No Tempo do Buda: faça as pazes com o tempo, desacelere e aprenda a viver no agora absoluto; a paz de espírito se encontra ao lado | Espiritualidade nos Negócios

No Tempo do Buda: faça as pazes com o tempo, desacelere e aprenda a viver no agora absoluto; a paz de espírito se encontra ao lado

Por Lama Surya Das. Há éons que as pessoas vêm tentando entender o conceito de tempo. De Sófocles a Benjamim Franklin, de Einstein a Mick Jagger, a sabedoria nos foi transmitida: O tempo é a substância da vida. Tempo é dinheiro. O tempo é essencial. O tempo voa. O tempo é relativo. O tempo está do meu lado. O tempo é um ladrão cruel. Medimos o tempo. Perdemos tempo. Matamos o tempo. Não temos tempo. Ultimamente, a última frase é a que mais escuto. Num estado de espírito que varia entre o aborrecimento, a agitação e o desespero, as pessoas sempre me dizem: “eu não tenho tempo!”.

Não surpreende que muitos de nós se sintam dessa maneira. O ritmo da vida é muito mais frenético do que era uma geração atrás, e inimaginavelmente mais rápido do que no antigo mundo de Moisés ou Confúcio. Tentar acompanhar o ritmo dos dias de hoje é uma tarefa árdua. Esse estresse se manifesta na forma de deficiências imunológicas, pressão alta, ataques cardíacos e derrames, insônia e problemas digestivos. O estresse diminui a nossa capacidade de pensar claramente e de tomar decisões competentes, aumenta o mau humor e nos faz trabalhar com displicência. Como resultado, temos mais problemas no cotidiano: discussões no trabalho e em casa, acidentes de trânsito por dirigir em alta velocidade tagarelando ao celular e preocupações não resolvidas por não termos tempo para desabafar. Além disso, o estresse causa problemas de fertilidade, embranquece os cabelos e desgasta o corpo antes da hora. O estresse, quando se prolonga por muito tempo, pode até mudar a configuração do cérebro, nos deixando mais vulneráveis à ansiedade e à depressão, à obesidade e ao abuso de substâncias.

Eu aprendi por mim mesmo algumas lições severas sobre a aceleração assustadora da vida quando voltei aos Estados Unidos no final de década de 1980, depois de passar quase 20 anos no Oriente. Vivi na Índia e no Himalaia durante a maior parte da minha juventude, num ritmo calmo e natural, livre de eletricidade. Depois, com trinta e poucos anos, morei por um tempo num retiro dedicado a tradicional meditação tibetana Dzogchen, no Centro de Retiros Nyingma, no vale do rio Dordonha, lugar de florestas densas no sul da França. Quando finalmente voltei para casa, me senti como Rip Van Winkle: a complexidade do mundo havia crescido tão exponencialmente que o moderno modo de vida americano era quase irreconhecível para mim. Não estava acostumado ao mercantilismo feroz, ao tumulto constante de produtos sendo apregoados. Até mesmo os centros de meditação e ashrams tinham se tornado verdadeiros supermercados espirituais, com butiques vendendo mercadorias e artigos importados para ajudar a manter o seu status de “sem fins lucrativos”.

À medida que começava a me acostumar ao estilo de vida ocidental depois de tanto tempo vivendo na simplicidade monástica, o que mais me afetou foi a nova aversão às tarefas comuns da vida diária. Por isso as ferramentas de economia de tempo estavam por toda parte: máquina de café expresso, fast food, caixas automáticos, fornos de micro-ondas, computadores pessoais – como se de algum modo a vida ficasse melhor se pudéssemos acelerar a nossa passagem por ela. De lá pra cá, essas mensagem se intensificou ainda mais. Hoje em dia, os jovens me dizem que não têm tempo nem pra falar ao celular ou pra trocar e-mails. Eles preferem usar as mensagens de texto. A resposta instantânea que a nova tecnologia possibilita alterou a nossa percepção do tempo. E como resultado, paradoxalmente, a maior parte das pessoas sente que tem muito menos tempo.

