Visão Holística: As Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo de Buda | Espiritualidade nos Negócios

Visão Holística: As Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo de Buda

Assim como os gestores atualmente encontram na visão sistêmica uma característica fundamental ao entendimento e aplicação do planejamento estratégico das empresas, a visão holística aplicada ao negócio também é imprescindível ao correto desenvolvimento do capital humano nas empresas, assim como ao correto entendimento de que as organizações não devem objetivar apenas o lucro, mas assumir as responsabilidades que lhes cabem à construção de uma sociedade melhor e mais igualitária.

Algumas doutrinas e religiões possuem códigos de conduta que podem perfeitamente ser aplicados à economia e ao mundo dos negócios. Tais recomendações estão presentes nas mais variadas religiões e permeiam as páginas de livros sagrados como a Bíblia, o Torá , o Corão , os Vedas , o Livro dos Espíritos , o Tao Te Ching , entre outras obras. Alguns dos conceitos que melhor se aplicam ao meio empresarial são aqueles transmitidos pelos monges budistas há mais de 2.500 anos, época em que viveu na Índia o príncipe Siddharta Gautama, que após “despertar” da ilusão e atingir a “iluminação”, viria a ser conhecido no mundo inteiro como Buda.

Entre seus inúmeros ensinamentos, Buda deixou como legado à humanidade um “caminho” composto por ensinamentos e ações que, colocados em prática no dia a dia, contribuem para que o homem dê fim ao seu sofrimento e atinja gradualmente o nirvana (literalmente, o “apagar da vela”, em sânscrito), ou seja, um estado de consciência livre dos desejos, do ódio, da ignorância, das ilusões e do karma. A este conjunto de ensinamentos universais dá-se o nome de dharma no budismo.

De acordo com Buda, o homem precisa girar a Roda do Dharma para iniciar sua jornada rumo à iluminação. Embora recebam nomenclaturas diferentes, encontramos estes mesmos conceitos disseminados em outras doutrinas e religiões, como no taoísmo do lendário filósofo chinês Lao Tsé (que acredita-se tenha vivido no século VII a.C.), ou na decodificação do espiritismo feita em 1857 pelo escritor e pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec.

Assim como nos ensinamentos de Jesus presentes na Bíblia, todas as religiões e conjuntos de crenças existentes na humanidade, de forma geral, têm como ponto central a aplicação de um conjunto de regras morais e éticas em nossa jornada evolutiva no planeta. Independentemente da crença que se tenha ou não sobre reencarnação ou ao que de fato acontece do outro lado da vida (no mundo espiritual), o fato é que na visão de todas as religiões, estas regras têm efeito determinante sobre nossa felicidade ou sofrimento. Estas escolhas morais que devemos fazer todos os dias em casa e no trabalho, e as consequências diretas e indiretas destas ações são conhecidas entre budistas e espíritas como karma. Por se tratar de uma ação intencional, o karma de um homem pode ser positivo, e desta forma trazer felicidade e paz de espírito, ou negativo, e assim causar tristeza e sofrimento.

Para se livrar daquilo que os budistas chamam de samsara – um ciclo ininterrupto de reencarnações e sofrimento que só se encerra com a libertação total de nossos apegos e ideias transitórias –, precisamos “despertar” da prisão de maya – o mundo materialista ilusório que acreditamos se tratar da nossa realidade – e ter consciência sobre as escolhas que fazemos, uma vez que elas terão efeito determinante sobre nosso destino. Para Lloyd M. Field, autor de “Buddha e os negócios: sair-se bem fazendo o bem”, este caminho só pode ser trilhado quando compreendemos nossas intenções, nossos pensamentos e ações. “A visão de mundo budista é holística: acredita que aquilo que alivia nosso sofrimento também alivia o sofrimento dos outros”, diz.

