Palavras de Poder – insights poderosos para o despertar da consciência | Espiritualidade nos Negócios

Palavras de Poder – insights poderosos para o despertar da consciência

Ao ler um livro, você alguma vez já pensou “caramba, esse é o livro que eu gostaria de ter escrito?”. Pois foi exatamente essa a sensação que tive ao ler os dois primeiros volumes de “Palavras de Poder”, projeto idealizado pelo jornalista Lauro Henriques Jr. Com o propósito de fazer um livro sobre autoconhecimento e possibilitar ao leitor acesso a diferentes pontos de vista sobre diversas correntes filosóficas e religiosas, Lauro conseguiu a proeza de entrevistar e reunir num mesmo lugar uma verdadeira seleção de grandes mestres contemporâneos da espiritualidade, não só no Brasil, mas do mundo inteiro.

Durante os dois anos que levou para concluir o projeto, Lauro teve o privilégio de conversar pessoalmente com 26 grandes pensadores e místicos do nosso tempo, tais como Amit Goswami (cientista especialista em física quântica), Professor Hermógenes (um dos maiores difusores brasileiros da yoga), Ian Mecler (referência em cabala), Susan Andrews (instrutora de biopsicologia), Leonardo Boff (teólogo), Yehuda Berg (rabino referência mundial em cabala), Stanislav Grof (criador da psicologia transpessoal), Roberto Otsu (professor de taoísmo), Susan e Donovan Thesenga (psicoterapeutas adeptos do Pathwork), Dom Laurence Freeman (monge beneditino), Lama Surya Das (budista), Monja Coen (zen budista), Robert Walter (presidente da Joseph Campbell Foundation), Divaldo Franco (médium), José Ângelo Gaiarsa (psicoterapeuta), Jean-Yves Leloup (padre ortodoxo), Susan Andrews (astróloga), entre outros.

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Lauro Henriques Jr

O propósito do trabalho de Lauro não é questionar ou colocar em xeque as diferentes religiões e ideologias (aí está sua grande sacada), mas esclarecer, jogar luz sobre a consciência espiritual de cada entrevistado e revelar o que há por trás de rituais, práticas e verdades assumidas por cada uma das personalidades com quem conversou. Por meio das lentes de cada entrevistado, Lauro busca revelar e estabelecer uma conexão entre a espiritualidade e o nosso “ser/agir” no dia a dia. Afinal, não precisamos ir ao Himalaia para desenvolver a espiritualidade. O grande desafio é estabelecer esta conexão e encontrar o ponto de equilíbrio e serenidade em meio ao caos da vida moderna. O resultado do trabalho é um caldeirão efervescente de ideias e insights que ampliam as portas da percepção para novos mundos e descobertas. Cada página traz pílulas de sabedoria que apontam para cenários recheados de sonhos e possibilidades de transformação.

Depois do sucesso dos dois primeiros livros, Lauro está lançando agora o terceiro volume de “Palavras de Poder”. Nesta nova obra, ele repete a fórmula das edições anteriores e traz uma nova rodada de entrevistas com 11 grandes mestres da atualidade: Eckhart Tolle (autor do clássico best-seller O Poder do Agora), Claudio Naranjo (psicoterapeuta e educador chileno), Don Miguel Ruiz (xamã mexicano), Julia Cameron (escritora norte-americana, autora de “O Caminho do Artista”), Conceição Trucom (escritora e cozinheira da alma), Reginaldo Prandi (especialista em crenças afro-brasileiras), Mãe Stella de Oxóssi (mãe de santo mais influente do país), Pir Zia Inayat-Khan (doutor em religião e presidente da Ordem Sufi Internacional), Frei Betto (escritor, teólogo e frade dominicano), Sri Prem Baba (líder espiritual) e Rubem Alves (o Mestre dos Magos).

