Água: o vazamento é (bem) mais embaixo | Espiritualidade nos Negócios

Água: o vazamento é (bem) mais embaixo

Ilustração representa a quantidade total de água existente no planeta. Somente 3% do total é de água potável

Neste 22 de março, Dia Mundial da Água, temos mais razões para nos preocupar do que para comemorar. Apesar dos repetidos alertas emitidos pelos ambientalistas há anos, ainda não despertamos, enquanto sociedade, para a real importância da água em nossas vidas. E continuamos a desperdiçar um recurso finito, porém essencial à nossa sobrevivência. Resultado? A água começa a faltar em nossas torneiras. Em São Paulo, por exemplo, o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de água de grande parte da população da capital e cidades vizinhas, vem batendo recordes diários de escassez devido à falta de chuva. Mesmo com o alerta vermelho em alta, no entanto, os políticos fogem da palavra “racionamento” tal qual o diabo foge da cruz, afinal, “pega mal” sujeitar a população à privação escalonada e forçada do uso da água. O saldo político desta decisão é negativo, ou seja, o lema é “vamos fazer de conta que não existe problema e utilizar todo o recurso até a última gota. Na hora do desespero, a gente vê o que acontece”… O problema não é restrito a São Paulo, atinge o Brasil inteiro. Só para você ter uma ideia, em pleno século XXI, enquanto os robôs da Nasa procuram água em Marte e outros planetas, metade dos municípios brasileiros ainda não têm rede de esgoto. Dados do Ministério das Cidades mostram que a distribuição de água não alcança 81,1% dos brasileiros e apenas 46,2% têm saneamento básico. Do total do esgoto gerado no país, apenas 37,9% recebe algum tipo de tratamento.

Quando o assunto é racionamento, é importante salientar que o uso racional e consciente da água não se restringe somente a tomar um banho mais rápido ou fechar as torneiras de casa. Muita gente sequer desconfia, mas quando compramos pão, calça, sapato e carro, por exemplo, também estamos gastando água, aliás, muito mais água do que consumimos em casa. Por isto é tão importante adotar um consumo consciente em relação a qualquer bem material.

Confira a quantidade de água utilizada na produção de alguns produtos
Fazer 1 folha de papel = 10 litros
Fazer 1 fatia de pão = 40 litros
Fazer 1/2 kg de plástico = 91 litros
Fazer 1 taça de vinho = 109 litros
Cultivar 1 maçã = 125 litros
Fazer 1 xícara de café = 130 litros
Produzir 1 kg de batata = 290 litros
Produzir 1 litro de cerveja = 300 litros
Cultivar 1 kg de trigo = 1.300 litros
Fazer 1 barra de chocolate = 1.700 litros
Fazer 1 litro de diesel = até 4.000 litros
Fazer 1 camisa de algodão = 2.500 litros
Produzir 1 kg de carne de porco = 5.990 litros
Fazer 1 calça jeans = 10.855 litros
Produzir 1kg de carne de boi = 15.400 litros
Fazer 1 par de sapatos de couro = 17.000 litros
Produzir 1 tonelada de aço = 300.000 litros
Montar 1 carro = 400.000 litros
Fonte: waterfootprint.org / revista Época

 

Nas palavras da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, vivemos atualmente um “estresse hídrico” motivado pela falta de um debate mais profundo sobre os efeitos das mudanças climáticas e sobre o que podemos fazer para nos preparar frente aos problemas. “Falta uma clara definição de responsabilidades entre União, Estados e municípios. Há excessiva burocracia para obter financiamento. A política tarifária, que aliviaria o setor, não ajuda. Com tal descaso, o tempo desfaz os avanços conquistados e as situações de crise se tornam frequentes. É o caso do Cantareira, em São Paulo, que passou por um sério período de escassez na década passada. Desde então, a gestão do sistema pouco mudou e quase não existem medidas de redução de consumo ou de ampliação das condições para que as bacias do sistema possam produzir água. Resta menos de 25% da vegetação natural no entorno dos reservatórios, segundo o Diagnóstico Socioambiental da Cantareira (ISA, 2006)”, afirma.