Sentimos que os esforços atuais para economizar tempo saíram pela culatra, criando seus próprios problemas, problemas graves. Nossos avanços tecnológicos e a nossa acessibilidade constante obscureceram a distinção entre o tempo livre e o trabalho. Assim que acostumamos nossa mente com um novo programa de computador, ele se torna obsoleto. Podemos gastar minutos preciosos ao telefone com alguém do outro lado do mundo tentando descobrir como reiniciar o cérebro eletrônico da nossa secadora, fogão ou máquina de café expresso. Leva tempo para aprender a usar o banco online, conectar-se com os amigos pelo Facebook, dominar as complexidades dos smartphones e GPS ou baixar um best-seller no nossos e-readers. Quando o Excel trava e o trabalho é perdido depois de uma hora passando dados no limite do prazo de entrega, a nossa pressão sanguínea sobe às alturas. Existe até mesmo tecnologia para resolver os problemas criados pela tecnologia. Recentemente fiquei sabendo de uma função experimental do Google chamada E-mail Addict, que impede o acesso à caixa de entrada, forçando os usuários compulsivos de e-mail a fazerem uma pausa.

Não me entenda mal. Creio que vivemos numa era maravilhosa, tão milagrosa e futurística quanto qualquer coisa de Jornada nas Estrelas ou dos Jetsons, séries da minha infância. Adoro poder conversar cara a cara pelo laptop com alguém no outro lado do mundo ou poder baixar um livro ou uma música em um minuto. O problema para muitos é aprender como se desligar de toda essa agitação para ter um pouco de paz e tranquilidade. E quanto do nosso estresse vem da tentativa de atender cada um que quer um pouco do nosso tempo? Muitas pessoas se dividem entre o desejo de ser generosas e a necessidade de conservar sua energia. Leva apenas alguns segundos para ler uma mensagem de 140 caracteres do Twitter, mas o custo da distração dura muito mais. Quanto mais coisas queremos fazer de uma vez, mais ficamos somente na superfície da vida, nunca nos aprofundando. E já que podemos ser rastreados em qualquer lugar a qualquer momento, parece que não há saída.

É possível estarmos na nossa escrivaninha ou num engarrafamento e mesmo assim, por um instante, prestar atenção no momento presente para encontrar a paz interior. Como budista, estudei a fundo a questão de como viver verdadeira e alegremente no momento presente, e como ser atento, centrado e harmonioso, independentemente de qualquer obstáculo.

De certa forma, o budismo é um estudo profundo sobre o tempo e o gerenciamento do tempo, porque quanto melhor você gerenciar a sua mente e o seu espírito, menos o tempo o afetará. Cada momento pode ser vivido por completo, livre e incondicionalmente, e cada momento contém possibilidades e oportunidades infinitas para um novo começo. Cada momento de consciência superior é precioso e inestimável, pois a consciência é o valo primário da condição humana. O budismo, para mim, é um estudo sobre como viver de modo pleno e autêntico não apenas no nosso tempo mundano, mas naquilo que chamo de Tempo do Buda – a dimensão do tempo atemporal, o agora absoluto.

Nos últimos anos, tantas pessoas me pediram ajuda para encontrar seu centro espiritual no meio de uma vida descontrolada que decidi fazer disso o assunto principal desse livro (O Tempo do Buda) – mostrar que podemos encontrar um modo de vida mais calmo, vibrante e mais gratificante. Você não precisa ser vítima de uma agenda lotada e da mudança constante, mas pode ter domínio sobre essas coisas e ficar tranquilo em qualquer situação – nem apressado, nem pressionado, mas em paz no momento. Podemos aprender a estabelecer nosso próprio ritmo, um ritmo que faça sentido com aquilo que somos e com o que precisamos na nossa jornada de vida.

Um dos maiores obstáculos para fazer as pazes com o tempo é fato de que costumamos a vê-lo linearmente: caminhamos para a frente, fazendo e terminando as coisas, em vez de apenas ser. Afinal somos seres humanos, e não fazeres humanos. É custoso viver apenas no eixo linear do tempo. Perdemos contato com nosso eu mais profundo e autêntico, muitas vezes tomando trivialidades por coisas dotadas de propósito e significado. Adaptamo-nos a um ritmo cada vez mais rápido até não sabermos mais como parar. Somos especialistas em adaptação, mas não basta nos adaptarmos às complexidades e à velocidade do nosso mundo; é preciso algo mais.

Se cultivarmos a clareza, o desapego e a equanimidade, podemos aprender a permanecer calmos e tranquilos no meio desse fluxo de compromissos, não mais permitindo que a nossa vida ocupada nos prive do tempo que precisamos para recalibrar e para nos unirmos com o mundo natural, com nós mesmos e uns com os outros. Pois o tempo segue adiante, quer estejamos apressados ou aproveitando a vida. As grandes transformações podem acontecer fora da nossa consciência diária, até que algo subitamente nos faça lembrar: ouvir a mudança na voz de um filho adolescente, ter a surpresa desagradável de um cabelo branco ou pensar como que “de uma hora para outra” chegou o inverno.