Nesta jornada pelo “Caminho do Meio”, o homem precisar superar três grandes desafios, que Buda chama de “três venenos”:
1. a ganância
2. a aversão
3. a ignorância

Este tripé sempre esteve por trás dos grandes males da sociedade e ainda hoje é responsável pelas grandes crises econômicas mundiais, que quebram empresas, provocam demissões em massa e alimentam assim os infortúnios do homem. O capitalismo e o materialismo apóiam-se no princípio do consumo sem fim e na satisfação do ego, ou seja, na aquisição ilimitada de bens materiais, riqueza e poder. Este arquétipo faz com que empresários, para serem bem sucedidos em suas carreiras, tenham como princípio norteador a ganância, de sempre conquistar mais mercado e mais consumidores. Dentro desta premissa, os meios justificam o fim e o gestor atua sob o segundo veneno, o ódio ou aversão aos concorrentes e contra tudo aquilo que se interpõe em seu caminho. Por fim, este mesmo empresário ignora completamente as consequências que suas ações têm sobre o meio ambiente e as pessoas a sua volta.

Esta filosofia deixa clara a relação de interdependência existente entre todos os seres humanos. Em uma abordagem simplista, podemos afirmar que no mercado de trabalho, esta relação é alimentada todos os dias na cadeia existente entre fornecedores, empresa, funcionários e clientes. Quando uma indústria farmacêutica, por exemplo, opta por não investir seu know-how no desenvolvimento de medicamentos essenciais ao tratamento de doenças endêmicas em países subdesenvolvidos, por não ser um negócio tão lucrativo quanto o investimento em drogas com finalidade estética, ela age movida pela ganância e causa um mal incomensurável a milhares de pessoas. A mesma coisa acontece com os inúmeros casos de fraude e corrupção existentes em empresas privadas e, principalmente, nos órgãos governamentais. A ganância somada à corrupção se materializa no desvio ilegal de verbas públicas que deveriam ser empregadas em benefício da população, e configura hoje a principal causa das mazelas sociais no Brasil, responsáveis pelo sofrimento de milhões de brasileiros, que não têm acesso a direitos que deveriam ser básicos em uma sociedade civilizada, tais como saúde, alimentação, moradia e educação.

Este karma negativo tem início em nossos desejos e apegos materiais. Na ânsia de comprar um apartamento de 200 m², o carro importado do ano, desfrutar das grifes e dos bens materiais que vejo expostos diariamente nas propagandas, acabo me endividando e vivo angustiado com a sensação de que nunca tenho o suficiente ou o aquilo que mereço. A empresa em que trabalho, por sua vez, vive o mesmo dilema. Tem por objetivo triturar a concorrência e ser a número um do mercado. Para atingir este objetivo e, lógico, abraçar um bônus milionário no fim do ano, o presidente da companhia corta custos e funcionários, estabelece a cada ano metas cada vez mais ousadas e difíceis de serem cumpridas, e dissemina tensão e competição em todo o ambiente. Na ânsia contínua de ter o dinheiro para saldar minhas dívidas, que sempre aumentam, passo a adotar uma postura antiética, calcada no “custe o que custar”. As consequências das minhas ações, dos meus chefes e da minha empresa no ambiente de trabalho tornam-se apenas um detalhe. Afinal, assim como a minha empresa, também preciso sobreviver. Como ficam o cliente e a sociedade nessa história toda? Ficam em último plano, afinal, garantir meu lucro pessoal já me traz preocupações demais. Imagina só se tenho tempo para pensar no outro…

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As Quatro Nobres Verdades

Buda acerta ao apontar as causas de nossos sofrimentos, mas também a saída para os nossos problemas. Antes de conhecer os princípios orientadores budistas, entretanto, é preciso tomar conhecimento sobre as Quatro Nobres Verdades de Buda:

1. Primeira Nobre Verdade – é preciso tomar consciência de que o sofrimento existe, mas que é transitório, ou seja, tem começo, meio e fim.

2. Segunda Nobre Verdade – a causa do sofrimento é o apego aos bens materiais e ideias transitórios, e reside em nossos desejos.

