Respeito e Responsabilidade: a base para a transformação positiva | Espiritualidade nos Negócios

Respeito e Responsabilidade: a base para a transformação positiva

Um dos maiores desafios que o futuro impõe hoje ao mundo corporativo é: as empresas estão prontas e dispostas a assumir suas responsabilidades sociais? Este comprometimento depende da capacidade de resposta consciente às diversas situações da vida, uma compreensão que somente atingimos quando silenciamos o ego, abandonamos a condição de “vítima” e passamos a exercer a empatia, reconhecendo, desta forma, os impactos que nossas decisões têm sobre as pessoas à nossa volta. Agir com respeito e assumir as responsabilidades devidas são pressupostos fundamentais para que a transformação positiva que almejamos aconteça nas nossas vidas e na sociedade. Leia mais:

Há aproximadamente 2 mil anos, Jesus Cristo abalou as estruturas da sociedade ao difundir uma mensagem simples, porém revolucionária: o homem deveria amar ao outro, como a si próprio. Acostumados à rigidez dos mandamentos mosaicos e à lei do “olho por olho, dente por dente”, os sacerdotes da época não compreenderam absolutamente nada sobre os ensinamentos de Jesus e, mediante a conivência dos romanos, condenaram Jesus à pena mais rigorosa daquela sociedade – a morte por crucificação. Vinte séculos após sua crucificação, Jesus se tornou um ícone religioso mundial e fonte de inspiração para diversas religiões, cultuado por mais de 2 bilhões de pessoas no planeta. Ainda assim, os ensinamentos de Cristo permanecem tão atuais e contestadores hoje como se mostraram na época em que andou entre os homens. E, paradoxalmente, ainda são pouco compreendidos pela humanidade.

Mesmo entre a imensa massa dos fieis seguidores de Jesus, muitos ainda vivenciam o eterno dilema apontado por Jesus: “como posso amar meu inimigo ou a pessoa que me faz mal?”. Boa parte da dificuldade de entendimento decorre de um problema de tradução. Segundo James Hunter, autor do best seller “O monge e o executivo”, grande parte do Novo Testamento foi escrito originalmente em grego e entre os gregos, a palavra amor não era aplicada de forma universal, como acontece hoje na cultura ocidental. Dependendo do contexto e do que se intencionava dizer naquele momento, amor ganhava uma palavra específica. Por exemplo, eros designava o amor erótico, storgé a afeição em família, e philos simbolizava fraternidade. Já o agapé utilizado na Bíblia, e traduzido como amor nas passagens sobre Cristo, tinha um significado atrelado a respeito e amor incondicional, ou seja, ao amor por escolha, que não espera nada em troca. “Jesus não queria dizer que nós devemos fazer de conta que as pessoas ruins não são ruins, ou nos sentir bem a respeito de pessoas que agem indignamente. O que ele queria dizer era que devemos nos comportar bem em relação a elas”, explica Hunter.

Em outras palavras, o maior ensinamento de Jesus se fundamenta no princípio de que devemos sempre respeitar as outras pessoas, não importa quem elas sejam. Em suma, devemos adotar o princípio de sempre nos colocarmos no lugar dos outros toda vez que falamos com alguém ou tomamos alguma atitude em relação a alguma pessoa. Por isto é tão importante que nós nos reconheçamos nos outros como iguais. A partir do momento que enxergo no outro alguém como eu, crio empatia, estimulo os sentimentos de compaixão e amor, e então posso aplicar a premissa da regra de Ouro: “eu gostaria de ser tratado da maneira como estou tratando a outra pessoa?”. Este princípio, tão elementar e encontrado na essência de inúmeras religiões e filosofias, deve ser o fio condutor de nossas ações e intenções em relação à maneira como nos portamos com as outras pessoas, sejam elas colegas de trabalho, funcionários, clientes, fornecedores, amigos, familiares etc.

Quando me enxergo no lugar do cliente ou do funcionário da minha empresa, por exemplo, torna-se mais fácil avaliar se estou tendo uma conduta ética e transparente com esta outra pessoa. “Será que eu respeito as pessoas com quem me relaciono?”. Esta é uma reflexão que todos deveriam fazer. “Eu costumo gritar com os outros ou peço com educação? Eu cobro na mesma medida em que me doo? Trato as pessoas com rispidez e indiferença ou com alegria e atenção? Olho nos olhos do outro ou me alieno dentro do meu mundo?”…

