Aceite a impermanência e viva com coerência: sua jornada será muito mais suave | Espiritualidade nos Negócios

Aceite a impermanência e viva com coerência: sua jornada será muito mais suave

Você já parou pra pensar (e investigar) sobre as reais causas por trás do seu “sofrimento”? Minha pergunta é aberta a todos, porque, via de regra, todo mundo sofre (alguns menos, outro mais), mas poucos são os que buscam, por meio do autoconhecimento, quebrar os condicionamentos e despertar a consciência para uma nova realidade, afinal, é muito mais conveniente continuar (sobre)vivendo sob a carapuça do papel de vítima (o eterno “coitadinho”) ou de opressor (que utiliza um “poder” ilusório para disfarçar o medo e insegurança que tem em relação ao mundo). De forma geral, as situações de sofrimento com as quais lidamos no decorrer da vida têm relação direta com três fatores que estão interligados:
1. Nossa visão (limitada) de mundo;
2. A não aceitação da impermanência;
3. E a falta de coerência entre o que pensamos, expressamos e nossas atitudes.

Recentemente, tive o privilégio de participar de uma palestra com o Lama Michel Rinpoche (mestre budista brasileiro que quando criança foi reconhecido como a reencarnação de um mestre que viveu no Tibete e desde os 12 anos segue uma vida monástica dedicada aos estudos e ensinamentos do budismo), onde ele abordou exatamente esses tópicos. Ao trazer à tona a importância de trilharmos o caminho espiritual, Lama Michel relembrou uma história que vivenciou certa vez em um mosteiro quando um de seus mestres, ao avistar ao longe algumas vacas pastando, perguntou: “Qual a diferença entre um homem e uma vaca? O que a vaca faz quando o dia está muito quente e ensolarado? Refugia-se na sombra. E o que vaca faz quando se depara com um capim seco e sem gosto? Busca uma grama verde e mais saborosa para se alimentar”. Em resumo, existem somente duas grandes preocupações na vida de uma vaca: evitar o sofrimento (o sol) e buscar o prazer (a grama verde). Nesse contexto, ela apenas sobrevive. O triste é que quando comparamos essa situação com a forma como encaramos a vida na sociedade atual, percebemos que muitos, assim como a vaca, apenas sobrevivem. Totalmente alheios às questões transcendentais ligadas ao sentido da nossa missão nesse planeta, muitas pessoas tocam a vida no piloto automático, tendo tão somente como premissa, assim como a vaca, evitar o sofrimento e buscar o prazer.

Essa forma de encarar (e passar, literalmente) pela vida tem a ver com a nossa visão de mundo. Desde pequenos, estamos sujeitos à uma série de condicionamentos impostos por nossos pais e pela sociedade. Com o tempo, tais condicionamentos tornam-se crenças, hábitos e atitudes. Nosso verdadeiro “eu” passa, então, a viver soterrado embaixo de várias camadas de emoções e ilusões disfarçadas de “verdades”, que passam a ditar a forma como nos comportamos e nos relacionamos com as pessoas. Traduzindo, os condicionamentos e máscaras que passamos a utilizar compõem e expressam nossa visão (limitada) de mundo. Limitados pela falta de conhecimento sobre quem somos de fato, passamos a buscar uma sempre inalcançável e utópica felicidade em todos os lugares, menos dentro de nós, onde ela verdadeiramente está (ops, devia ter avisado antes que a notícia contém spoiler, revelei o maior mistério da humanidade, desculpe a mancada…).

Como uma onda no mar
Limitados por uma visão de mundo mecânica, simplista e materialista, não conseguimos enxergar e compreender os mecanismos invisíveis da espiritualidade que regem a vida e, com isso, deixamos de notar uma das grandes verdades do Universo: nosso mundo é impermanente! Sabe aquela música do Lulu Santos (“Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa, tudo sempre passará / A vida vem em ondas / Como um mar / Num indo e vindo infinito / Tudo que se vê não é / Igual ao que a gente viu há um segundo / Tudo muda o tempo todo / No mundo / Não adianta fugir / Nem mentir / Pra si mesmo agora / Há tanta vida lá fora / Aqui dentro sempre / Como uma onda no mar…”)? Pois é, todo mundo canta, mas pouca gente percebe o real significado da letra, que exprime de maneira simples e genial essa verdade espiritual.

