Afinal, qual é a relação entre Espiritualidade e Trabalho? | Espiritualidade nos Negócios

Afinal, qual é a relação entre Espiritualidade e Trabalho?

Embora soe estranho num primeiro momento abordar a questão da espiritualidade, um tema tão transcendental, dentro de um ambiente profissional, o fato é que executivos costumam ressaltar aspectos espirituais nos discursos aos funcionários, mesmo sem se dar conta. Quer um exemplo? Toda vez que um executivo ou o RH quer elevar a moral dos funcionários, os discursos sempre caminham para “é preciso ter ‘espírito’ de equipe” ou “é preciso por a ‘alma’ no trabalho, trabalhar com o ‘coração’”. É curioso notar que tais terminologias, popularmente conhecidas também como “vestir a camisa da empresa”, não têm conotação religiosa. No entanto, estabelecem relação direta com a aplicação da espiritualidade no trabalho, ou seja, estão atreladas à clareza que você tem sobre a sua missão dentro da empresa e do mundo. Trata-se da compreensão de que seu trabalho, independentemente da função ou cargo que exerça, tem um significado, um propósito elevado, com impacto direto na vida de outras pessoas, sejam elas colegas de trabalho, fornecedores ou os clientes da sua empresa.

Em geral, as pessoas mais espiritualizadas costumam ter clareza de sua missão, possuem visão sistêmica sobe o negócio em que atuam, e guiadas sempre por princípios e valores sólidos, procuram agir de forma consciente com o propósito de “fazer a diferença” e deixar um legado positivo para as futuras gerações. Esta consciência têm a ver com a capacidade que elas desenvolvem de olhar as coisas não como um fim em si mesmas, mas como parte de algo maior, coletivo. “A espiritualidade é a resposta a um desejo forte de a vida ter sentido, de ela não se esgotar nem naquele momento, nem naquele trabalho”, define o filósofo Mario Sergio Cortella. Esta busca constante por propósito no trabalho permite que o homem se enxergue naquilo que faz, ou seja, no resultado de sua obra. Quando isto acontece, conseguimos “nos encontrar naquilo que fazemos” e atingir o flow no trabalho. Do contrário, nos alienamos, enxergamos nosso trabalho como punição, ficamos insatisfeitos, vivemos sob constante estresse e abrimos espaço para tristeza aumentar ainda mais o vazio dentro do nosso ser.

Não deixa de ser curioso notar que os conhecimentos e percepções de espiritualidade estão entre nós há milênios. No entanto, não são aplicados no meio empresarial e mesmo no cotidiano por preconceito, pela ideia pré-concebida de que pertencem apenas à prática religiosa. Certa vez, o renomado consultor empresarial Max Gehringer fez uso deste exemplo em uma de suas crônicas transmitidas pela rádio CBN, no quadro “Mundo Corporativo”. No texto intitulado “A única verdade”, Gehringer levava ao ouvinte uma entrevista com o “famoso consultor Randolph Brennan”, que reproduzo a seguir:

Pergunta: Ainda é possível ser feliz num mundo tão competitivo?
Resposta: Quanto mais conhecimento conseguimos acumular, mais entendemos que ainda falta muito a aprender. É por isso que sofremos. Trabalhar em excesso é como perseguir o vento. A felicidade só existe para quem soube aproveitar agora os frutos do seu trabalho.

Segunda pergunta: O profissional do futuro será um individualista?
Resposta: Ao contrário. O azar será de quem ficar sozinho. Porque, se cair, não terá ninguém para ajudá-lo a se levantar.

Terceira pergunta: Que conselho o senhor dá aos jovens que estão entrando no mercado de trabalho?
Resposta: É melhor ser criticado pelos sábios do que ser elogiado pelos insensatos. Elogios vazios são como gravetos ateados em uma fogueira.

Quarta pergunta: E para os funcionários que têm chefes centralizadores e perversos?
Resposta: Muitas vezes, os justos são tratados pela cartilha dos injustos. Mas isso passa. Por mais poderoso que alguém pareça ser, será incapaz de dominar a própria respiração.

Última pergunta: O que é exatamente o sucesso?
Resposta: É um sono gostoso. Se a fartura do rico não o deixa dormir, ele estará acumulando, ao mesmo tempo, sua riqueza e sua desgraça.

Embora o texto traga sábias palavras e enfatize alguns axiomas universais, a surpresa sobre sua verdadeira autoria é revelada por Gehringer somente no final. “Queria me desculpar pelo fato de que não existe nenhum Randolph Brennan. Eu o inventei. Todas as respostas, embora extremamente atuais, foram tiradas de um livro escrito há 2.300 anos. O Eclesiastes , do Velho Testamento bíblico. Mas se eu digo isto logo no começo, muita gente talvez nem teria interesse em continuar ouvindo”, conclui Gehringer.

