As lições de gestão da Seleção da Alemanha na Copa do Mundo e o Bom Senso necessário para que o Brasil volte a ser o país do futebol | Espiritualidade nos Negócios

As lições de gestão da Seleção da Alemanha na Copa do Mundo e o Bom Senso necessário para que o Brasil volte a ser o país do futebol

O trágico placar de 7 a 1 imposto pela Seleção da Alemanha sobre o Brasil na semi-final da Copa do Mundo, assim como a derrota para a Holanda por 3 a 0 na partida seguinte, não foram fatalidades ou mero jogos pontuais e casuais, onde os deuses do azar conspiraram contra os brasileiros – e cujo resultado poderia ter sido diferente caso a sorte estivesse ao nosso lado em alguns lances de ataque, conforme afirmou o técnico Luis Felipe Scolari. Muito longe disso Felipão, o que vimos em campo foi a vitória de um planejamento bem estruturado e aplicado de 14 anos sobre o famoso “jeitinho brasileiro”. A humilhação histórica que sofremos nesta Copa do Mundo deixa claro que o atual modelo de gestão do futebol brasileiro está completamente ultrapassado e que precisamos mudar radicalmente se quisermos resgatar o orgulho de sermos novamente o “país do futebol”. Quando falo em mudanças, não me refiro à simples troca do treinador ou de um ou outro atleta, mas de uma profunda mudança de mentalidade que aprimore toda a estrutura do futebol, com foco principal nas categorias de base, ou seja, na adequada formação de novos atletas, assim como na gestão competente de clubes e campeonatos que, no Brasil, já deram inúmeras provas de serem um fiasco.

O vexame sofrido perante a Alemanha e os 10 gols sofridos em apenas dois jogos evidenciaram que há anos estamos fazendo as escolhas erradas e apostando em um modelo de gestão defasado e ineficiente. Enquanto outros países investem em planejamentos estratégicos orientados à busca de resultados a longo prazo, utilizando para tanto a criação de ligas profissionais e a implementação de estruturas e centros de formação que estimulam o surgimento de novos talentos, continuamos cozinhando nosso velho e surrado arroz com feijão, apostando sempre em fórmulas mágicas, contando sempre que a fé irá nos amparar e que no momento de desespero final, o talento individual de um craque como Neymar irá resolver tudo o que não tivemos competência para fazer dentro e fora de campo.

Falta humildade!!! E o jogo contra a Alemanha mostrou isso: nesta partida, o Brasil entrou em campo com uma formação que nunca havia jogado junta antes e, pior, sem treinar, com alguns jogadores posicionados taticamente em funções com as quais não estavam habituados e com o o meio de campo aberto, justamente o ponto forte utilizado para troca de passes entre os alemães. Achamos, de forma arrogante, que a mística da “amarelinha” prevaleceria sobre uma equipe que vem sendo preparada há 14 anos. Deu no que deu… O resultado desastroso do jogo serve de analogia para a forma como o Brasil funciona também nas esferas governamental e empresarial. Via de regra, planejamos mal e executamos pior ainda, pois já é da nossa cultura acreditar que no fim tudo sempre dá certo. O problema está no (alto) preço final que sempre pagamos por agir assim. Enfim, as grandes crises sempre trazem grandes lições e oportunidades de melhorar modelos ultrapassados. O histórico da Seleção da Alemanha ilustra alguns exemplos e caminhos que podemos seguir:

1. Humildade pra reconhecer o erro e transformar crise em oportunidade
Assim como aconteceu agora com o Brasil, a Alemanha também vivenciou um episódio humilhante, que serviu de impulso para as grandes transformações implementadas na seleção e na gestão do futebol germânico. Na Eurocopa de 2000, a seleção alemã não passou da primeira fase. Eles ficaram na última posição, sem vencer uma única partida – empataram com a Romênia em 1 a 1, e perderam para Portugal (3 a 0) e Inglaterra (1 a 0). Foi a partir deste momento que a Federação Alemã de Futebol (DFB) decidiu agir rápido. Após passar por uma reestruturação completa, traçou um plano de longo prazo para impulsionar o esporte no país em parceria com clubes, empresas públicas e privadas.