A vaquinha magricela
Assim como nos livros anteriores, os entrevistados são sempre apresentados por meio de uma fábula ou conto, que, de alguma forma, estabelece relação direta com a filosofia ou crença professada de cada um. São histórias maravilhosas, que aquecem a alma, com ensinamentos que contribuem para o despertar espiritual. Uma das minhas prediletas é a que Lauro conta no prefácio do primeiro volume, sobre a vaquinha magricela:

Dois monges caminhavam pelas montanhas quando avistaram um casebre. Cansados, resolvem pedir um pouco de água e abrigo para a noite. Chegando lá, no entanto, eles encontram um casal com três filhos em condições paupérrimas, todos malvestidos e subnutridos, em uma casa caindo aos pedaços. Mesmo nestas condições, a família os abriga e divide com eles o pouco alimento que têm para a noite. Grato pela receptividade, o mestre pergunta como eles conseguem sobreviver em meio àquelas condições, num local tão pobre e afastado. “O senhor vê aquela vaquinha? É graças a ela que estamos vivos”, responde o chefe da família. “Mesmo sendo tão magrinha, todo dia ela nos dá leite para beber e fazer um pouco de queijo. E, quando sobra, trocamos o leite por alimentos na cidade. Se não fosse por ela, já estaríamos mortos”, diz o homem. No dia seguinte, os monges agradecem a hospitalidade e partem. Após passar por um precipício que margeava a estrada, o mestre manda o discípulo voltar e jogar a vaca no abismo. O discípulo fica atônito, pensa que o mestre perdeu o juízo, tenta argumentar sobre a importância do animal para o sustento da família, mas, diante do silêncio do mestre, resolve então acatar a ordem. Anos mais tarde, atormentado pela culpa, o discípulo resolver visitar a família novamente, para pedir perdão e saber como estão. Para sua surpresa, ao chegar ao local, no lugar da velha casa, o discípulo se depara com um lindo sítio, com uma casa enorme, com piscina e empregados. Ao avistar um homem robusto e bem vestido na entrada, o discípulo pergunta pela antiga família que morava no local. Para sua surpresa, o homem responde: “ora, somos nós mesmos”. Pasmo, ele pergunta como a família conseguiu prosperar tanto. Ao que o sorridente fazendeiro responde: “Tínhamos aquela vaquinha que nos dava nosso sustento, mas, no dia em que vocês partiram, ela caiu no desfiladeiro e morreu. No começo, achamos que íamos morrer de fome. Mas, diante da necessidade, todos nós tínhamos que encontrar alguma atividade nova para ganhar a vida e, com isso, acabamos descobrindo talentos que nem sonhávamos ter. E o resultado é esse que você vê”.

Você já está “iluminado”. Desperte!
Segundo Lauro, esta história é uma metáfora para a forma como, sem consciência, passamos a vida inteira nos apoiando em alguma “vaquinha magricela”. “Uma vaquinha que pode se manifestar em relação às mais variadas questões que enfrentamos na vida: a falta de realização profissional, a incapacidade de viver um grande amor de verdade, o apego diante da perda de um ente querido, a dificuldade em aceitar a si mesmo e aos outros”, explica. A vaquinha é tudo aquilo que nos mantém presos ao “pouco”, que nos impede de tomar as rédeas de nossas próprias vidas e também nos impede de acreditar que podemos e merecemos mais. As entrevistas contidas nos três livros giram, de certa forma, ao redor dessa tônica e procuram oferecer ao leitor novos caminhos e possibilidades de ser e de se colocar no mundo.

“Um dos propósitos é fazê-lo despertar para a própria realidade de seus sonhos, é ajudá-lo a resgatar e manifestar o seu inalienável direito de delirar. E esse direito de delirar, para além de qualquer clichê, nada mais é do que o direito de acreditar que, sim, tudo o que você sonha realizar em sua vida é possível de ser realizado – é o direito de descobrir que aquilo que você mais busca talvez já repouse aí, dentro da fonte do seu próprio ser”, afirma Lauro.

Como o mestre indiano Osho disse certa vez, a iluminação é sempre súbita, porque não é uma conquista. Você já está iluminado! Apenas não se deu conta disso, pois ainda permanece “dormindo”, sem consciência do seu Eu maior.

E você, está preparado para jogar sua vaquinha magricela no precipício?

Autor: Fernando Ferragino

Curtiu o assunto? Veja as entrevistas com Lauro Henriques Jr nos programas “Provocações” (com o sempre brilhante provocador Antônio “Ravengar” Abujamra) e “Sem Censura” (com Leda Nagle).