3. Terceira Nobre Verdade – embora não possamos interromper o ciclo de mudança da vida, podemos nos libertar do sofrimento, tornando-nos conscientes das ilusões a nossa volta e promovendo um karma positivo.

4. Quarta Nobre Verdade – nosso sofrimento tem cura. Para tanto, precisamos seguir os oito princípios orientadores do Caminho do Meio, conhecidos como o Nobre Caminho Óctuplo de Buda.

O Caminho Óctuplo

Os oito princípios orientadores de Buda consistem em:

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1. Entendimento Correto – é a capacidade de enxergar com clareza nossas próprias intenções e ações, assim como entender o funcionamento do karma resultante deste processo. Consiste em compreender as consequências da Lei da Causa e Efeito e visualizar o quadro macro acerca dos fatos, tendo consciência sobre nossas relações de interdependência e sobre as Quatro Nobres Verdades.

2. Intenção Correta – trata do direcionamento correto (foco) que devemos dar aos nossos pensamentos, objetivando sempre a intenção de não causar danos a outras pessoas.

3. Fala Correta – é um exercício de atenção constante às palavras que proferimos. É preciso abandonar as negatividades da fala, de forma com que nossas palavras sejam também virtuosas, proveitosas e verdadeiras ao ouvinte. Para tanto, devemos evitar a difamação, a fofoca, assim como palavras que magoem os outros. Devemos ser verdadeiros naquilo que dizemos.

4. Ação Correta – é o nosso comprometimento em não causar danos ou fazer algo que seja prejudicial aos outros, evitando assim o karma negativo. É um compromisso de respeito assumido pela empresa junto a todos os stakeholders, em especial funcionários e clientes. É obrigação da empresa fornecer produtos e serviços de qualidade, que não causem nenhum tipo de dano aos clientes, assim como é obrigação da empresa agir de forma ética e transparente na condução dos negócios, evitando assim a manipulação de dados e as fraudes nos balanços contábeis.

5. Modo de Vida Correto – é viver a vida guiado por uma bússola ética e moral, deixar seus valores e princípios guiarem suas ações e intenções. Nas empresas, o modo de vida correto tem relação direta com a forma como você se espelha ou se reconhece na sua obra, ou seja, naquilo que faz. Você deve evitar situações e mesmo oportunidades de emprego que violem seus valores. O modo de vida correto estimula nos colaboradores de uma empresa a compaixão, sabedoria, paz de espírito e segurança de saber para onde (e principalmente como) se está indo.

6. Esforço Correto – é o exercício contínuo de disciplina da mente, que nos ajuda a evitar e superar estados mentais negativos, bem como cultivar os estados mentais positivos. Requer tempo e paciência. Resulta em pensamento claro e na visão ampla e interdependente dos fatos.

7. Concentração Correta – é a capacidade de realizar as atividades com atenção e obter clareza mental a respeito delas, viver o “agora”, desligar o botão do piloto automático e enxergar nossa própria essência. Para tanto, se faz necessário localizar a mente e a consciência no “aqui e agora”, e interromper o ciclo vicioso que nos prende às memórias do passado e às idealizações sobre nosso futuro. Esta consciência nos ajuda a enxergar o mundo como ele verdadeiramente é.

8. Meditação Correta – é um exercício fundamental que nos ajuda a compreender a natureza dos nossos pensamentos, das nossas ações e intenções. Trata-se de um mergulho interno para o reencontro de nossa essência. Somente quando atingimos este estágio elevado de consciência, alcançamos a sabedoria e o desprendimento necessários para tomar decisões corretas, ou em outras palavras, fazer as escolhas conscientes.

Este conjunto de princípios não são mandamentos, mas podem ser utilizados para nortear a carta de valores da organização. Também podem ser empregados na criação e disseminação da cultura organizacional da empresa, permeando desta forma os modelos de educação, as ações, intenções e comportamentos de funcionários e gestores no dia-a-dia.

Autor: Fernando Ferragino

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