2. O trabalho começa pela base
Por mais óbvio que possa parecer, esta é uma das regras de gestão menos praticadas não só no mundo do futebol, mas também na Educação e no mundo corporativo: é preciso investir na formação de talentos se quisermos resultados a longo prazo. E o trabalho começa pela base. A DFB investiu mais de US$ 1 bilhão em um grande plano de reestruturação que resultou na criação de cerca de 400 centros futebolísticos. Desde 2001, meninos e meninas de 9 a 17 anos treinam nas academias da DFB. Só depois de passar pelos centros de treinamento é que os garotos vão para os clubes. Neste período existe também um acompanhamento da vida acadêmica dos jovens e muitos entram na universidade mesmo após a profissionalização nos clubes. Boa parte dos atuais jogadores da atual seleção da Alemanha percorreu este caminho. É uma safra jogadores com talento, habilidade técnica, inteligência tática e psicológica para lidar com as adversidades dentro do campo. No Brasil, apesar das peneiras realizadas pelos grande clubes, não existe um trabalho ordenado, sério e contínuo focado em desenvolver e revelar novos talentos. Vivemos um apagão de talentos. Quer um exemplo? O atacante da Seleção Brasileira, Fred, foi um dos jogadores mais criticados durante a crise. Apesar disso, todos os comentaristas esportivos são praticamente unânimes em afirmar que atualmente não existe outra opção para o lugar dele na Seleção. A falta de escolha para uma posição tão importante no time, que antes despertava entre os torcedores fervorosas discussões, mostra que estamos muito mal.

3. Liga forte dentro de casa
Quer se destacar frente à concorrência? Comece olhando pra dentro, valorizando o que você tem dentro de casa em primeiro lugar. Já faz tempo que o Brasil é um dos maiores exportadores de jogadores do planeta. Exportamos mais atletas do que caju ou banana. Trata-se de um mercado milionário e por muito tempo nos orgulhamos disso… Estávamos errados! Deveríamos ter vergonha, o caminho ideal é o inverso. Os jogadores brasileiro são vendidos para clubes estrangeiros cada vez mais cedo. E este passou a ser o grande objetivo deles. Pergunte a um garoto: você prefere ganhar títulos pela Seleção Brasileira ou ganhar fortuna em times estrangeiros? Este ciclo vicioso trouxe inúmeros malefícios para o Brasil: os jogadores perderam sua identidade e sentimento de ligação emocional com o Brasil (muitos ganham cidadania estrangeira e optam por defender a banderia do país que os acolheu); além da identidade, os jogadores brasileiros que vão cedo para o exterior perdem também o talento natural que têm para o jogo, pois têm que se habituar a outro estilo de jogo; muitos são vendidos para países considerados periféricos do mundo do futebol, como Ucrânia e China, por exemplo, e ao jogar em campeonatos fracos, param de crescer e aprender, passando a jogar um futebol que não requer competitividade; a venda dos principais talentos para fora enfraquece as competições nacionais disputadas no Brasil, que passam a contar com jogadores limitados tecnicamente e sem grande brilho. Basta olhar para o saldo cada vez menor de público do Campeonato Brasileiro e dos estaduais. A qualidade dos jogos, em geral, é muito ruim, afinal, nossos principais talentos jogam no exterior, assim como também é muito ruim a organização e o calendário dos jogos, que extenua jogadores de grandes clubes e deixa ociosos (e desempregados) jogadores dos clubes menores. Na Alemanha, por sua vez, desde 2004, os clubes também foram obrigados a investir em centros de excelência para jovens atletas. Tudo é acompanhado de perto pela Federação, os profissionais são valorizados e o resultado pode ser visto na Bundesliga, o campeonato nacional com maior presença de público do mundo, com média de público de 45 mil torcedores por jogo e ocupação média de 93% dos estádios. Detalhe importante: a Bundesliga é gerenciada pelos próprios clubes. A DFB é responsável apenas pelos assuntos relativos às seleções e ao desenvolvimento da modalidade.

