Maureen Goodman: “Quando os valores são aplicados na prática, o lucro é consequência natural” | Espiritualidade nos Negócios

Maureen Goodman: “Quando os valores são aplicados na prática, o lucro é consequência natural”

O que define uma empresa espiritualizada? Para Maureen Goodman, diretora da Brahma Kumaris no Reino Unido – centro internacional que difunde práticas como meditação e qualidade de vida, entre pessoas e organizações ao redor do mundo – a espiritualidade nos negócios não está necessariamente ligada à prática de meditação ou à adoção de preceitos religiosos por parte da organização. Segundo Maureen, uma gestão espiritualizada acontece, de fato, a partir do momento em que a empresa passa a utilizar os seus valores como bússola para a condução de seus negócios, fazendo assim com que ações conscientes e responsáveis permeiem toda a cadeia de negócios. A mudança começa pelo presidente ou CEO da corporação. É necessário que os líderes passem por um processo de autoconhecimento, de forma com que esta transformação positiva possa se refletir, no lado externo, na forma como os negócios são praticados pela organização, em todos os pontos de contato com os stakeholders. Lógico que, no meio do caminho, frear o movimento acelerado da mente por meio da meditação sempre ajuda… Atualmente responsável pela coordenação do projeto Voz Interior no Reino Unido e na Índia, e pelo fórum de líderes Espírito da Humanidade, na Islândia, Maureen esteve no Brasil em dezembro para um ciclo de palestras. Na sua rápida passagem por aqui, ela deu uma entrevista para a Época Negócios, que reproduzo a seguir.

O que significa, na prática, espiritualidade dos negócios? O que seria uma empresa espiritualizada?
Não necessariamente uma empresa onde todo mundo pratique meditação diariamente. Mas, sim, uma companhia em que o líder, o dono, tenha feito uma mudança interna em si mesmo, que se reflita no exterior, no ambiente de trabalho. Isso acontece quando a pessoa decide integrar o olhar para o social à maneira que conduz seu negócio, suas ações. Por exemplo, na escolha de recursos materiais que não agridam o meio ambiente, que sejam recicláveis. O líder que integra sua consciência pessoal ao bem maior, torna-se um exemplo para sua força de trabalho e para o mundo. As pessoas veem que ele não está mentindo, que está transformando o negócio em algo que colabora com o planeta. Muitas empresas têm seus valores pendurados na parede, mas ninguém lá dentro os pratica.

Maureen Goodman

Maureen Goodman

Apesar de as empresas estarem investindo mais em práticas e produtos sustentáveis atualmente, há ainda alguns conflitos na hora de fechar a conta. O fato de toda empresa visar o lucro não torna utópica a tentativa de colocar em primeiro lugar o impacto social de suas atividades?
De fato, o mais comum nas empresas é que o lucro venha em primeiro lugar, e os valores, depois. Há certo medo dos empresários em inverter essa lógica. Eles pensam: “Será que vou conseguir meu lucro?” Quando há esse medo significa que a tomada de decisão não está realmente fundamentada em valores e princípios. Porque o que as pessoas não se dão conta é de que, quando se coloca atenção nos valores e eles realmente são aplicados na prática, o lucro é uma consequência natural. Não é utópico, definitivamente. Só exige coragem. Mas, na verdade, esse modo de agir é muito seguro.

Então por que é tão difícil sentir essa segurança na prática?
Isso é outra questão. A simplicidade não tem muito valor na sociedade de hoje. Porque, geralmente, especialmente nos países capitalistas, as pessoas são condicionadas a serem consumistas, a estarem constantemente descontentes e, por isso, compram mais e mais produtos anunciados nos comerciais. Isso não faz uma sociedade feliz. É só olhar ao redor para constatar. Um exemplo dessa infelicidade é a disparidade entre ricos e pobres. As estatísticas criam uma sociedade menos feliz. É muito importante sair desse condicionamento mental e pensar de uma maneira diferente. Mas é também muito difícil fazer isso, porque achamos que é assim que o mundo funciona. Acredito que a educação tenha uma função importante em relação a essa mudança de mentalidade.