“Eu não vi a luz, mas sei quem viu”

Reproduzo abaixo texto de autoria do próprio Lauro Henrique Jr, publicado na revista Trip, onde ele fala sobre os bastidores do livro, iluminação e sua jornada de autoconhecimento:

Certa vez, um sábio imperador convocou os pintores mais talentosos do mundo e lançou o desafio: daria um prêmio fabuloso àquele que fizesse o melhor retrato da paz. Mãos à obra, o resultado foi uma série dos quadros mais incríveis jamais vistos. Dentre eles, o monarca selecionou dois finalistas. No primeiro, via-se um lago cristalino, que refletia as montanhas verdejantes à sua volta e os pássaros voando no céu azul. Já no segundo, um despenhadeiro erguia-se sob um céu negro, cortado por relâmpagos, enquanto uma cachoeira desabava morro abaixo junto da tempestade. Todos se maravilhavam ao ver a primeira obra, já prevendo a sua vitória; afinal, a outra era o oposto da paz.

Porém, para assombro geral, foi justamente a segunda a escolhida pelo imperador, que explicou sua decisão: “Vocês não observaram o detalhe mais importante da pintura. Reparem ali”. Todos, enfim, notaram: atrás da cachoeira, saindo das ranhuras da rocha, havia um pequeno arbusto e, nele, um ninho de passarinho – nesse ninho, alheio ao caos reinante, a mãe passarinho chocava seus ovos em paz. “Estar em paz não significa estar onde não há confusão ou dificuldades”, disse o imperador. “A verdadeira paz acontece quando, mesmo em meio a tudo isso, você permanece calmo em seu coração.”

A lenda desse vernissage imperial ilustra um ponto fundamental comum às mais diversas tradições espirituais, e que talvez sirva como um bom ponto de partida para o assunto dessas páginas, iluminação. Ela ensina que, assim como estar em paz não implica estar onde não há confusão, ser uma pessoa espiritualizada, ou “iluminada”, não significa estar isolado das demandas e questões do cotidiano.

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Durante as conversas que renderam meu livro, Palavras de poder: entrevistas com grandes nomes da espiritualidade e do autoconhecimento no Brasil e no mundo (Editora Leya), entre tantas tradições e linhas de pensamento, uma coisa ficou bastante clara: a prática espiritual não é algo que se faça, necessariamente, em um templo, uma mesquita, uma sinagoga ou, quem sabe, em cavernas nos Himalaias. Os espaços sagrados, ou os retiros e as jornadas, são importantes e valorizados, mas todos aqueles entrevistados insistiam que o contato com o divino se dá, especialmente, no dia a dia, na banalidade do cotidiano, sem precisar de grandes aparatos para isso.

Uma das minhas entrevistadas, a budista Monja Coen, por exemplo, fala de como até uma simples caminhada pode ser um grande exercício de meditação. Você não precisa sentar-se numa almofada de estampas indianas, cruzar as pernas e fechar os olhos. Se, ao caminhar, alguém respira com tranquilidade, prestando atenção aos sons à sua volta, já está em meditação. Simples como isso.

Evidentemente, o fato de algo ser simples não significa que seja fácil de ser colocado em prática. Do mesmo jeito que o complicado, e aquilo que nos parece difícil, não quer dizer que seja impossível de fazer – os dois anos que passei me dedicando ao livro mostraram exatamente isso.

Mão na massa
O projeto do Palavras de poder é fruto de minha própria trajetória, das várias linhas e tradições com as quais entrei em contato ao longo dos anos, cada uma à sua maneira gerando transformações positivas em minha vida. Na maioria das vezes conheci essas vertentes graças à minha curiosidade: buscando tal autor citado em uma nota de rodapé; assistindo a tal workshop de respiração aqui; certa palestra sobre taoísmo ali; uma jornada xamânica acolá. Porém, não havia um livro que apresentasse tudo isso no mesmo pacote. E minha ideia foi justamente esta: reunir a essência de todas essas linhas, de forma clara, acessível, para ajudar as outras pessoas em seu próprio caminho – decidi escrever a obra que gostaria de ter lido.

Mas colocar em prática essa ideia simples foi uma empreitada que consumiu quase dois anos de labuta, trabalhando três turnos por dia, sem direito a férias nem feriados. Afinal, se no jornalismo muitas vezes já é bastante difícil acessar alguma fonte específica, para marcar uma entrevista com 26 pessoas, quase metade delas estrangeiras e todas com agendas extremamente lotadas, realmente é preciso uma ajudinha lá de cima para a coisa dar certo.

