Propósito + Felicidade no trabalho = Lucro maior. Novo estudo e sucesso da rede Whole Foods mostram que RH e empresas tradicionais precisam repensar a gestão | Espiritualidade nos Negócios

Propósito + Felicidade no trabalho = Lucro maior. Novo estudo e sucesso da rede Whole Foods mostram que RH e empresas tradicionais precisam repensar a gestão

Afinal, uma empresa com ambiente de trabalho saudável e funcionários felizes produz mais ou não? Pra tirar a dúvida dos empresários que insistem na gestão tradicional atrelada a resultados de curto prazo e no famoso corte de custos (a qualquer preço) como remédio salvador para todos os males, o professor de finanças da London School of Economics, Alex Edmans resolveu examinar empiricamente a questão. Após analisar o desempenho das companhias que estiveram no ranking das melhores empresas para trabalhar, nos Estados Unidos, nos últimos 26 anos, Edmans identificou que as companhias abertas que entraram no ranking registraram valorizações anuais de 2% a 3% acima da média do mercado. A mesma correlação entre felicidade no trabalho e retornos maiores na Bolsa de Valores também foi encontrada em outros países. No Brasil, o valor das companhias na mesma situação superou a média do mercado em 7% ao ano entre 1998 e 2011.

Os resultados apontam uma tendência já confirmada em outro estudo similar publicado por John Mackey e Raj Sisodia no livro “Capitalismo Consciente: liberando o espírito heroico dos negócios”. Os autores compararam o retorno dos investimentos – em cortes de 15, 10 e 5 anos – de empresas qualificadas como “firms of endearmnt” (firmas queridas) com os resultados alcançados pelas 500 maiores companhias do ranking Standard & Poors, lista elaborada com base no volume de negócios realizados no mercado de ações norte-americano. O resultado, conforme você pode ver abaixo, deixa nítida a vantagem que as empresas com gestão mais humanista e/ou espiritualizada têm sobre as empresas convencionais que operam apenas sob a conveniência da busca pelo lucro, sem respeitar ou levar em conta o interesse dos diferentes stakeholders que gravitam em torno da corporação.

Comparação entre o retorno dos investimentos das Firmas Queridas e das empresas listadas no S&P 500 (1996 a 2011)

15 anos
Firmas Queridas – 1.646,1% (Acumulado) – 21,0% (Anual)
S&P 500 – 157,0% (Acumulado) – 6,5% (Anual)
10 anos
Firmas Queridas – 254,4% (Acumulado) – 13,5% (Anual)
S&P 500 – 30,7% (Acumulado) – 2,7% (Anual)
5 anos
Firmas Queridas – 56,4% (Acumulado) – 9,4% (Anual)
S&P 500 – 15,6% (Acumulado) – 2,9% (Anual)

Ainda segundo Mackey, as empresas conscientes chegam a investir de 10% a 25% menos em marketing do que o restante do mercado, pois uma vez que são queridas e admiradas por clientes e demais stakeholders, têm a fama e confiança disseminadas pelo boca a boca, ao passo que em que as demais corporações precisam investir quantias vultosas em publicidade para atingir resultados parecidos.

Mentalidade industrial
Apesar dos resultados positivos obtidos por empresas que investem em um ambiente de trabalho mais saudável serem claros e tangíveis, o professor da London School of Economics critica que muitas organizações ainda estão presas à uma visão tradicionalista que norteou a construção da era industrial e que preconiza que “empregados devem ser tratados como qualquer outro insumo da cadeia produtiva”. “Quem segue preso ao fordismo continua adotando a estratégia do ‘porrete e da cenoura’. Muitos ainda condicionam o pagamento ao número de unidades produzidas, sem perceber que essas medidas não fazem mais sentido. Não é dessa forma que se mede a qualidade de um gestor que passa horas instruindo subordinados ou pensando em medidas para melhorar o clima no escritório”, afirma Edmans.

Na mesma medida, o professor também critica as empresas que sustentam a preocupação com o funcionário somente no discurso, como artifício de marketing. Segundo Edmans, uma pesquisa feita na Alemanha mostrou que o valor das ações de uma empresa cai na bolsa quando os empregados passam a ter voz na gestão dos negócios. Para o professor, é cada vez mais evidente que a satisfação dos funcionários tem papel crucial no sucesso dos negócios. “De certa forma, tudo se resume em atrair os melhores talentos e deixa-los em paz para produzir. Simples. E extremamente complexo”, escreveu em um artigo publicado na revista Exame.