Quais práticas a senhora recomenda para alguém que pretende desenvolver algum tipo de espiritualidade no trabalho?
Eu disse que espiritualidade não necessariamente significa praticar meditação todos os dias. Mas a meditação é uma excelente prática. Oferece um grande auxílio na vida cotidiana. Para meditar, não é preciso estar numa floresta ou em cima de um monte. Nem ficar horas contemplando uma paisagem. Trata-se de uma prática para me lembrar das minhas referências, dos meus valores, para me reconectar com minha essência. Parece que é uma atividade passiva, mas seu impacto é uma melhora na hora de agir. As situações parecem mais claras e o praticante tende a se sentir mais seguro do que fazer no seu trabalho e vida pessoal. No site do Brahma Kumaris, temos o link Just-a-minut (só um minuto), que orienta meditações de um minuto, para serem feitas ao longo do dia. Há agências de publicidade no Brasil que encorajam as pessoas a pararem por um minuto, a cada hora de trabalho, seja para meditar, seja para pensar no que quiserem – menos trabalho. O resultado, segundo me contaram, foi um crescimento na criatividade e produtividade da companhia.

Um minuto não é muito pouco?
De manhã e à noite, é melhor praticar meditação por períodos mais longos. Mas, durante o dia, um minuto por hora, pode mudar tudo. Outra prática que as pessoas podem adotar para viver melhor é procurar intencionalmente as qualidades dos outros. É preciso um esforço para enxergar além dos comportamentos, que são manifestações externas. E o trabalho começa consigo mesmo. Quanto mais você consegue reconhecer os próprios pontos fortes, mais consegue ver o que os outros têm de bom e podem lhe ensinar também. Muitas vezes, todos estamos tomados por comportamentos padrões, no piloto automático. Então, é preciso realmente se esforçar para enxergar o que há de bom. Mas vale a pena. A vida fica mais feliz.

Ficou interessado em saber mais? Recomendo o vídeo e o texto abaixo…

 

O Poder da Presença
Você já entrou em uma sala onde duas pessoas discutiam? Provavelmente sentiu a atmosfera pesada. Esse sensação negativa no ar não acontece por causa das paredes do lugar, mas por causa das vibrações que são emanadas pelas pessoas presente no ambiente. No outro oposto, o mesmo fenômeno ajuda a explicar porque nos sentimos tão bem ao lado de pessoas bem-humoradas e positivas. Estas sensações captadas pela nossa alma têm a ver com o poder da presença, uma capacidade intrínseca que todos nós temos e que devemos aprender a utilizar a nosso favor. “Temos esse poder da presença quando estamos plenamente presentes aqui, no momento. Você não terá uma presença poderosa se sua mente está em outro lugar. Mas se você está completamente focado, sua presença será sentida”, explica Maureen. “Permaneça plenamente presente no que quer que você esteja fazendo e faça isto com a qualidade máxima. Haverá muito sucesso naquilo e você se sentirá bem”.

O que torna você o que você é?
por Maureen Goodman

As coisas pelas quais nós geralmente nos definimos – aparência, personalidade, habilidades, trabalho, relacionamentos, etc. – podem todas mudar. Nosso senso de identidade pode ser influenciado pelo que as pessoas dizem, as situações à nossa volta e os problemas que enfrentamos. O que é que, então, define quem somos?

Muito da infelicidade e insegurança no mundo é um resultado de nossa percepção externa e limitada sobre nós mesmos. Acredito que hoje em dia as pessoas buscam sua identidade interna e espiritual. Esta identidade espiritual pode me dar esperança em uma situação de desespero, mostrar-me uma solução para qualquer problema e me inspirar a mudar o rumo de minha vida. E é através de reconhecer e experimentar meu eu espiritual que posso me conectar com Deus e receber a força e a visão mais ampla que preciso para contribuir positivamente com o mundo.

“Comece com a pergunta: o que eu realmente valorizo na vida?”
Uma boa maneira de conhecer-se em um nível mais profundo é começar com a pergunta: o que eu realmente valorizo na vida? Provavelmente verei que valorizo qualidades que me fazem sentir valorizado e que trazem felicidade interna. Eu então penso se a forma como eu vivo minha vida reflete ou não isso – e o que há em minha vida que está de acordo com aquilo que valorizo?

Ao me ver como um ser espiritual, eu descubro novamente meus tesouros internos e naturais de paz, amor, pureza, felicidade e sabedoria, para os quais há a tendência de se esquecer. É como ter um belo instrumento em meu armário. “Por que não tocá-lo?” Quando experimento estas qualidades em mim, eu me torno uma pessoa muito mais feliz e estável. Ao compreender meu próprio valor, sou capaz de manter meu autorrespeito, mesmo quando alguém tenta me levar para baixo, e então também posso ajudar outros a saírem de suas percepções limitadas.

É por isso que é tão importante dedicar tempo à meditação diariamente. Ela me ajuda a compreender a mim mesmo, refletir desta maneira mais profunda e a tornar-me forte em minha identidade espiritual, de forma que eu mantenho minha felicidade e força interior – e posso influenciar o mundo à minha volta de um modo positivo.

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