Em busca de sentido (Man´s search for meaning) | Espiritualidade nos Negócios

Em busca de sentido (Man´s search for meaning)

“Quem tem por que viver aguenta quase todo como”
Nietzsche

O que te move? Dinheiro, ascensão profissional ou propósito? No momento de escolher um emprego ou profissão e definir por ficar ou sair de uma empresa, cada vez mais profissionais têm ficado com a terceira opção acima. Diferente de outros períodos da história, quando as pessoas buscavam o sucesso profissional a qualquer preço, hoje é cada vez maior o número de pessoas que enxergam o trabalho não mais somente como um meio de ganhar dinheiro, mas como uma forma de realização mais transcendental, algo que confere sentido à vida, ou seja, uma missão com a qual me identifico e que ajuda a responder outra pergunta filosófica: “qual o sentido da vida?”. Lógico que ainda precisamos ganhar dinheiro e pagar as contas no final do mês… No entanto, hoje, muitas pessoas já questionam o preço que se paga para botar comida na mesa todo mês ou pagar as infindáveis prestações com as quais nos comprometemos mês a mês. Afinal, vale a pena trabalhar tanto, ganhar dinheiro e ser infeliz?

I can’t get no satisfation…
O fato é que os profissionais hoje precisam encontrar sentido naquilo que fazem (ou na obra que realizam, como diria o professor Mario Sergio Cortella) para continuar caminhando e cumprir as metas propostas no planejamento estratégico das organizações. É o único caminho para que o sentimento de felicidade preencha o “vazio existencial” que angustia, adoece e leva muitos à trilha sombria da depressão. Esta busca por sentido se reflete diretamente no engajamento dos funcionários e, mais ainda, nos resultados financeiros da empresa. Um exemplo claro disso é que nos últimos quatro anos, apesar de todos os investimentos e esforços feitos pela área de RH das empresas, os níveis de satisfação dos trabalhadores têm caído. É o que mostra um estudo recente feito pela SHRM (sigla em inglês para a sociedade norte-americana de recursos humanos) nos EUA. A satisfação no trabalho caiu cinco pontos percentuais (de 86% para 81%) no período de 2009 a 2012.

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Desengajados crônicos, a turma do contra
No Brasil, a história não é diferente. A nota de satisfação dada pelos empregados caiu de 82,51 para 80,98 no mesmo período. Pior ainda foram os resultados de uma pesquisa feita pela consultoria Towers Watson. Ao avaliar o ambiente de trabalho em 28 países, eles constataram que 65% dos profissionais se consideram “desconectados” da organização a qual pertencem. Em outras palavras, estão infelizes e não estão nem aí para o que acontece na empresa. São os notórios “desengajados crônicos”, a turma que trabalha com o piloto automático ligado e que não faz questão alguma de participar das iniciativas internas em prol da organização. Aliás, ainda fazem questão de, muitas vezes, remar contra, sabotando ou torcendo para o negócio dar errado. Esta mesma pesquisa constatou que o Brasil é o país campeão de “desengajados crônicos” (entre os países avaliados; mais um título pra gente se “orgulhar”…). Os resultados deste cenário podem ser constatados nos altos índices de absenteísmo, afastamento por doenças, turnover, assim como na falta de inovação e na queda da produtividade de algumas empresas.

Faça o que eu digo, não faça o que eu faço
De acordo com a revista Você RH, 47% dos brasileiros consideram o ambiente das empresas insalubre e metade diz sofrer pressão excessiva no emprego. A cobrança excessiva por metas e resultados muitas vezes inatingíveis e a falta de clareza sobre o papel e a missão do funcionário na empresa causa desânimo, que se transforma em frustração, infelicidade e aumenta o buraco existencial dentro das pessoas. O que mais incomoda os funcionários, no entanto, é a falta de coerência entre o discurso da empresa e a prática. É o que revela outro estudo sobre o tema. Após ouvir 4 mil pessoas, a pesquisa conduzida pelas consultorias DMRH e Nextview constatou que quatro em cada dez executivos brasileiros pretendem trocar de emprego nos próximos dois anos. Algo que parece ser uma tendência mundial – pesquisas recentes na Europa apontam que 60% dos profissionais escolheriam uma carreira diferente se possível. Entre os principais motivos citados estão:
1. Falta de coerência entre o discurso de valor da empresa e a prática
2. Ausência de um líder inspirador
3. Política de remuneração e benefício pouco expressivos
4. Pouca possibilidade de crescimento e de desafios constantes

Funcionário feliz = Lucro
Não deixa de surpreender o fato de o dinheiro ocupar a terceira posição na atual lista de preocupações dos executivos. Isto mostra uma mudança de consciência e na chave mental da sociedade como um todo. Aos poucos, o dinheiro começa a perder espaço cada vez mais para “valores” ligados à sustentabilidade, inovação, qualidade, transparência, ética e, principalmente, respeito dentro das organizações. As empresas que, por sua vez, conseguem aplicar estes valores na prática, por meio da disseminação dos sensos de nobreza, propósito e pertencimento no dia a dia, sentem os resultados diretamente no bolso. Uma pesquisa do instituto Gallup mostra que corporações com funcionários altamente engajados tiveram um aumento de 342% no lucro por ações em relação às demais companhias. Em outras palavras: funcionário feliz = lucro (eita equação difícil de entender, hein! O que a gente não aprende na escola, a vida faz questão de ensinar…). “Às vezes, o trabalho é duro, mas se a pessoa sente significado, ela faz”, afirma o professor e consultor Vicente Falconi, autor de vários livros sobre gestão.