Ah, você acha que o que estou falando é óbvio demais e é claro que você já está cansado de saber tudo isso, que estou chovendo no molhado… Beleza, se é assim, por que, então, você fica estressado toda vez que uma situação nova surge na sua frente? Exemplos não faltam: qual é a sua reação quando o pneu do carro fura? Quando seu chefe decide realizar uma mudança de processo no seu trabalho? Quando sua empresa anuncia uma mudança na hierarquia ou nos rumos do negócio? Quando, devido a um acidente, o trânsito fica travado, impedindo você de chegar a um determinado compromisso? Quando seu namorado (a), marido ou esposa decide se separar de você? Quando chove e você está sem guarda-chuva? Quando falta energia elétrica e você precisa utilizar o elevador ou a água fica fria no meio do banho? Quando seu voo é cancelado? Quando você é forçado a alterar uma série de compromissos em razão de uma doença? Quando o metrô opera com lentidão e você tem que encarar uma fila enorme pra entrar no vagão? A não ser que você seja um tipo de ser santificado que levita e vive de luz, não preciso ter poderes telepáticos pra dizer que você fica “p da vida” toda vez que é obrigado a lidar com uma situação inesperada que “atrapalha” ou altera todo o cenário que você já havia desenhado na sua cabeça.

Volto novamente à pergunta inicial: se você já está cansado de saber que o mundo é impermanente e que “tudo muda o tempo no mundo como uma onda no mar”, por que a surpresa com o imprevisto? Por que se estressar?

É exatamente aí que entra a questão da não aceitação da realidade e a maneira incoerente como vivemos (ou tentamos sobreviver) durante a jornada. Quando não aceitamos e ficamos irritados e arredios frente às situações inesperadas, somos incoerentes com a vida e com o nosso próprio eu. Nos fechamos para o presente, para o novo, ao invés de seguir com o flow. E todo aquele papo sobre impermanência que você achava que “estava cansado de saber” cai por terra… Pelo menos, é o que sinaliza a resposta sempre reativa e negativa das pessoas frente às situações inesperadas que nos pegam desprevenidos no meio do caminho.

As 4 Nobre Verdades
Para aqueles que fazem de cada problema uma tormenta gigante (a famosa tempestade em copo d’água), Buda sinaliza uma saída baseada naquilo que ficou conhecido como as Quatro Nobres Verdades de Buda:
Primeira Nobre Verdade – é preciso tomar consciência de que o sofrimento existe, mas que é transitório, ou seja, tem começo, meio e fim.
Segunda Nobre Verdade – a causa do sofrimento é o apego aos bens materiais e ideias transitórios, e reside em nossos desejos.
Terceira Nobre Verdade – embora não possamos interromper o ciclo de mudança da vida, podemos nos libertar do sofrimento, tornando-nos conscientes das ilusões à nossa volta e promovendo um karma positivo.
Quarta Nobre Verdade – nosso sofrimento tem cura. Para tanto, precisamos seguir os oito princípios orientadores do Caminho do Meio, conhecidos como o Nobre Caminho Óctuplo de Buda. (pra saber mais, clique aqui)

Nossa atitude em relação aos problemas e desafios é o que diferencia aqueles que conseguem caminhar com serenidade e paz de espírito. É importante destacar que esse estado está ao alcance de todos, não se trata de um merecimento restrito a um grupo privilegiado de pessoas. Pra quem chegou até aqui, #fica a dica:
– Encare de verdade o fato de que tudo na vida é transitório e impermanente;
– Seja coerente e aceite o momento presente como uma dádiva, ou seja, uma oportunidade para você fazer algo novo ou simplesmente nada (não confunda, por sua vez, aceitação com submissão, são posturas completamente diferentes);
– Agradeça pelos obstáculos no caminho, assim como pelas bênçãos recebidas, pois as dificuldades nada mais são do que professores com a tarefa de lapidar a joia rara que se esconde no seu ser;
– Pratique o autoconhecimento, ciente de que o maior aprendizado espiritual não acontece dentro dos templos, mas nas relações que você mantêm no trabalho, junto à sua família e no dia a dia;
– Mantenha sempre a atenção plena com sua consciência focada no momento presente;
– Procure interagir com as pessoas sempre com intenção positiva, aceitando como elas são, e não querendo moldá-las à forma como você gostaria que elas fossem;
– Mantenha a coerência entre o discurso e a prática, afinal, suas atitudes gritam muito mais alto do que suas palavras;
– Tenha uma atitude positiva, mesmo face às situações que parecem ser ruins ou negativas, pois a vibração que você emana e a sintonia em que você trafega irão determinar tudo aquilo que será atraído na sua direção;
– Esteja sempre receptivo e aberto ao novo;
– Aceite e agradeça sempre.

Como o Lama Michel Rinpoche frisou em sua palestra, “quando mudamos a nossa visão de mundo, mudamos o mundo à nossa volta”. Embora seja impossível envolver o mundo inteiro em couro para não machucar os seus pés, você sempre pode envolver os seu pés em couro para que sua caminhada seja mais suave. Essa é a atitude positiva que depende somente de você!

Autor: Fernando Ferragino

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