4. Confiança no gestor
Toda vez que um time vai mal (isto também vale para o mundo empresarial), a primeira coisa que os torcedores, ou acionistas, pedem é a troca do técnico/gestor. A troca, quando é feita (e isto via de regra é o que acontece), serve apenas para uma coisa: “jogar pra galera”, ou seja, acalmar os ânimos dos stakeholders sinalizando uma mudança a curto prazo que, dificilmente, trará resultados futuros. Até porque fica o recado a quem assume o posto de comando: o que vale aqui é o resultado imediato e não o planejamento de longo prazo. Se você não traz resultado rápido, vai para a degola. O técnico da Alemanha, Joachim Löw, está na seleção desde o Mundial de 2006, quando ocupava o posto de auxiliar durante a campanha que deixou os alemães em terceiro lugar, jogando dentro de casa. Alçado ao posto principal de comando, Löw levou o time à final da Euro 2008, à semi da Copa 2010 e à semi da Euro 2012. Mesmo sem conquistar títulos expressivos, Löw ficou no cargo, pois é considerado peça-chave para liderar o grupo durante a execução de planejamento de longo prazo da equipe. Confiança faz toda a diferença!

5. Respeito acima de tudo
A premissa básica do trabalho desenvolvido pelos alemães é o respeito. Não sei se isto está escrito em algum código de conduta deles (imagino que sim). No entanto, está implícito e pode ser observado em todas as atitudes do grupo. Desde o dia em que se instalou em Santa Cruz de Cabrália, no sul da Bahia – onde construiu um centro de treinamento customizado, visando se ambientar às condições climáticas do Brasil -, a equipe alemã esbanjou sorriso e simpatia por todos os lados. A comissão e os atletas acabaram interagindo de forma tão amigável com a comunidade local, que muitos moradores da região viraram casaca e torceram pela Alemanha no jogo contra o Brasil. O respeito dos atletas alemães, entretanto, ficou evidente na semi-final com o Brasil. No segundo tempo do jogo, quando ganhavam a partida por 5 a 0, os alemães, por respeito aos anfitriões da casa, fizeram um pacto para tirar o pé do acelerador, pois “não queriam ridicularizar o Brasil”. O zagueiro alemão Hummels teria confirmado o fato ao Daily Mirror, informação depois desmentida pela assessoria de imprensa do time. Quem assistiu ao jogo, no entanto, sabe que isto de fato aconteceu. Se tivessem voltado do intervalo com a mesma “vontade” demonstrada no primeiro tempo, os alemães teriam alargado o placar com muito mais facilidade, além dos 2 gols feitos no segundo tempo. Ao final da partida, os jogadores alemães praticamente não comemoraram a vaga conquistada para final da Copa. Visivelmente constrangidos com a humilhação imposta ao Brasil, resignaram-se a tímidos acenos para a torcida. Após a partida, os principais jogadores da Alemanha postaram nas mídias sociais mensagens de apoio à Seleção Brasileira, enaltecendo a importância do Brasil para a história do futebol. A DFB também publicou no Facebook uma simpática mensagem, em português, onde agradecia a estadia e o carinho do povo brasileiro, desejava sorte e se solidarizava com este momento de dor que os país atravessava.

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Bom Senso Futebol Clube
Para que as lições de casa sejam aplicadas é preciso que o movimento de transformação aconteça primeiramente no topo da pirâmide, onde se encontram os cartolas e dirigentes da CBF e clubes. Aí reside justamente o maior obstáculo para a mudança de mindset. “Se o cartola da CBF falou em ir para o inferno em caso de derrota, esperemos que de lá ele não volte e que os que ficarem por aqui entendam que a derrota tem de servir para fazer desta merecida lição a base para novos tempos, como os alemães fizeram depois da Copa deles, em 2006, no saneamento das finanças dos clubes, na presença dos torcedores nos estádios, na execução do jogo limpo e bonito e na punição aos corruptos, porque corruptos também há por lá, mas punidos sempre que pegos, como aconteceu com o presidente do Bayern de Munique”, escreveu o jornalista esportivo Juca Kfouri, na “Folha de S. Paulo”.

Atualmente, o maior entrave para as mudanças parece ser político. “O meu sentimento é de revolta. Estou há quatro anos pregando no deserto sobre os problemas da Confederação Brasileira de Futebol, uma instituição corrupta gerindo um patrimônio de altíssimo valor de mercado, usando nosso hino, nossa bandeira, nossas cores e, o mais importante, nosso material humano, nossos jogadores. Porque não se iludam, futebol é negócio, business, entretenimento e move rios de dinheiro. Nunca tive o apoio da presidenta do País, Dilma Rousseff, ou do ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Que todos saibam: já pedi várias vezes uma intervenção política do Governo Federal no nosso futebol”, escreveu o ex-jogador e deputado federal Romário em sua página no Facebook.

