Sustentabilidade, retorno garantido para investidores e clientes. Ah, o planeta também agradece… | Espiritualidade nos Negócios

Sustentabilidade, retorno garantido para investidores e clientes. Ah, o planeta também agradece…

Os empresários adeptos do modelo cartesiano e clássico de fazer negócios, ainda em dúvida sobre os benefícios da sustentabilidade, não precisam mais temer. Novas pesquisas e cenários comprovam que empresas que utilizam o triple bottom line (tripé social, ambiental e financeiro) como norte para a gestão, aliado aos princípios transparentes de governança corporativa, têm melhor performance operacional, oferecem menos riscos e geram retornos aos acionistas significativamente maiores, quando comparadas às empresas tradicionais. É o que conta Laura Tyson, professora de Gestão Global na Haas School of Business, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente dos EUA.

O bom desempenho das empresas sustentáveis se explica: o uso mais eficiente de recursos e de fontes de energia contribui diretamente para a redução de custos; a melhor administração dos talentos humanos incrementa a produtividade; regras ambientais, de segurança e de saúde mais estritas podem reduzir o risco de acidentes graves; e novos produtos “verdes” ou de comércio justo são atraentes aos consumidores e decisivos na alavancagem das receitas.

De acordo com a professora, o mercado já percebeu essa tendência e valoriza, cada vez mais, o investimento nas empresas com práticas sustentáveis. Em 2014, um total de US$ 6,6 trilhões, um em cada seis dólares em ativos sob administração profissional nos Estados Unidos, foi alocado em alguma forma de investimento sustentável, especialmente em ações, conta Laura. Atentas às novas práticas, grandes empresas, como DuPont e Procter & Gamble, passaram a investir em produtos e serviços de inovação sustentável e hoje já lucram a com a iniciativa.

Para o diretor–presidente do Instituo Akatu, Helio Mattar, as empresas precisam entender que elas são importantes demais para não terem responsabilidade socioambiental. “Hoje, muitas são maiores que países e o seu impacto sobre toda a cadeia produtiva é enorme, tanto do ponto de vista social como ambiental. Aquelas que têm se dedicado, de fato, às suas ações socioambientais, têm sido reconhecidas pelo consumidor”, disse à revista Época.

Segundo dados da última pesquisa promovida pelo Akatu, sobre consumo consciente no Brasil, em 2012, mais da metade dos consumidores acredita que o papel das empresas deve ir além de produzir, gerar empregos e pagar impostos. “Para eles, as empresas devem buscar trazer mais benefícios para a sociedade. Entre os temas citados estão racionalizar o uso de água, educar o consumidor sobre os impactos sociais e ambientais do consumo e colocar critérios socioambientais na seleção de seus fornecedores”, destaca Mattar.

O desafio é integrar a gestão baseada nos princípios do triple bottom line na estratégia, de forma com que a sustentabilidade seja um atributo que permeie toda a organização e que esteja presente em toda a cadeia produtiva e nas relações com funcionários, comunidade e consumidores, afinal, são nas relações com os diferentes stakeholders que as empresas revelam o seu verdadeiro valor.

Veja a seguir o artigo completo de Laura Tyson sobre o assunto.

Negócios Sustentáveis
Por Laura Tyson
Investidores pelo mundo buscam cada vez mais oportunidades de investimento que prometam trazer benefícios sociais e ambientais, além de retornos condizentes com os do mercado. A continuidade dessa tendência fortalece o compromisso com a sustentabilidade, que vem ganhando força no planeta.

Em 2014, um total de US$ 6,6 trilhões, um em cada seis dólares em ativos sob administração profissional nos Estados Unidos, foi alocado em alguma forma de investimento sustentável, especialmente em ações.

Cerca de 1.260 empresas, com US$ 45 trilhões em ativos, são signatárias dos “princípios para o investimento responsável” (PRI, na sigla em inglês), que reconhecem como sendo cruciais para os investidores as questões ambientais, sociais e de governança (ESG) – e, portanto, a solidez e a estabilidade de longo prazo de mercados e empresas. Entre os signatários está o CalPERS, um dos maiores investidores institucionais do mundo, que foi um passo além: vai exigir que todos seus gestores de investimentos identifiquem e integrem as questões ESG em suas decisões – medida ousada que poderia transformar os mercados de capital.

Empresas com bom desempenho em questões concretas de sustentabilidade têm melhor performance operacional, além de trazerem menos risco e gerarem retornos aos acionistas significativamente maiores do que as de mau desempenho

O número de empresas que divulgam relatórios de sustentabilidade cresceu de pouco mais de 30, no início dos anos 90, para mais de 7 mil, em 2014. E, em recente pesquisa do Morgan Stanley, 71% dos consultados declararam interesse em investimentos sustentáveis.