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1 criança morre a cada 15 segundos devido à falta de água no mundo
A falta de água potável é um problema grave e crônico no mundo inteiro. Cerca de 3,5 milhões de pessoas morrem por ano devido à falta de água. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a cada 15 segundos, uma criança morre de doenças relacionadas à falta de água potável, de saneamento e de condições de higiene no mundo. As doenças diarreicas, por exemplo, relacionada à ingestão de água contaminada, matam 1,5 milhão de pessoas anualmente. Quase 10% das doenças registradas ao redor do mundo poderiam ser evitadas se os governos investissem mais em acesso à água, medidas de higiene e saneamento básico.

Mas afinal, quanta água existe no planeta?
O fato de habitarmos o planeta “azul”, repleto de oceanos, nos dá a falsa percepção de que temos água pra dar e vender. O ponto central da questão é que 96% de toda a água existente na Terra é salgada ou não potável. A imagem que abre esta matéria ajuda a compreender melhor qual é a quantidade exata de água que dispomos em relação ao tamanho do planeta. A ilustração foi feita pelo pesquisador Jack Cook, do Woods Hole Oceanographic Institution, um instituto de pesquisas dos Estados Unidos sobre oceanos. O pesquisador calculou a quantidade de água existente em toda a Terra. Se toda essa água fosse reunida em uma esfera, ela teria 860 milhas de diâmetro, ocupando a área entre os estados americanos de Utah ao Kansas – um volume total de 1,386 milhões de quilômetros cúbicos. Um quilômetro cúbico de água equivale a 264 bilhões de galões de água. O volume é até considerável. No entanto, vale lembrar de novo: somente cerca de 3 a 4% deste total pode ser consumido. E pra piorar a situação, ainda estamos poluindo o pouco que sobra…

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Oceano feito de plástico
Na opinião do documentarista e ambientalista Jean Michel Cousteau, estamos utilizando o oceano como uma grande rede de esgoto. “Devido ao progresso, nós, como espécie, nos desconectamos do nosso sistema de suporte da vida. Nós achamos que podemos decidir tudo. Não é verdade. Nós somos totalmente dependentes, e a qualidade das nossas vidas é a qualidade do meio ambiente. Na próxima vez que você tomar um copo de água, lembre-se que está bebendo o oceano. Só há um sistema de água, e nós estamos usando esse sistema como esgoto. Não falo só do lixo visível: nosso sentido principal é a visão, e por isso nós só vemos as garrafas de plástico no oceano. É um grande problema, mas há muitos outros, muito mais importantes, como soluções químicas, metais pesados. Quando você toma uma aspirina para cuidar de uma dor de cabeça, para onde essa química vai? Vai para o oceano. Chumbo, mercúrio, no final tudo vai parar no oceano. Só há um sistema no planeta, e ele está todo conectado. Não há lixo na natureza, exceto o que nós estamos fazendo, e isso está afetando o sistema que permite a vida. Nós vemos isso na África, na Índia: todos os dias, pelo menos 5 mil crianças com menos de 5 anos de idade morrem porque não há água, ou a água está poluída. Isso precisa mudar”, afirma o filho do famoso explorador francês Jacques Cousteau.

O documentário “Trashed”, estrelado pelo ator Jeremy Irons fala exatamente sobre essa questão. Veja o trailer:

 

 

Da próxima vez que você beber um copo de água, lavar o carro ou comprar uma calça jeans, lembre-se das palavras de Cousteau. As gerações futuras (e nossa própria sobrevivência!) dependem das escolhas que estão sendo feitas neste momento.

Autor: Fernando Ferragino

Fonte: Revista Época; Folha de S.Paulo; Agência Brasil

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