Por exemplo, com algumas pessoas, como a astróloga pop americana Susan Miller, gastei praticamente um ano de negociações entre o primeiro contato e o dia em que, finalmente, conseguimos realizar a entrevista. Só essa parte de produção para agendar os encontros exigiu uma troca de, literalmente, milhares de e-mails e telefonemas – isso sem contar, claro, o trabalho intenso de apuração, elaboração, transcrição e edição das entrevistas.

Salve o prazer
Todo suor, organização mental, gigabytes armazenados, quilômetros rodados e jogo de cintura ficam pequenos perto do prazer, dos encontros gratificantes e da enormidade de causos para contar. Um dos melhores ocorreu durante o encontro com o psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa (1920-2010), considerado o maior especialista brasileiro em comunicação não verbal, um iconoclasta que já foi o “terror das mamães conservadoras” por sua postura irreverente e sem papas na língua em relação a temas como família, amor e sexualidade. Com um currículo desses, o doutor Gaiarsa até se espantou quando o convidei para participar do projeto. A princípio, ele me disse: “Mas, Lauro, o que eu vou fazer em um livro sobre espiritualidade? Meus deuses são a mulher, o corpo, a criança”. Expliquei, então, que o livro não era sobre religião, mas que incluía as várias formas pelas quais a espiritualidade pode se manifestar em nossa vida, como a consciência em relação ao nosso próprio corpo.

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José Ângelo Gaiarsa

Foram horas e horas de uma conversa riquíssima, em que o doutor Gaiarsa ia pontuando toda sua exposição com histórias surpreendentes, como o caso de um monge budista que passou por anos de preparação até que lhe fosse permitido entrar no templo mais sagrado de uma cidade no Tibete. Então, quando o sujeito finalmente teve autorização para entrar no templo, o que foi que avistou lá, em cima de um altar? Ele viu uma escultura maravilhosa de um casal em plena relação sexual, com a mulher e o homem sentados de frente um para o outro, num abraço em que se entrelaçavam totalmente. “E por que essa imagem está num altar? Porque o encontro sexual não é uma ‘transa’, ele é o ato da criação”, concluiu o doutor Gaiarsa.

A essa altura, já estávamos os dois completamente sintonizados, em profunda empatia, quando ele me disse: “Lauro, estou amando nossa conversa. Dessa sua espiritualidade eu gosto!”. Gaiarsa morreu poucos meses depois da nossa conversa, aos 90 anos.

O bom equilibrista
Foi a história contada pelo psicoterapeuta que me chamou a atenção para o quanto as palavras “espiritualidade” ou “iluminação” são assustadoras para a maior parte das pessoas. Como se o despertar espiritual fosse algo reservado a poucos eleitos, um feito inalcançável para alguém que, como eu e você, tem contas a pagar e horário para entrar no trabalho.

Acontece que, por paradoxal que pareça, as diversas tradições são convictas em afirmar que a iluminação espiritual não é algo a que se deva chegar. Pelo contrário, a maior parte afirma que basta reconhecer que a luz já existe em nós.

“A iluminação é sempre súbita, porque não é uma conquista”, disse o mestre indiano Osho. “Você está iluminado, mas não tem consciência disso. [O que chamamos de iluminação, na verdade] é a conscientização de que aquilo já existe.” E essa luz se manifesta sob a forma de ação em benefício do próximo – seja uma pessoa, um animal ou uma árvore. Evidentemente, não adianta se julgar um iluminado se seus atos não o são. Ou, como dizia uma frase que circulou na internet, “pouco importa praticar yoga e meditação e não cumprimentar o porteiro de seu prédio”.

Uma parte constante do aprendizado é se familiarizar com os erros. Somos humanos, falhos e sujeitos a cair. “O importante na vida não é ser uma pessoa equilibrada, mas ser um bom equilibrista” – mais uma das boas frases do doutor Gaiarsa. Assim, a questão não é ficar o tempo todo querendo ser “o equilibrado”, “o iluminado” (correndo, naturalmente, o risco de virar “o chato”), mas ter a consciência de que, se escorreguei aqui, se vacilei ali, posso retornar de novo a meu centro e, a partir daí, procurar agir da melhor forma da próxima vez. Como afirmou o rabino cabalista Yehuda Berg em nossa entrevista: “O trabalho do mal é nos manter para baixo, e o nosso trabalho é lutar para voltar para cima. Não se trata da queda em si, mas de ser capaz de se levantar de novo”.

