Espiritualidade: o exercício da ética na construção de uma cultura admirada nas empresas | Espiritualidade nos Negócios

Espiritualidade: o exercício da ética na construção de uma cultura admirada nas empresas

Por que algumas empresas são admiradas por funcionários e clientes enquanto outras se esforçam pra chegar ao mesmo patamar sem o mesmo sucesso? Em meio às inúmeras respostas possíveis a esta pergunta, acredito que um dos maiores diferenciais reside na cultura existente dentro da empresa ou, em outras palavras, na espiritualidade que permeia o ambiente de trabalho e que costuma ser traduzida pelos valores e desdobrada nas estratégias e ações das lideranças de uma organização.

A espiritualidade no ambiente de trabalho é elemento-chave para a construção de uma cultura forte, respeitada e com impacto positivo direto na imagem da marca. Antes, é importante esclarecer que você não precisa, necessariamente, seguir uma religião ou possuir uma crença religiosa para desenvolver a espiritualidade. Situada em um degrau diferente da fé religiosa, a espiritualidade possui conexão maior com a prática da ética no dia a dia.

“Espiritualidade é ter propósitos voltados para responder a questões morais, éticas ou até mesmo existenciais daqueles que são afetados pelo funcionamento da organização e cultivar valores humanistas, como solidariedade e uma vida equilibrada. Ela também tem o mérito de fortalecer o vínculo entre as pessoas e oferece a sensação de comunidade”, explica o sócio-fundador da Corall Consultoria, Mauricio Goldstein.

Camaradagem e espírito de equipe
É justamente este sentimento de “pertencer a uma comunidade” o fator decisivo para a construção de uma cultura empresarial bem-sucedida que reflete a essência e o propósito da organização, fazendo assim com que as pessoas se mobilizem em torno de um objetivo comum. Um dos indicadores de mensuração da saúde desta cultura costuma se dar pela camaradagem, ou espírito de equipe, presente entre os funcionários de uma corporação. “Nos bons lugares para se trabalhar, as pessoas acreditam que seus colegas se enxergam como indivíduos completos, que, fora do trabalho, têm suas famílias, hobbies e interesses próprios”, explicam Michael e Jennifer Robin no livro “O melhor lugar para trabalhar”. “E por se verem completas e parte de uma comunidade, se divertem e celebram tanto as conquistas pessoais quanto as profissionais. Se veem também como um grande time e estão dispostas a sair da própria rotina para cooperar e ajudar os outros”.

A liderança tem um papel fundamental na criação de um ambiente que permita e incentive a existência desse clima de camaradagem entre os colaboradores. “Líderes têm uma influência indireta sobre a camaradagem que se forma na organização. Mesmo não podendo força-la, têm como inspirá-la ao contratar pessoas competentes e capazes de se adaptar àquela cultura empresarial; são eles também que podem facilitar a integração dos recém-chegados; determinar a celebração das conquistas e promover a integração dos departamentos da organização para que todos se sintam parte de um time”, explicam os autores.

Espiritualidade nos negócios
No livro “Novas organizações para uma nova economia – um mundo onde as empresas, as pessoas e o planeta prosperam juntos”, Goldstein relata alguns casos de empresas que costumam utilizar a espiritualidade – ou a conexão com uma força maior – para fortalecer a cultura e o sentimento de comunidade entre os colaboradores. É o caso, por exemplo, da Exal, fundada há 20 anos em Curitiba para oferecer soluções de administração de restaurantes corporativos. “Os funcionários de sua operação começam o dia com uma roda de oração e apoio, o que traz maior tranquilidade e proximidade entre todos. Esta prática foi inspirada pela crença individual do fundador, Roberto de Oliveira, em como as pessoas devem ser cuidadas”, conta Goldstein.