Este caso exemplifica bem a dicotomia enfrentada pelas pessoas nos dias de hoje. Enquanto muitas pessoas vivem obcecadas por livros de auto-ajuda e palavras de conforto e sabedoria do “novo guru da atualidade”, sempre do lado de fora, a maioria, se não todas, esquecem de procurar as respostas no lugar onde elas verdadeiramente se encontram: dentro de si. E fato é que os caminhos que levam a estas respostas, embora ganhem nova roupagem de acordo com as épocas em que são transmitidos, não são novos, como vendem muitos gurus, mas estão entre nós há milênios, nas lendas, histórias, mitos e textos sagrados de cada sociedade. Quem procura acha.

Combustível para a espiritualidade e religiões, a fé também está muito mais presente no cotidiano do que você imagina. Não nos damos conta disso no dia a dia, mas é a fé, muitas vezes, quem norteia os caminhos políticos e econômicos de uma nação. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi eleito justamente com a promessa de “fé” na recuperação da economia e de tempos de paz, após um reinado de terror e guerra da era Bush, quando muitos perderam a fé, ou a esperança, de que as coisas poderiam melhorar. “Yes, we can”! O slogan da campanha vencedora de Obama falava muito mais sobre fé e crença na possibilidade de mudança positiva do que sobre assuntos do cotidiano. Da mesma forma, a fé dita os passos da nossa economia. O Índice de Confiança do Consumidor, compilado no Brasil pela Fundação Getúlio Vargas, é um indicador subjetivo, que mensura percepções das pessoas, e ainda assim determinante para o andar da economia no Brasil. Vale ressaltar que este indicador da economia brasileira baseia-se exclusivamente na crença que as pessoas têm de que as coisas vão melhorar ou piorar.

Trata-se de um ciclo vicioso desencadeado por um “efeito dominó”. Quando os dados sobre o mercado financeiro são negativos, os agentes do mercado perdem confiança. A economia, por sua vez, se retrai ainda mais. E o consumidor, na ponta, assiste a tudo com descrença de que as coisas possam melhorar, e tende a consumir menos. Ao contrário do que a maioria dos economistas afirmam, não há uma lógica para a mudança de quadro. Este ciclo negativo pode ser quebrado por uma pequena melhora em algum outro indicador, algum fato externo ou até mesmo devido a fala de um ministro. Não existe uma lógica ou ciência exata para a economia. Ela age como um organismo vivo e como tal também está sujeita a inúmeras variáveis que podem surgir ao longo do caminho. A fé é uma delas. Talvez, por isto, seja tão difícil prever seus passos. Ao fazer previsões sobre o futuro da economia na mídia, estejam certos de que um economista tem a mesma capacidade de acerto que um vidente ou pai-de-santo que pede aos búzios ajuda nas profecias que pretende decifrar. A fé move montanhas. E nossa economia também…

A espiritualidade não é monopólio da religiões, mas uma dimensão de cada ser humano, que se revela pela capacidade de diálogo consigo mesmo. Embora esteja encoberta atualmente pelas cinzas do consumismo, do materialismo, da competitividade e da ganância que daí decorrem, cabe a um cada um de nós a responsabilidade de aplicar este princípio ou inteligência espiritual no dia a dia. Não devemos esquecer que passamos a maior parte de nossas vidas justamente no ambiente de trabalho. Portanto, torna-se lógico e consequente que nosso trabalho constitua um terreno fértil para semearmos a nossa espiritualidade. O meio empresarial é um grande laboratório para testarmos nossos valores éticos e princípios de conduta. Não devemos esquecer que, embora a leitura e o estudo sejam imprescindíveis para a formação do ser humano, é a vivência e a experiência acumulada no dia a dia que formam e fortalecem o caráter.

Quanto mais espiritualizados forem os funcionários de uma empresa, mais espiritualizada e ética a empresa será. Dito de outra maneira, as organizações são um reflexo do capital humano que nelas habita. Principalmente dos gestores que estão no topo da pirâmide. Embora seja individual e dependa exclusivamente de cada um para desabrochar, a espiritualidade pode e deve ser fomentada pelas políticas internas das organizações. Ela só conseguirá permear as condutas práticas de uma organização se for reconhecidamente encabeçada e praticada pelos gestores da empresa. Não é, por exemplo, o que constatamos hoje em dia. Embora grande parte das empresas tenha hoje um discurso de responsabilidade social e corporativa, a retórica muitas vezes se perde na prática. A moda pela defesa da qualidade de vida nas empresas não encontra respaldo nas exigências diárias de que devemos trabalhar cada vez mais e melhor, no lugar de três ou mais funcionários, que foram demitidos para “reduzir os custos”.