Uma rapidinha?
Agora, em meio a todo esse eterno balança-mas-não-cai, nada melhor do que procurar manter a leveza. Isso é algo que foi destacado por vários de meus entrevistados, como o Lama Surya Das, um budista americano considerado pelo próprio Dalai Lama um de seus conselheiros. No caso da meditação, por exemplo, embora seus benefícios já estejam mais do que comprovados, pouquíssima gente tem a disciplina para meditar, nem que seja ao menos 20 minutos pela manhã. Bom, e qual é a sugestão do Lama Surya Das? Em vez de ficar se martirizando por não conseguir meditar, procure dar uma rapidinha – ou melhor, várias rapidinhas! “Rapidinha” é como o Lama se refere a pequenas meditações de um minuto, que qualquer pessoa pode fazer em vários momentos ao longo do dia. Pode ser enquanto espera o elevador, parado no trânsito, na fila do restaurante, no banheiro – oportunidades não faltam. Basta fazer uma respiração profunda, relaxar, ouvir os sons ao redor. Um minutinho apenas, e depois é tocar a vida adiante. Eu mesmo, enquanto escrevia o livro, fazia centenas de rapidinhas para dar conta do recado.

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Lama Surya Das

Aliás, em relação a meu encontro com o Lama Surya Das, aconteceu uma história bem bacana. Encontrei o Lama perto de Boston, Estados Unidos, nas proximidades do lago Walden – o mesmo em cujas margens viveu o escritor Henry D. Thoreau e que o inspirou a batizar sua obra-prima de Walden ou A vida nos bosques. Caminhei por horas ao redor do lago antes de ir falar com ele, já entrando bem no clima. E, de fato, foi uma conversa de muitos insights e muita conexão. Terminado o papo, nos despedimos e, quando eu já saía pela porta, ele me chamou. Ao me virar, vi que ele vinha em minha direção, tirando o seu mala (espécie de terço de oração budista) do próprio pulso e colocando-o no meu. E ainda me contou que aquele era um presente que havia recebido do Dalai Lama em pessoa. Era mais do que uma pulseirinha, mas um instrumento que, para ele, representava toda uma linhagem à qual pertence. Foi naquele gesto que percebi o quanto o lama havia entendido a proposta do livro e me considerava digno de passar adiante as coisas sobre as quais havíamos conversado.

Tudo acontece como tem de ser
Susan e Donovan Thesenga, um casal de psicoterapeutas americanos, me deram uma grande lição sobre a aceitação plena da vida, como algo muito mais real e possível do que um amontoado de palavras edificantes. Passei uma semana com eles numa área rural ao sul de Washington D.C., onde vivem. Ao chegar à cidade, liguei para Susan, que educadamente me disse que eles teriam de viajar “para resolver uma urgência na família”, mas que falaria pessoalmente comigo.

Encontrei o casal logo depois daquela ligação; serenos, apesar de objetivos. Haviam organizado tudo para minha estadia. Até um celular haviam providenciado para mim. Nos despedimos e eles, ambos com mais de 70 anos, pegaram a estrada. Começamos as sessões de entrevista no dia seguinte quando, segundo Susan, “tudo estava resolvido”. Não quis ser inconveniente e não perguntei sobre qual havia sido a urgência na família.

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Ao longo das conversas que tivemos naquela semana, um ponto destacado por ambos foi o valor da aceitação, de que tudo acontece como tem que ser. Uma postura que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com resignação. Não é a pessoa cortar o pé, perder o emprego e dizer: “Que ótimo!”. Mas aceitar que aconteceu e buscar entender qual o melhor aprendizado trazido por aquela situação. Segundo eles, uma compreensão que só obtiveram após viver uma experiência extremamente difícil com a filha adotiva: ela passou dez anos viciada em heroína, com todo o inferno pessoal e familiar que uma situação dessas implica, até largar o vício. Mas realmente só tive a devida dimensão do que eles diziam sobre a aceitação no fim de minha estadia, quando, a convite do casal, participei de um workshop conduzido por eles. Nesse dia, Susan contou para o grupo que, no início da semana, haviam recebido uma denúncia de que a filha teria sucumbido à heroína de novo. Aquela era a urgência.

