Rubem Alves: “Nós fomos criados para a felicidade”. O adeus ao mestre e as sementes que um dia se transformarão em ipês-amarelos | Espiritualidade nos Negócios

Rubem Alves: “Nós fomos criados para a felicidade”. O adeus ao mestre e as sementes que um dia se transformarão em ipês-amarelos

Por que a chuva cai em gotas e não toda de uma vez? Por que a água quente amolece a cenoura e endurece o ovo? Quem fez a Terra girar? Por que o sapatinho de cristal da Cinderela não virou tamanco depois da meia-noite, quando o feitiço acabou? Questões assim sempre incomodaram Rubem Alves e fizeram com que ele vivesse e visse o mundo com olhar de criança, de eterna curiosidade. Esta mesma inquietação foi responsável por uma obra extensa, com mais de 160 títulos publicados em 12 países, que o poeta, filósofo, cronista, pastor, contador de histórias, ensaísta, escritor, teólogo, psicanalista, acadêmico, místico e educador Rubem Alves nos deixou como legado antes de partir, aos 80 anos (ele desencarnou no dia 19 de julho, em Campinas, no interior de São Paulo, após permanecer alguns dias internados na UTI devido a um quadro de pneumonia).

Rubem lamentava o fato de perdermos a capacidade de fazer perguntas, quando adultos, e sabia que a educação depende de provocação para acontecer. Ao longo do tempo, foi justamente nesta arte que Rubem se aprimorou: em ser um exímio provocador. Em seus textos, o autor sempre contestou fatos que costumamos tomar por “verdades”. Falou praticamente sobre tudo: amor, solidão, velhice, educação, relacionamentos, política, felicidade, religião… escreveu sobre todas as dimensões da vida. Por “pensar diferente”, Rubem colecionou uma série de desilusões ao longo da vida, que para ele não foram motivo de dor, mas de libertação. “A minha vida é marcada por várias desilusões, que me levaram a ultrapassagens. Me desiludi com a religião, com o amor… mas essas desilusões foram momentos de liberdade!”, disse.

Ostra feliz não faz pérola
Apesar de ter sido pastor na Igreja Presbiteriana, Rubem sempre questionou e criticou o Deus sádico e severo das religiões ocidentais. “Por que não oferecemos ler um poema de Fernando Pessoa todas as tardes para pagar uma promessa, ao invés de subir uma escadaria de joelhos?”. Rubem acreditava num Deus jardineiro, que valorizava o prazer à dor. “No paraíso, Deus não construiu altares e catedrais. Plantou um jardim. Deus é um jardineiro. Por isso plantar jardins é a mais alta forma de espiritualidade”, afirmava. Ainda assim, Rubem sabia como ninguém tirar proveito de seus momentos de dor para escrever verdadeiros tesouros em forma de contos e crônicas. “Ostra feliz não faz pérola. Ostra pra fazer pérola tem que ter um grão de areia dentro dela. O grão de areia faz a ostra sofrer e a ostra faz a pérola pra deixar de sofrer. As histórias vêm porque estou sofrendo”, explica.

Crítico da pressa da sociedade moderna (em especial dos cursos de leitura dinâmica, que julgava ser uma heresia), Rubem sempre afirmou que o prazer requer tempo. “Prazer rápido só galo e galinha têm. Temos que gastar tempo porque a vida é pra isso. Não dá para ler Guimarães Rosa em 30 minutos. Quando a gente fala que está ganhando tempo, estamos, na verdade, estragando tempo… A vida é perdida no sentido de que vamos morrer, mas até lá é um desafio, uma aventura e está cheia de uma coisa maravilhosa que se chama alegria”.

Assim como Bachelard, Rubem concordava que “fomos criados para a felicidade”, mas alertava que precisamos estar atentos pra não deixar este momento passar. “A gente precisa prestar atenção porque a alegria vem e às vezes não percebemos. Ela não vem em coisas grandes. Felicidade é muito grande, não existe, o que existe são momentos de alegria. Quer coisa mais gostosa do que fazer xixi ou tomar um banho quente? Que felicidade fantástica e a gente não presta atenção nisso… Felicidade não é uma causa perdida porque as coisas essenciais da vida, a gente encontra a cada momento SE a gente souber prestar atenção”.

Jardim de ipês-amarelos
Na história oficial, Rubem sempre será lembrado como um grande educador e pedagogo. Eu, por outro lado, sempre lembrarei dele como uma das mais importantes figuras místicas dos tempos modernos… um místico que não precisava fechar os olhos para ver Deus, mas que enxergava o divino nas diferentes e infinitas formas, cheiros e sabores que encontramos na Natureza. Muito embora, se você perguntasse como ele gostaria de ser lembrado, responderia que a frase que o melhor define é: “O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos”, afinal, as pessoas são aquilo que elas amam.

Muito mais do que escritor de textos, Rubem Alves era um grande fotógrafo de um universo que poucas pessoas têm sensibilidade para enxergar. Como disse certa vez, fazia fotografias com palavras para que as outras pessoas também pudessem ver e apreciar, da mesma forma que apreciamos um belo prato de comida feito pelo grande chefe de cozinha que se entrega com paixão ao ofício. E tinha o dom de transformar as palavras derramadas sobre o papel em alimento para o espírito, assim como acontece na eucaristia.

Rubem não tinha medo da morte, mas tinha tristeza em relação ao partir. Sobre o crepúsculo que se aproximava, uma vez disse: “O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui… Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos…”. Rubem, com certeza, deixou um planeta mais florido ao partir. As sementes estão todas espalhadas por aí, levadas pelo vento ao encontro daqueles que buscam, mesmo sem saber o que esperam encontrar.

Autor: Fernando Ferragino

 

Pra quem nunca teve o privilégio e o prazer de saborear um livro de Rubem Alves, compartilho a seguir quatro vídeos (entrevista de Rubem Alves no programa “Provocações” de Antonio Abujamra) e uma crônica escrita pelo autor. São aperitivos, mas ainda assim merecem ser degustados com tempo, pra que se sinta todo o sabor. Boa refeição!

 

 

 

 

 

 

 

 

 
“Os ipês-amarelos”
por Rubem Alves

ipeamarelo

Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: “E quem é Rubem Alves?”. Um menininho respondeu: “O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos…”. A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.

Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores… Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão…), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme “Moça com Brinco de Pérola”), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.

Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.

Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: “Rosa de água com escamas de cristal…”.

Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.

Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.

Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui… Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos.

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