Outros exemplos são a empresa californiana Café Gratitude e a brasileira Serasa Experience. “O Café Gratitude inicia seu dia promovendo uma hora de ‘clearing’, um processo criado pelo proprietário Matthew Engelhart, para desenvolver a consciência dos colaboradores e o significado maior do trabalho para a evolução do indivíduo. Na Serasa Experience, a espiritualidade está imbricada com a cultura da empresa e possui várias manifestações explícitas. A empresa é o maior bureau de crédito da América Latina, está presente há 45 anos no mercado brasileiro e conquistou, em 2006, o primeiro lugar no ranking As 100 Melhores Empresas para Trabalhar, promovido pela revista Época e conduzido pelo Great Place to Work Institute. Na empresa, a própria sala da diretoria está localizada sobre uma capela ecumênica. ‘Pergunte aos grupos de oração que se reúnem todas as semanas aqui se é possível tirarmos essa capela da empresa’, provoca Guilherme Cavalieri, o diretor de Desenvolvimento Humano da empresa. ‘Não podemos fazer isso de maneira nenhuma’.”, relata Goldstein.

Para escrever esse livro, Goldstein visitou uma série de empresas de sucesso que estão utilizando uma nova forma de gestão, mais humanizada e focada no senso de propósito e bem comum aos stakeholders, para inovar e construir novos paradigmas de negócios. Segundo o autor, em várias destas companhias, o fundador ou principal líder entrevistado acabou confidenciando que a cultura e os valores disseminados pela organização em questão repousam sobre sua própria crença espiritual particular (seja ela qual for), muitas vezes de forma discreta e inclusiva. “Todos reconheceram a importância destes valores para a empresa ser o que é”, afirma Goldstein.

Costura entre duas dimensões
O professor de Ética na Escola de Comunicação e Artes da USP e autor de vários livros sobre o tema, Clóvis de Barros Filho, concorda com o ponto de vista de Goldstein. Segundo o professor, o desenvolvimento da espiritualidade não implica em uma crença ou adesão a uma religião. Basta ser ético. “Espiritualidade é toda forma de exercício da mente que nos leva a ir além do estritamente experimentado no mundo para o que é absoluto. Ela é uma costura entre duas dimensões que nos é completamente necessária. Nenhum humano se contenta em viver no estrito particular, porque, senão, teria se convertido num animal. É por isso que a espiritualidade com ou sem Deus sempre fez parte da minha vida”, disse numa entrevista à revista Bons Fluídos.

A questão que se apresenta a partir daí é entender, afinal, quando ultrapassamos a linha do que se pressupõe ser ético. “No senso comum, entende-se a ética como uma espécie de tabela onde se teria todas as condutas humanas em duas colunas: pode e não pode fazer. O primeiro problema é se perguntar com base em quais princípios aquelas condutas foram classificadas. O segundo é que as situações de vida se alteram a cada minuto, num ineditismo fulminante. No momento em que você terminou a tabela, ela já está caduca e, claro, você tem de enfrentar questões inéditas. Portanto, mais do que o respeito a uma tabela, a ética precisa ser a disposição para se discutir o que queremos e o que não queremos respeitar. Ela é menos o respeito a verdades estabelecidas no passado e mais uma abertura para o devir, para a convivência no futuro”, filosofa Clóvis.

A alegria do outro
O desafio, segundo o professor, é saber como encarar os dilemas diários que a vida apresenta, afinal, a ética do que é bom ou correto, muitas vezes, difere para os personagens envolvidos numa mesma questão. “O problema é que nem sempre o que você quer, o que a empresa quer e a sociedade espera de você é eticamente bom. Ou não é bom o que ela espera ou não é bom o que você tem de fazer para alcançar o que ela espera. Outro problema de se pensar assim é que nem sempre os resultados alcançados se devem exclusivamente à conduta do agente. Não só não controlamos como desconhecemos as variáveis que fazem muitas coisas acontecerem”.

Seja qual for sua resposta para a vida ou seu pensamento sobre o assunto, uma coisa é fato: é preciso abrir mão dos impulsos individuais em nome do bem comum. Para o professor, um caminho pode ser encontrado nos ensinamentos de Jesus Cristo. “A filosofia de Cristo nos aponta para uma forma de salvação tranquilizadora, mas que coloca como condição para isso o amor de uns pelos outros. Sem dúvida, uma condição exigente. Afinal, ela nos cobra ir além do nosso umbigo e dos próprios desejos e entender que o sentido maior da vida está na alegria do outro”.

Autor: Fernando Ferragino

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