambientais de toda a cadeia de negócios, rever condutas, mudar processos, buscar alternativas energéticas e, eventualmente, repensar o próprio modelo de negócio, caso ele traga prejuízos irreversíveis aos stakeholders envolvidos. As empresas devem atuar como agentes de educação e de transformação socioambiental nas regiões onde estão presentes. Afinal, dependem dos recursos naturais para fabricar seus produtos e de consumidores para comprá-los. O processo de interdependência no mundo empresarial contempla e amarra todos nós, inclusive o meio ambiente, no mesmo barco. “É importante que a sustentabilidade seja entendida em uma dimensão mais ampla. Ela não significa apenas cuidado com o meio ambiente. Passa também pela gestão eficiente dos recursos, pela colaboração entre todas as esferas envolvidas pela criação de mecanismos que antecipem problemas futuros”, explica Marina Silva. Não se trata apenas de uma opção de modelo de negócio, mas de uma questão de sobrevivência… para os negócios e para o planeta!

5 coisas que você precisa saber sobre o novo relatório do Clima

1. O relatório científico produzido pelo IPCC é a principal diretriz para que possamos olhar para o cenário global e entender o que está acontecendo com o clima no nosso planeta. O relatório tem 259 autores de 36 países. É feito com o propósito de quantificar e garantir a acurácia de descobertas e projeções. Este relatório é a melhor ferramenta que dispomos para tomarmos decisões racionais sobre como melhor lidar com as mudanças climáticas.

2. O relatório traz uma série de más notícias: vários efeitos das alterações climáticas aceleraram na última década, como a perda de gelo no mar Ártico, o derretimento de grandes geleiras e o aumento do nível dos oceanos.

3. Os efeitos causados pelo homem no clima estão acelerando cada vez mais. 12 dos anos mais quentes registrados na história aconteceram durante os últimos 15 anos. E o IPCC diz que isto se intensificará.

4. Apesar do aquecimento global e das mudanças climáticas serem as consequências mais conhecidas da poluição causada pelo carbono, não são as nossas únicas preocupações. Os oceanos absorvem CO2 da atmosfera e neste processo se tornam mais ácidos. Esta acidez já está matando as barreiras de corais ao redor do planeta. E em última análise, pode desestabilizar completamente a cadeia de comida marinha, da qual todas as espécies do mar são dependentes. Pra quem não se lembra, nosso planeta é feito basicamente de água. E aí, vamos arriscar a morte dos oceanos?

5. Deixando as notícias assustadoras de lado, a coisa mais importante que você precisa saber é: “Não é tarde demais! Ainda dá tempo de mudar o jogo”. A humanidade ainda tem tempo de fazer alguma coisa e evitar os cenários mais pessimistas apresentados pelo IPCC. No cenário mais otimista, se agirmos agora, poderemos limitar o aquecimento em cerca de 1°C. Resumo da ópera: nossa casa está pegando fogo. Ao invés de ficar perdendo tempo em discussões sobre a velocidade do incêndio, precisamos começar a jogar água na casa…

Fernando Ferragino

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