Segundo Romário, os clubes também têm uma grande parcela de responsabilidade pela crise instalada no futebol brasileiro. “Grandes clubes brasileiros estão falindo afogados em dívidas bilionárias com bancos e não pagamentos de impostos como INSS, FGTS e Receita Federal”, diz. Ainda segundo Romário, um projeto de lei circulou este ano no Congresso Nacional, com a proposta de implantar responsabilidade fiscal, parcelamento de dívidas e a criação de um fundo de iniciação esportiva, com obrigações claras para clubes e CBF, mas terminou engavetado.

“A nova proposta, além de constituir a Seleção Brasileira de Futebol e o Futebol Brasileiro como Patrimônio Cultural Imaterial – obrigava a CBF a contribuir com alíquota de 5% sobre as receitas de comercialização de produtos e serviços proveniente da atividade de Representação do Futebol Brasileiro nos âmbitos nacional e internacional. O tributo também incidiria sobre patrocínio, venda de direitos de transmissão de imagens dos jogos da Seleção Brasileira, vendas de apresentação em amistosos ou torneios para terceiros, bilheterias das partidas amistosas e royalties sobre produtos licenciados. O valor seria destinado a um fundo de iniciação esportiva para crianças e jovens de todo o Brasil. Esses e outros artigos dariam responsabilidade à CBF, punição à entidades e outros gestores do futebol, a CBF estaria sujeita a fiscalização do TCU e obrigada a ter participação de um conselho de atletas nas decisões. Mas este texto infelizmente não foi para a frente”, lamenta Romário.

Desde 2013, o Bom Senso F.C., um grupo criado por jogadores inconformados com a atual situação do futebol brasileiro, tenta implementar mudanças que modernizem a gestão do futebol no Brasil e tragam uma solução para as estatísticas negativas apresentadas abaixo:

– Dos 684 clubes profissionais, 583 não têm calendário anual

– Dos 20 mil atletas profissionais, cerca de 16 mil recebem menos de 2 salários mínimos e ficam desempregados por pelo menos 6 meses no ano

– O endividamento dos clubes cresceu 74% nos últimos 5 anos

– Somente ao Governo, os clubes devem cerca de R$ 2,5 bilhões (equivalente a 75 hospitais ou 178 salas de aula)

– Somos hoje o 18 país em média de público nos estádios no mundo

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O Bom Senso pleiteia a criação de um calendário mais democrático e inclusivo, a instituição do Fair-Play financeiro, ou seja, um sistema que obrigue os clubes a ter responsabilidade fiscal, gastando apenas o montante que arrecadam, e estádios com segurança, conforto e infraestrutura que atraia o público às partidas.

Para o jogador Paulo André, um dos líderes do movimento, chegou a hora de democratizar a CBF. “Devemos aceitar esta derrota como mais uma das muitas importantes lições (sociais e esportivas) que a Copa nos trouxe até aqui. Se a procura por um legado era apenas para justificar o excesso dos gastos públicos, agora passou a ser o último lampejo de dignidade. Então proponho uma solução ao caos, democratizem a CBF e salvem o futebol brasileiro”, escreveu em uma nota à imprensa.

“À imprensa e ao torcedor, digo: Não esperem milagres, não acreditem em soluções mágicas como uma simples troca de comissão técnica ou o aparecimento de um novo Neymar. Se o planejamento e o trabalho forem executados por pessoas competentes, apaixonadas e com conhecimento técnico em cada uma das diversas dimensões do futebol, ainda assim, levaremos pelo menos 10 anos para chegar lá. Uma caminhada de mil milhas começa com um simples primeiro passo”, conclui o atleta.

Em meio a inúmeras teses filosóficas sobre as causas para o “apagão” da Seleção, uma coisa é fato: passou da hora do futebol brasileiro resgatar suas origens (valores), trocar a truculência em campo pelo jogo bonito e apostar em uma gestão moderna. É preciso paciência para colher os resultados, mas a época de plantar as sementes começa agora.

 

Autor: Fernando Ferragino

 

Para saber mais sobre o Bom Sendo FC, acesse: http://www.bomsensofc.org/

 

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