As pessoas que me receberam com toda a atenção quando cheguei eram as mesmas que, naquele dia, se deparavam com uma possível recaída da filha no vício. Só que, em vez de se descabelarem, estavam objetivamente fazendo o que precisava ser feito. E, felizmente, descobriram que a “denúncia” não era verdadeira.

Só entendi o que meus entrevistados diziam sobre aceitação plena da vida quando, em um workshop, soube que, havia poucos dias, eles haviam recebido a denúncia de que a filha teria recaído no vício em heroína.

Dar vida a esta vida em nossa vida
Outra comprovação da possibilidade prática de uma ação iluminada, mesmo diante dos eventos mais difíceis, veio durante meu encontro com a Monja Coen. Como o budismo trata muito da questão do desapego, ela foi uma das únicas pessoas com quem abordei, diretamente, o tema da morte (com cada entrevistado, busquei levantar os temas mais pertinentes à sua linha específica). Já estávamos no meio de nossa conversa, que transcorreu de forma profunda, mas bem-humorada, quando perguntei sobre o melhor meio de lidar com a perda de um ente querido. Então, na mesma serenidade com que vínhamos conversando, ela me disse que, apenas dois dias antes, havia perdido o pai, após um sofrido processo de doença. E sua resposta foi esta: “É uma experiência das mais difíceis. Por mais que alguém diga: ‘Já sou uma pessoa consciente, iluminada, não vou sentir nada’, é mentira. Não há como ficar indiferente, pois nos toca, dói. Ao mesmo tempo, é essencial não se apegar a essa dor – não se apegar à pessoa que parte nem à dor que fica. Quando alguém que amamos se vai, uma parte dessa pessoa também fica em nós. O essencial é dar vida a essa vida em nossa vida. Que qualidades tinha este ser que eu amava? Será que, em minha vida, consigo manifestar essas qualidades para os outros? Isso é muito importante. Assim, a pessoa que se foi não desaparece, pois continua viva em nós”.

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Monja Coen

Isso é de uma beleza e profundidade enormes. Ainda mais quando é dito de forma serena, amorosa, por alguém que, dias antes, havia passado pela perda do próprio pai. Na verdade, quando se fala da iluminação espiritual, um denominador comum ao discurso de diversas linhas é a importância de nos lembrarmos de que a morte pode acontecer a qualquer momento. Vários textos tratam de como a pessoa iluminada é aquela que tem consciência de que pode morrer a qualquer momento. E por que ela é iluminada? Porque não desperdiça mais a vida.

Por exemplo, você nunca ouve alguém que está no leito de morte arrepender-se por não ter comprado um carro novo, por não ter usado determinado vestido numa festa, esse tipo de coisa. O que se ouve é a pessoa arrepender-se por causa das brigas que teve com a família, por não ter passado mais tempo com os amigos, por não ter feito o que realmente gostaria. Agora, a questão é esta: ninguém precisa esperar chegar ao leito de morte para ter essa consciência – ou a chamada “iluminação”.

Todos iguais
Depois de falar com tanta gente boa, de todo o trabalho envolvido para dar vida aos dois volumes de Palavras de poder, uma certeza que fica é esta: se meu intuito com o projeto era o de ajudar as pessoas, a primeira pessoa que acabei ajudando foi a mim mesmo. Ao longo do processo, minha vida foi ganhando em vários aspectos, como a certeza de que somos todos iguais, de que estamos aqui uns para ajudar os outros, uns para aprender com os outros. Pude comprovar isso claramente a partir de uma proposta que fiz aos entrevistados, a de que cada um elaborasse uma pergunta para ser respondida por outro. E o resultado dessa “mesa-redonda” foi surpreendente, com sacadas bem interessantes, em que todos se dispuseram, sinceramente, a aprender uns com os outros. O que mostra também que, apesar da diversidade de linhas e tradições, em essência, todas apontam para o mesmo ponto. É como no caso de uma orquestra, em que você tem vários instrumentos diferentes, mas todos tocando juntos para compor a mesma harmonia.

Por fim, se há um aprendizado que fica em relação ao despertar espiritual é este: a verdadeira iluminação é aquela que se manifesta de modo prático na vida, sob a forma de mais amor, mais generosidade, mais tolerância, mais amizade, mais alegria. E com a grande vantagem de que sempre se pode dar uma rapidinha!

Texto: Lauro Henriques Jr
Fonte: Revista Trip

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