Neste quesito, muitas empresas agem cinicamente. Vendem uma imagem, mas adotam outra forma de conduta. As crises comprovam isto. Assim como acontece com as catástrofes pessoais que invariavelmente nos atingem, as crises empresariais também têm como propósito testar o caráter e ensinar lições de vida. Na crise da bolha imobiliária não foi diferente. A primeira atitude adotada pela maioria das empresas foi a saída mais fácil: demitir funcionários. As demissões acontecem, ironicamente, quando as empresas mais enfatizam a necessidade de comprometimento por parte dos funcionários, e geram um efeito residual extremamente negativo nas corporações. Os demitidos se sentem meras peças descartáveis e nutrem ressentimento pela empresa que virou as costas no momento em que mais precisavam de apoio. Já entre os que ficam, a angústia, insegurança e o medo de serem os próximos da lista geram desmotivação, estresse, falta de atenção, competitividade, deslealdade, entre outros comportamentos tóxicos que acabam por contaminar o ambiente de trabalho. Ainda que algumas demissões sejam justificáveis e necessárias à sobrevivência da empresa, a maneira como são conduzidas pelos gestores revela muito sobre o caráter (ou sobre a falta dele) dentro das corporações. Em momentos críticos e sensíveis como esses, é preciso que os gestores sejam transparentes, contem a verdade sobre os motivos da demissão. Em outras palavras, é imprescindível que os gestores tratem seus funcionários como adultos, e não como crianças, fato que, infelizmente, normalmente acontece. Ao abrir o jogo e contar a verdade, além de agir eticamente, o gestor ganha o respeito e a confiança tanto dos que estão de saída, mas principalmente daqueles que ficaram.

Podemos resumir o contexto espiritual e a ausência dele nas organizações da seguinte forma:

Contexto Materialista nas Organizações
Características e Resultados
Resultados gananciosos cada vez maiores → Medo, insegurança, falta de ética nas relações
Prazos cada vez menores com foco no curto prazo → Falta de atenção aos recursos humanos da organização

A espiritualidade pode enriquecer nossas experiências dentro das organizações e servir como laboratório para nosso crescimento individual e coletivo.

Características e comportamentos de funcionários em ambientes de trabalho espiritualizados e desespiritualizados

High five!Ambiente Espiritualizado
Solidariedade e fraternidade
Aplicação do aprendizado no trabalho
Lealdade
Comprometimento
Qualidade e eficiência
Visão Sistêmica/Percepção social do negócio
Missão/Direção na vida
Realização pessoal
Descoberta e desenvolvimento de significado
Senso elevado de justiça e bem-estar
Harmonia/Confiança
Princípios sólidos de caráter
Respeito
Criatividade
Intuição
Autoconsciência/Autocrítica e discernimento
Honestidade/Ética nos negócios
Motivação
Descontração
Alívio do estresse

Resultados da espiritualidade no ambiente de trabalho
Performance excepcional dos funcionários
Lucro maior para a organização
Alto desempenho
Inovação
Valorização do colaborador
Crescimento pessoal/profissional
Significado de contexto
Responsabilidade social, corporativa e ambiental
Treinamento/Educação/Cultura organizacional fortalecida
Tratamento com dignidade/Humanização
Atenção e preocupação
Fim do turnover
Comunicação multidirecional
Expansão da visão de negócio

biggest_causes_of_stress

Falta de Espiritualidade no Trabalho
Desconfiança/Mentiras
Desinteresse/Apatia
Turnover elevado
Absenteísmo/Presenteísmo
Performance Baixa
Alienação
Ausência de sentido/Ansiedade
Frustração
Moral baixa
Impunidade e medo
Desequilíbrio/Desconfiança e Egoísmo
Falta de princípios e valores
Arrogância
Falta de habilidade em propor soluções novas
Subserviência
Visão limitada e egocêntrica
Corrupção/Ganância
Desmotivação
Tensão
Estresse elevado/Burnout

Consequências da falta da espiritualidade no ambiente de trabalho
Convivência desgastante
Temor e tensão constante
Abuso/Assédio moral
Alienação/Falta de propósito coletivo
Deslealdade
Lutas políticas internas
Egoísmo e egocentrismo
Imagem manchada/negativa na mídia e entre os clientes
Perda da preferência do consumidor
Produtos malfeitos
Serviços ruins
Descaso com clientes e funcionários
Desajuste familiar e doenças (para os funcionários)
Impacto negativo no ambiente

A espiritualidade nas empresas implica em abraçar deveres e obrigações antes negligenciados. A prática desta gestão virtuosa coloca as pessoas em primeiro lugar. Não obstante, não esquece do lucro. Muito pelo contrário. Estimula a produção da riqueza. No entanto, estabelece uma nova visão social para a empresa, ao possibilitar que a organização destine uma parcela do lucro para a promoção de ações sociais nos locais onde está inserida.

Autor: Fernando Ferragino

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