Whole Foods: gestão espiritual e capitalismo consciente na prática
A avaliação feita por Edmans encontra ressonância com o que acontece na prática na Whole Foods, a maior rede de varejo de produtos orgânicos do mundo, com 400 lojas nos Estados Unidos. A marca é atualmente uma das mais badaladas entre os americanos e seu fundador e presidente, John Mackey, uma figura pública admirada por clientes e funcionários. O “oba-oba” deve-se à gestão espiritualizada que Mackey infundiu na organização desde o princípio. Contrário às práticas convencionais da gestão, a Whole Foods adota uma série de práticas que o diferem dos concorrentes no mercado:

– A rede sustenta no discurso e na prática um forte compromisso de comercializar produtos orgânicos e naturais com a mais alta qualidade disponível no mercado, pois coloca o bem-estar e qualidade de vida de seus clientes como a missão em torno do qual gira todo o negócio da marca. Para entrar na gôndola da Whole Foods, produtos e respectivos fornecedores passam pela análise de um comitê que avalia se as práticas adotadas no cultivo ou fabricação do determinado produto atendem às normais sustentáveis preconizadas na missão e valores da organização.

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– A empresa comercializa vegetais naturais livres do uso de química e derivados de carne de animais que tenham sido criados e abatidos de maneira ética.

– Cada unidade do Whole Foods dá preferência à venda de produtos da própria região onde está instalada e colhidos na própria estação, privilegiando assim o desenvolvimento das pequenas cooperativas locais e evitando o transporte de produtos congelados trazidos de longas distâncias, que consideram ser prejudicial ao meio ambiente.

– A rede mantém uma série de programas de sustentabilidade, interagindo com todos os stakeholders da marca.

– Há alguns anos, John Mackey abdicou do seu salário por considerar que já tinha o suficiente.

– Novos funcionários no período de experiência (90 dias) somente são contratados se obtiverem a aprovação de, pelo menos, dois terços da equipe com quem vão trabalhar.

– Além de pagar salários acima da média do mercado, o Whole Foods oferece uma série de benefícios aos empregados, como um programa de transferência de ações aos empregados.

– Na rede, a disparidade de salários entre a cúpula (diretoria) e os funcionários de nível organizacional não ultrapassa 20 vezes, ante a média americana de 200, ou seja, é menor do que a diferença praticada no mercado.

– John Mackey é um dos idealizadores do “Capitalismo Consciente”, movimento que enxerga nas empresas um meio para a construção de um bem maior a todos os stakeholders, além do lucro, e que se sustenta sobre quatro pilares: propósito maior, orientação para stakeholders, liderança consciente e cultura consciente.

– Há 13 anos, o Whole Foods é apontado pela revista Fortune como uma das Melhores Empresas para Trabalhar”. Com cerca de 400 lojas e 58 mil funcionários, a rede tem um faturamento próximo de US$ 10 bilhões.

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Quais são os princípios do Capitalismo Consciente?
O primeiro princípio é que todo negócio deve ser guiado por um propósito maior do que o de fazer dinheiro. O Whole Foods é movido pelo desejo de ajudar as pessoas a ser mais saudáveis. O segundo princípio é que você precisa criar valor para todos os públicos com os quais se relaciona. Reina no mundo dos negócios o raciocínio de que se alguém está se dando bem, como seus funcionários, alguém está se dando muito mal, provavelmente os funcionários ou acionistas. Trata-se de uma lógica equivocada. Nossa experiência mostra que fornecedores e funcionários satisfeitos prestam um serviço melhor, e isso deixa os clientes felizes. E clientes felizes são a melhor publicidade para um negócio, e isso beneficia os acionistas.

O movimento do Capitalismo Consciente pode ser bem-sucedido?
O Capitalismo Consciente tem se alastrado. Não exatamente com esse nome, mas os valores que pregamos têm se espalhado porque eles dão resultado. E, nos negócios, tudo o que dá resultado se espalha muito rapidamente. Se não fosse para uma empresa ter um propósito maior do que o de ganhar dinheiro ou se preocupar com todos os seus stakeholders, nós não teríamos crescido tanto. Mas admito que não se trata de uma fórmula simples. Nas empresas há sempre uma luta entre os puristas e os pragmáticos. Os puristas nunca buscam atalhos, nunca se comprometem. E, quando falo de atalhos, não me refiro a ações antiéticas ou ilegais. Já os pragmáticos buscam maneiras de suprir as demandas do mercado de forma legítima.