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Legado e Propósito
De olho neste cenário global, o filósofo australiano Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, lançou recentemente um livro sobre o assunto, chamado “Como encontrar o trabalho da sua vida”. “Nunca um número tão grande de pessoas sentiu tanta insatisfação com a vida profissional e tanta incerteza sobre como resolver os problemas”, avalia. Para Roman, os cinco principais gatilhos da carreira atualmente estão ligados a:

1. Fazer a diferença no trabalho e no mundo (cumprimento do propósito e missão)
2. Seguir paixões (trabalhar com aquilo que você gosta e para o qual tem vocação)
3. Cultivar talentos (exercitar outros atributos pessoais e profissionais além do trabalho formal)
4. Ganhar dinheiro (pois é, temos contas pra pagar… entretanto, uma vez supridas as necessidade básicas, mesmos aumentos sucessivos de salário não são suficientes para trazer felicidade e paz de espírito, ao menos no longo prazo)
5. Ter status (“você sabe com quem está falando?”… muitas pessoas ainda caem nesta armadilha…)

Os gatilhos apontados pelo filósofo encontram similaridades com uma pesquisa realizada em março deste ano pela consultoria Cristina Panella Planejamento e Pesquisa e pela Walk and Talk. Os pesquisadores perguntaram a 4.270 profissionais “Qual é sua maior fonte de motivação?”. As respostas foram:
1. Ter um propósito (40%)
2. Acreditar nos próprios sonhos (30%)
3. Inspirar os colegas (11%)
4. Conquistar bens materiais (7%)
5. Outros motivos (7%)
6. Deixar um legado (5%)

Todos estes estudos demonstram que os profissionais estão mudando. As empresas, por sua vez, não estão conseguindo despertar e se adaptar a este novo modelo de consciência (e gestão) na mesma velocidade, até porque muitas vezes são lideradas por uma geração de profissionais com formação mais cartesiana. Embora não acredite em receita de bolo, creio que um dos caminhos para a mudança positiva é a adoção de uma gestão espiritualizada, com olhar holístico sobre o negócio e as pessoas, e a adoção de valores em todas as práticas da organização. Quanto ao funcionário, cabe a ele compreender qual é sua própria missão, verificar se seus valores pessoais condizem com os princípios da organização, se consegue enxergar valor e significado na tarefa que realiza no dia a dia… Enfim, se é feliz exercendo sua profissão naquele local de trabalho… Pois se não for, está na hora de mudar.

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Viktor Frankl: “Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez, e como se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora”

Sentido no sofrimento
Difícil falar sobre o tema “significado e propósito” sem trazer à tona a grande contribuição que o neurologista e psiquiatra austríaco Viktor Frankl deu ao mundo ao publicar a obra “Em busca de sentido”, título que utilizei neste post em homenagem ao autor. Para Frankl, a busca de sentido pelo homem é o que nos move em direção ao futuro e a única forma existente de combatermos o “vazio existencial” que assola a geração atual, vazio este que se desdobra nas atuais epidemias de depressão, agressão e dependência de drogas. Segundo Frankl, o propósito da vida é algo que pode ser encontrado por meio do trabalho, do amor e da dor. Pois é, Viktor foi um dos primeiros psiquiatras (se não o primeiro) a enxergar sentido no sofrimento. E ele chegou a esta conclusão não de forma confortável, sentado atrás de uma escrivaninha e de uma montanha de livros dentro de um ambiente acadêmico, mas com conhecimento de causa, sentindo literalmente na pele (e na alma!) um dos piores sofrimentos já impostos ao ser humano. Viktor esteve, literalmente, no inferno. Foi o prisioneiro 119.104 de Auschwitz, perdeu seus pais e sua esposa assassinados nos campos de concentração nazistas, conseguiu sobreviver a quatro campos de concentração e testemunhou todos os horrores que hoje vemos relatados nos livros e filmes sobre a 2° Guerra Mundial. Ainda assim, ao invés de nutrir um sentimento de raiva e vingança frente a tudo o que passou, Frankl conseguiu elevar-se acima da dor e enxergar um sentido em todo o sofrimento pelo qual passou. Foi o que o manteve vivo: a descoberta de uma liberdade espiritual e de uma riqueza interior, algo que os nazistas jamais coseguiram lhe tirar e que, segundo o psiquiatra, faz com que a vida tenha sentido.