Também perdemos a tal ponto o vínculo com o mundo natural que, para muitos de nós, tanto faz se é dia ou noite, se faz calor ou frio, se é inverno ou verão. Controlamos o clima dentro de casa, no carro, no escritório e no mercado. Assistimos jogos sob luzes fortíssimas durante a noite. Comemos sem nos importar com a procedência dos alimentos ou com a temporada. Esses meios artificiais nos privam dos ritmos e dos ciclos naturais, nos deixando alheios aos indicadores da passagem do tempo. Ao consumirmos os recursos naturais e observarmos a camada de ozônio se afinar, as geleiras derreterem e as espécies se extinguirem uma após a outra, parece que a própria Terra é passageira, uma vítima do tempo e da mudança como certamente somos nós.

Cada um de nós vive o tempo de maneira diferente, de acordo com a nossa mentalidade. Quando voltei para Long Island para uma visita depois de alguns anos na Índia, não me vi apenas num conflito cultural, mas também num conflito temporal com os meus pais. Minha mãe não queria que eu meditasse. Boa mãe judia que era, não havia problema se eu cochilasse a tarde toda, mas ela achava que meditar era perda de tempo – tempo que ela sentia que eu poderia passar com ela e com o meu pai.

Por um lado, ela estava totalmente certa: não via o seu filho mais velho havia anos, e me fechar no quarto ou vagar pelo jardim para meditar nos privava do tempo precioso que poderíamos passar juntos. Mas eu tinha passado a conhecer uma realidade diferente, um outro jeito de ser. Aprendi que a prática da meditação e uma vida espiritual dedicada dão ao tempo uma qualidade expansiva infinita, que melhoraria cada momento que eu passasse com meus pais. Eu sabia que, se fizesse alguma coisa, não estaria necessariamente deixando de fazer outra, e que sempre temos a capacidade de sair do tempo linear para entrar numa dimensão mais profunda. Quando me reunia aos meus pais depois de passar algumas horas no atemporal, eu estava mais feliz, mais paciente e mais consciente e era um ser humano mais empenhado.

Agora, pode ser que você ainda sofra com a perspectiva limitada do tempo linear: “não posso fazer duas coisas ao mesmo tempo”, pode estar pensando. “O dia tem só 24 horas”. Até mesmo os que buscam a vida espiritual se perguntam como é possível ter tempo suficiente para meditar, estudar, recitar hino e rezar. A nossa vida é abarrotada de tarefas. A nossa agenda é cheia. Parece que temos que deixar algo de lado para termos tempo para o desenvolvimento espiritual, que nos permitiria sair da prisão linear. Mas não é assim que funciona. Não precisamos de mais um tempinho no dia, coisa que seria impossível; em vez disso, podemos incorporar a ampla busca pela espiritualidade em cada minuto da nossa vida. Basta reimaginar e reestruturar a extensão do nosso tempo.

Há 2.500 anos, Buda disse que se percebêssemos diretamente as verdadeiras dificuldades e sofrimentos da vida, praticaríamos para alcançar a iluminação como se “os nossos cabelos estivessem pegando fogo”. Uma definição simples da iluminação é a percepção profunda de que somos muito mais do que nosso corpo material, limitado ao espaço e ao tempo, vivendo num mundo igualmente material. Alguns alcançam a iluminação pela graça, aparentemente sem esforço algum, mas a maior parte de nós fica presa obsessivamente no passado ou no futuro, percorrendo mentalmente essa trilha de uma extremidade a outra o dia todo. Temos uma visão limitada de nós mesmos e das nossas capacidades. E nada vai mudar se não frearmos o trem e desembarcarmos.

Emaho (em tibetano, isso significa “aleluia”). Nós podemos frear o trem. A sabedoria budista ensina que os minutos e as horas do nosso dia não se limitam a marchar do futuro ao presente e ao passado – surgindo das sombras, nos engolindo e deixando-nos para trás para todo o sempre. Em vez disso, cada instante leva dentro de si um reino de espaço e tempo infinitos, chamado de sicha em tibetano, o Presente Eterno. Essa é a preciosa dimensão de despertar que chamo de Tempo do Buda, e ela está disponível a qualquer momento.