Em algum momento o senhor se sentiu tentado a tomar esses atalhos?
Claro. Sou vegano e sei que meus amigos veganos acham que sou um hipócrita por vender carne de origem animal no Whole Foods. Mas apenas 0,5% da população americana é vegana. E o que eu faço com o resto? As empresas precisam dos puristas, mas também dos pragmáticos para lidar com o que as pessoas querem. Sou idealista, mas realista. Um líder deve ter inteligência emocional e espiritual. Capacidade de ter empatia pelos outros. Um executivo pode ser brilhante, mas, se for um idiota com as pessoas, não trabalhará conosco.

No Whole Foods, uma pessoa é submetida a um período de testes de até 90 dias e só é contratada se passar pelo crivo de dois terços da equipe com quem ela vai trabalhar. O que está por trás dessa prática?
Acreditamos que cada equipe é única e que é muito importante que seus membros tenham voz na contratação de um novo integrante. O desempenho do time depende da cooperação de todos. E pode-se enganar o chefe, mas ninguém engana os colegas por muito tempo. Uma equipe dedicada e unida não vai querer um preguiçoso no grupo. Nenhuma equipe é tão forte até rejeitar alguém, porque esse passo fortalece a identidade do time.

O Whole Foods é conhecido por não vender centenas de produtos. Como a rede define o que vende?
Temos um grupo de especialistas que analisam a qualidade dos produtos que vendemos. O trabalho deles é fazer recomendações. Nós não boicotamos marcas como a Coca-Cola. Mas temos uma lista de ingredientes que não podem ser vendidos e, se um produto tem algum desses ingredientes, ele não estará em nossas gôndolas. Vendemos refrigerantes, mas eles não contêm aspartame, corantes e outros produtos químicos que julgamos ser prejudiciais. Não somos os donos da verdade, mas tomamos a decisão de não vender o que acreditamos não ser bom.

O senhor se preocupa com o que pode acontecer com o Whole Foods quando não estiver mais lá?
As companhias saudáveis fazem a sucessão com executivos que tenham um histórico sólido na companhia e que amem seus valores. A outra opção é recrutar no mercado alguém com uma mentalidade financeira. Muitas empresas fazem isso. E esses executivos trazem resultado no curto prazo porque cortam custos. No longo prazo, porém, essa estratégia mina o que torna a empresa única em relação aos seus concorrentes. Recentemente, numa rede de varejo familiar americana chamada Market Basket aconteceu algo interessante. Uma parte da família assumiu o controle e destituiu o presidente, que era admirado pelos funcionários. Os empregados fizeram uma greve e ele voltou ao comando. Gasto boa parte de meu tempo me dedicando a fortalecer a cultura do Whole Foods. Se ela for forte, não adianta o conselho de administração colocar no comando alguém que vá contra as ideias que sempre defendemos porque ele não conseguirá ficar na companhia por muito tempo.

Os investidores do Whole Foods acreditam no Capitalismo Consciente?
Você não pode impedir ninguém de comprar suas ações se sua empresa está listada na bolsa. O que você pode fazer é ser muito claro em relação à maneira como conduz o negócio e conquistar os acionistas que merece. Sempre dizemos ao mercado que não gerimos o Whole Foods por trimestres. Tomamos decisões hoje que só serão recompensadas lá na frente. Os investidores que gostam desse discurso manterão nossas ações por mais tempo. Os bons investidores estão por aí e, se você transparente e claro, eles aparecem.

E quando haverá uma loja do Whole Foods no Brasil?
O Brasil é um dos maiores países do mundo e poderia abrigar nossas lojas. Mas não é fácil para o Whole Foods se internacionalizar. Nossas lojas têm cerca de 30 mil itens, e não posso trazer minha extensa rede de fornecedores pra cá porque isso não faria nenhum sentido. Até porque valorizamos a produção local de alimentos. Precisaríamos desenvolver fornecedores aqui, e isso leva tempo. De forma pragmática, hoje o México faria muito mais sentido para nós. Nossa matriz é em Austin, no Texas, próximo à fronteira. Temos muito mexicanos como funcionários e compramos muitos produtos frescos do país. Mas ainda não tempo planos de ir para o México. Espero que o Whole Foods esteja no Brasil um dia.

Fonte: Revista Exame – Entrevista: Ana Luiza Herzog
Livros: Capitalismo Consciente / Novas Organizações para uma Nova Economia
Autor: Fernando Ferragino

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1 Comentário on Propósito + Felicidade no trabalho = Lucro maior. Novo estudo e sucesso da rede Whole Foods mostram que RH e empresas tradicionais precisam repensar a gestão

  1. Fantástico!!! Parabéns!!!

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