Sempre há uma escolha
Contrário à corrente de pensamento que afirma que o homem é um simples resultado de múltiplos condicionamentos e determinantes de ordem biológica, psíquica e social, Frankl comprovou por meio de sua experiência no campo de concentração que por pior que sejam as condições impostas a um homem, sempre há uma alternativa, uma janela aberta à decisão e consciência interior de cada homem de dizer “não” ao senso comum e optar por uma escolha diferente, de libertação interior. “Aquilo que sucede interiormente com a pessoa, aquilo em que o campo de concentração parece transformá-la, revela ser o resultado de uma decisão interior. Em princípio, portanto, toda pessoa mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que ela acabará sendo, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa, que também ali permanece sendo ser humano e conserva sua dignidade… Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte”, afirma.

Transformando sofrimento em conquista
De acordo com Frankl, as pessoas devem transformar a situação do sofrimento em uma realização interna de valores, ou seja, transformar o sofrimento numa conquista humana, de forma com que a pessoa mude e cresça acima do problema e daquilo que foi um dia. Para que isto aconteça, a pessoa precisa “escolher” qual “atitude” terá dali pra frente e ter um “alvo” à frente, uma missão ou propósito na qual se realize e que a preencha com significado. Como Nietzsche disse um dia: “quem tem por que viver aguenta quase todo como”. Para Frankl, o poder da mudança está na forma como encaramos a vida. “A rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós”, revela. Cabe a cada um a tarefa de assumir a responsabilidade por responder da melhor maneira às perguntas e desafios que a vida nos lança. Frankl enxergava na “responsabilidade” a essência propriamente dita da existência humana. Sobre isto, tinha um lema: “Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez, e como se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora”.

Curioso perceber que a busca por sentido não é uma questão ligada a modismo ou tendência, mas uma sensação ou incômodo que sempre acompanhou e, provavelmente, irá acompanhar a humanidade. Até porque se trata do canal que nos liga diretamente à espiritualidade e que impulsiona nosso crescimento interior. Frankl menciona, por exemplo, uma pesquisa estatística conduzida pela Universidade John Hopkins. Após ouvir 7.948 alunos de 48 universidades sobre o que consideravam importante naquele momento, 16% responderam “ganhar muito dinheiro”, enquanto 78% disseram que o principal objetivo da vida era “encontrar um propósito e sentido para minha vida”.

A diferença, talvez, na sociedade atual, é que se antes a busca por sentido ficava restrita ao campo da filosofia ou das religiões, hoje também se faz presente no trabalho que realizamos no dia a dia, na missão que escolhemos para nossas vidas. O fato é que, como Frankl já antecipou décadas atrás, o trabalho é um dos três principais caminhos que podemos utilizar para a descoberta do significado e para o preenchimento do nosso vazio existencial. Tanto é que o próprio psiquiatra relata que chegou a tratar diversos pacientes com “neurose de desemprego”, com sintomas associados à depressão. Na visão destes pacientes, estar sem emprego era o mesmo que ser considerado inútil, uma vez que levavam uma vida sem sentido.

A fim de se evitar mal entendidos, é importante deixar claro que Frankl nunca advogou que devemos sofrer para que nossa vida tenha sentido. Pelo contrário! Ele sempre fez questão de enfatizar que quem escolhe o caminho da dor por livre e espontânea vontade tem outro nome: é masoquista. Por outro lado, já que o sofrimento faz parte da condição humana (mais cedo ou mais tarde afeta a todos nós), devemos saber encará-lo como oportunidade de crescimento, de nos elevarmos acima da situação, despertando nosso consciente para a nossa dimensão espiritual e nos tornando pessoas melhores. Quando conseguimos fazer isto, transformamos a dor em conquista! Tudo depende das escolhas que fazemos, da nossa atitude e responsabilidade perante a vida.

Frankl já não se encontra mais entre nós, partiu deste planeta em 1997. Não sem antes nos deixar um rico legado: a logoterapia, também conhecida como a terceira escola vienense de psicoterapia; e a grande lição de que não importa o tamanho dos nossos desafios e da nossa dor, sempre temos uma escolha. Como ele costumava definir: “o ser humano é aquele que inventou a câmara de gás de Auschwitz; mas é também aquele ser que entrou naquelas câmaras de gás de cabeça erguida, tendo nos lábios uma oração”.

Entrevista com Viktor Frankl legendada em português

Autor: Fernando Ferragino

Dedico este post a Claudemir Oliveira, amigo responsável por me “apresentar” Viktor Frankl e que, assim como o famoso psiquiatra, aprendeu a transformar o sofrimento imposto pela vida em conquista, conferindo sentido e valor a sua vida e a de muitas pessoas ao seu redor.

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