Certamente, ainda há uma barreira à incorporação de critérios ESG nas decisões de investimento: muitos investidores – incluindo 54% dos consultados na pesquisa do Morgan Stanley – acreditam que levar isso adiante pode reduzir a taxa de retorno financeiro. Há, contudo, um volume cada vez maior de evidências de que esse não é o caso.

Um estudo de grande influência realizado em 2012 analisou dois grupos de empresas – similares em termos de tamanho, setor, desempenho financeiro e perspectivas de crescimento – concluiu que as ações das firmas no grupo de “alta sustentabilidade” tiveram desempenho superior. E um novo estudo do Institute for Sustainable Investing, do Morgan Stanley, analisando o desempenho de 10.228 fundos mútuos abertos e 2.874 contas administradas separadamente nos EUA, concluiu que os investimentos sustentáveis normalmente acompanham – e até excedem – o retorno médio de investimentos tradicionais comparáveis nos períodos examinados.

Muitas questões ESG entram em cena quando se avaliam as opções de investimento sustentável. Por exemplo, a Generation Foundation – um grupo de estudos da Generation Investment Management (de cujo conselho de administração faço parte) – identifica 17 fatores ambientais, 16 fatores sociais e 12 fatores de governança relevantes para a sustentabilidade.

O Conselho de Padrões Contábeis de Sustentabilidade (Sasb), que não tem fins lucrativos, busca mudar isso desenvolvendo padrões contábeis concretos de sustentabilidade para 80 setores que sejam consistentes com as normas da Securities and Exchange Commission. Mais de 2,8 mil participantes – incluindo empresas com valor de mercado total de US$ 11 trilhões e investidores com US$ 23,4 trilhões de ativos sob administração – estão envolvidos com o trabalho da Sasb.

Usando os padrões propostos pela Sasb, assim como outros critérios, um novo estudo – o mais completo até agora – concluiu que empresas com bom desempenho em questões concretas de sustentabilidade têm melhor performance operacional, além de trazerem menos risco e gerarem retornos aos acionistas significativamente maiores do que as de mau desempenho.

Da mesma forma, um novo marco recentemente proposto pelo Morgan Stanley para avaliar empresas de 29 setores incluiu questões ESG que representam oportunidades ou riscos materiais. Enquanto as empresas normalmente são avaliadas exclusivamente sobre como movimentam seu capital financeiro para gerar retornos, o novo marco leva em conta como movimentam capital social, natural e humano, assim como a transparência de suas práticas de governança. Essa nova abordagem sobre a avaliação das empresas reflete o ponto de vista de que as empresas mais bem-sucedidas são as que se valem dos quatro tipos de responsabilidade social.

O uso mais eficiente de recursos e de fontes de energia pode reduzir custos; uma melhor administração dos talentos humanos pode incrementar a produtividade; regras ambientais, de segurança e de saúde mais estritas podem reduzir o risco de acidentes graves; e novos produtos “verdes” ou de comércio justo atraentes para os consumidores podem elevar as receitas.

Veja o caso de investimentos que melhoram a eficiência energética de centros de dados, que consomem de 10 a 20 vezes mais energia que os prédios comerciais comuns e, portanto, são responsáveis por um volume considerável de emissões de gases causadores do efeito estufa. As decisões sobre as especificações dos centros de dados são importantes para administrar custos e obter um fornecimento confiável de energia e água, assim como para reduzir riscos à reputação. A construção, pelo Google, de centros de dados que usam 50% da energia das instalações tradicionais trouxe-lhe economias consideráveis.

Há histórias de sucessos em vários setores. Desde 2011, a DuPont investiu US$ 879 milhões em pesquisa e desenvolvimento de produtos com benefícios ambientais quantificáveis; registrou US$ 2 bilhões em receita anual com produtos que reduzem os gases causadores do efeito estufa e outros US$ 11,8 bilhões em receitas com recursos renováveis, como a energia solar ou eólica.

Da mesma forma, a multinacional de bens de consumo Procter & Gamble contabilizou US$ 52 bilhões em vendas de “produtos de inovação sustentável” entre 2007 e 2012. Isso representa 11% das vendas totais da empresa no período.

Há bons motivos para acreditar que as empresas, ao investir na melhora concreta da sustentabilidade, podem gerar valor para os acionistas. Na verdade, para honrar sua responsabilidade fiduciária para com os investidores, uma empresa tem poucas opções a não ser ir além dos retornos financeiros e incorporar questões ESG que provavelmente terão impacto concreto em seu desempenho ao longo do tempo. Esse é precisamente o tipo de incentivo que poderia impulsionar o mundo em direção a um futuro mais sustentável.

Autora: Laura Tyson foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente dos EUA e é professora de Gestão Global na Haas School of Business, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e assessora sênior no Rock Creek Group.
Tradução: Sabino Ahumada
Texto abertura: Fernando Ferragino
Fonte: Valor Econômico e Época

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