A moeda do Relacionamento
O fato é que ninguém é uma ilha. Eu preciso dos outros tanto quanto os outros precisam de mim. Ainda mais no ambiente de trabalho. Nesta equação existe um componente muito importante, que o escritor e consultor Stephen Covey descreve como “contas bancárias relacionais”. Como o próprio nome já diz, trata-se do mesmo processo que utilizamos para depositar e retirar dinheiro do banco. A diferença é que no lugar da moeda, utilizamos o relacionamento. Esta metáfora funciona assim: toda vez que tratamos alguém com respeito, atenção, cordialidade, honestidade, consideração e reconhecimento, efetuamos “depósitos” na conta desta pessoa. Na contramão, toda vez que somos desonestos, agressivos, indiferentes, arrogantes, maus ouvintes, entre outros comportamentos negativos, efetuamos “retiradas” desta mesma conta. Dentro da premissa da Lei da Causa e Efeito, o saldo final da minha conta com esta pessoa, muito provavelmente, ditará a consideração que esta pessoa terá por mim, assim como a forma como serei tratado por ela. Se meu saldo estiver devedor, em razão do karma negativo das minhas ações, dificilmente receberei flores desta pessoa, muito menos terei sua simpatia ou respeito.

Esta fórmula contábil, entretanto, não é tão simples quanto parece, uma vez que os feedbacks positivos e negativos das pessoas têm pesos completamente diferentes. Explico: assim como as experiências negativas costumam nos marcar muito mais do que as boas lembranças, para cada retirada que você faz em sua conta com uma pessoa são necessários outros quatro depósitos para que seu saldo fique positivo novamente. Uma proporção de 4 para 1!. Devido a autoestima e até mesmo ao egocentrismo que a maioria das pessoas alimenta, o prejuízo causado pelas nossas retiradas tem sempre um peso muito maior que os nossos depósitos, ou seja, devemos sempre multiplicar nosso débito por quatro. Sentiu o drama?

Como, então, manter um saldo credor com as pessoas ao redor? O primeiro passo consiste em assumir nossas responsabilidades pessoais e profissionais. O problema é que quando o assunto é responsabilidade, as pessoas, em geral, se dividem em duas categorias principais: os neuróticos e as vítimas. Os primeiros pecam pelo excesso, assumem responsabilidades além do fardo que suportam carregar e se culpam por tudo de ruim que acontece a sua volta. No outro extremo, o segundo grupo culpa sempre os outros por todo o mal que há na Terra. Eles nunca estão errados, são sempre as “vítimas” de qualquer situação e se alguma coisa vai mal é porque o outro deixou de fazer algo que deveria ter sido feito. As pessoas pertencentes a estes dois grupos ainda não conseguiram atingir o nível de consciência elevado do “servir”. E justamente por não estarem em sintonia com um estágio elevado de inteligência espiritual, não conseguem aplicar nas suas respectivas vidas os oito princípios orientadores de Buda. Entendem e enxergam as situações de maneira distorcida e em razão disto, não desenvolvem intenção e ação corretas em relação às outras pessoas. Preferem, desta forma, ignorar as responsabilidades que lhes cabem e seguir com o piloto automático ligado, na condição de eternos credores do mundo. Afinal, é muito mais confortável viver sob a pretensa e egocêntrica convicção de que o mundo lhe deve tudo.

Resposta consciente
Se você dividir a palavra responsabilidade no meio, encontrará duas palavras: resposta e habilidade, ou seja, a responsabilidade que cada de um de nós dispõe para escolher a melhor resposta para as dúvidas e dilemas que se apresentam à nossa frente no dia a dia. Quando assumo de fato a minha responsabilidade, ao invés de delegá-la a outra pessoa, escolho a melhor resposta. Por isto é tão importante estarmos conscientes sobre as nossas escolhas, ações e intenções. As nossas escolhas diárias no ambiente de trabalho ou na vida privada determinam de fato quem realmente somos e revelam nosso verdadeiro caráter. E a escolha, assim como a responsabilidade, é um processo do qual não se tem escapatória. Mesmo quando optamos pela neutralidade, uma escolha é feita. Como Hunter expõe, na vida há apenas duas certezas: que um dia iremos morrer e que devemos fazer escolhas. A questão é: você faz suas escolhas conscientemente?

Um dos maiores desafios que o futuro impõe hoje ao mundo corporativo é: as empresas estão prontas e dispostas a assumir suas responsabilidades sociais? Trata-se de um assunto delicado que requer muito cuidado para que não se caia na bolha vazia do discurso panfletário. Nos últimos anos, o tema responsabilidade social tornou-se moda no meio empresarial. Muitas organizações divulgam em seus sites e demais ferramentas de comunicação que possuem programas de responsabilidade social. Deste total, entretanto, poucas são de fato socialmente responsáveis. Não adianta nada fazer uma doação aqui, outra acolá, ou mesmo assumir um programa social se a empresa não trata com dignidade e respeito seus próprios funcionários. A lição começa dentro de casa! Intimamente ligada à espiritualidade no trabalho, a responsabilidade social e a cidadania corporativa implicam no comprometimento de que as empresas assumam pra valer seus deveres e obrigações perante funcionários, fornecedores, clientes, acionistas e demais stakeholders. Nos próximos artigos, falarei um pouco sobre cada uma destas relações.

Autor: Fernando Ferragino

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