“Deixe o passado passar”, disse o Buda, “deixe o tempo passar e também o que está entre os dois, transcendendo as coisas do tempo. Com o seu espírito livre em todas as direções, você não tornará a nascer e envelhecer.” Quando existirmos apenas no momento presente, apenas naquilo que é, e não no remorso, no medo ou na preocupação com o futuro, o nosso conceito de limitação no tempo não terá mais impacto negativo na nossa vida. Essa é uma sabedoria ancestral, atemporal. As pessoas vêm escrevendo sobre viver no momento presente desde os tempos do faraó Akhenaton, que no século XIV a. C. escreveu: “Aquele que trata com descaso o momento presente joga fora tudo o que tem”.

Isso é algo que todos nós temos que lembrar todos os dias. Não podemos nos dar ao luxo de esperar para aprender essa lição. “É agora ou nunca, como sempre”, gosto de falar. Esteja sempre neste momento como se fosse o único momento, neste fôlego como se fosse o último fôlego. É assim que meditamos, levamos vida centrada e consciente e permanecemos no agora. E é assim que começamos a fazer as pazes com o tempo e com nós mesmos.
No Tempo do Buda, não existem devaneios mesquinhos sobre o mundo construído pela mente. É um lugar de ser e não de fazer, uma dimensão muito maior do que a grande parte das pessoas habita. Quando você aprender a viver no Tempo do Buda, adotando aquilo que chamo de consciência do agora na sua vida diária, será mais presente e comprometido nas suas interações. Será mais capaz de lidar com os momentos difíceis, percebendo quando é hora de se afirmar ou de se recolher. Acima de tudo, você não temerá que a vida passe por cima de você e dos seus entes queridos, mas reconhecerá que cada um de nós tem o seu ritmo e a sua maneira de desabrochar. Você se sentirá tranquilo com a sua capacidade para descobrir a felicidade e o contentamento. A consciência do agora é o segredo para a iluminação e para a autorrealização: o Buda dentro de nós.

A vida no Tempo do Buda não é contrária à vida moderna, mas proporciona o que é necessário para viver de forma sã e feliz. Planejar o futuro ou lembrar do passado são coisas que não necessariamente obscurecem a claridade da nossa consciência do presente. O Buda diria: se você está planejando, apenas planeje. Se está lembrando, apenas lembre. Podemos olhar para o futuro ou para o passado sem nos atormentar, nos obcecar ou deixar que as preocupações restrinjam a nossa liberdade do presente. Pense no seguinte: contemplar o passado ou o futuro também é função da consciência do presente.

Sempre temos a liberdade de escolher como reagir, o que fazer ou como viver. Sempre temos tempo para respirar e recomeçar revitalizados, despertos, atentos. Quando nos unimos com a nossa verdadeira natureza atemporal e a entendemos, automaticamente desaceleramos. E quando desaceleramos, o tempo também desacelera e, assim percebemos que ele se multiplica. Ao estarmos mais atentos e ao processarmos as coisas com mais rapidez, mais devagar parece que elas acontecem – da mesma forma que o tempo parece passar mais vagarosamente durante aquela gloriosa manhã de outono, quando as cores e a brisa ganham vida sob a nossa intensa percepção.

Podemos aprender a manter uma percepção do mesmo nível, todo dia. Assim teremos espaço para escolher, refletir, nos dedicar, reagir intencionalmente e, dessa forma, tirar o máximo proveito do nosso tempo e das nossas oportunidades dadas por essa vida mágica. Podemos aprender a fazer as coisas com sensatez e cada uma na sua hora quado estamos sob pressão, desligando a falação da mente, que nos faz sentir que temos que fazer muitas coisas de uma vez.

Quanto mais nos conscientizamos sobre o que mais nos estressa e sobre os hábitos improdutivos que temos, mais próximos estamos de nos livrar de tudo isso. Ter uma relação habilidosa com o ritmo da vida nesta Terra significa que cada escolha, cada ação e cada suspiro podem ser plenos e inteiros. Podemos estar presentes por completo, vividamente. Esse é o segredo que está à nossa frente; basta abrirmos os olhos.

Autor: chamado afetuosamente por Sua Santidade, o Dalai Lama, de “O Lama Americano”, Lama Surya Das é um dos maiores mestres e estudiosos budistas norte-americanos. Autor de vários best-sellers nos Estados Unidos, ele é fundador da Western Buddhist Teachers Network e criador e diretor espiritual da Dzogchen Foundation.

Este texto faz parte da introdução do livro “O Tempo do Buda”, publicado pela editora Cultrix. (e não, não é “jabá”)

Compartilhe

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*