Matthieu Ricard: o Altruísmo e a Economia Solidária são as respostas para a crise planetária | Espiritualidade nos Negócios

Matthieu Ricard: o Altruísmo e a Economia Solidária são as respostas para a crise planetária

Após o advento das revoluções industrial e tecnológica, inauguramos uma nova era geológica: o Antropoceno, período marcado pela interferência do homem nos rumos do planeta, com impactos (negativos) em escala global. Desde que passamos a explorar os recursos finitos da Terra além dos limites recomendados, alteramos o ritmo natural de funcionamento do planeta e contribuímos diretamente para as mudanças climáticas atualmente em marcha, assim como para aceleração da taxa de extinção da biodiversidade, entre outros danos irreversíveis. Embora este assunto seja muito complexo e envolva diversos estudos e teorias, para o monge budista Matthieu Ricard, toda essa encrenca na qual nos metemos se resume a uma simples questão: altruísmo versus egoísmo. Somente a partir do momento que tivermos mais consideração pelos outros e pelas futuras gerações, conseguiremos promover uma economia solidária e sustentável, que permita um modo de vida saudável e em harmonia com o meio ambiente.

É o que ele defende no livro “A Revolução do Altruísmo”, lançado recentemente no Brasil. PhD em genética molecular, o ex-pesquisador francês trocou o mundo acadêmico pela vida monástica em 1972, após conhecer um mestre tibetano que ensinava os mecanismos do sofrimento e da felicidade, de modo a nos tornarmos um ser humano melhor. “[Na época] Pensei: ‘essa é uma ciência ainda melhor’. Escolhi trocar algo que achava muito interessante por algo ainda mais interessante para mim, para a minha aspiração de fazer o melhor com o tempo que tenho nessa vida. Estou muito feliz por ter feito essa escolha naquele momento, em vez de esperar minha aposentadoria para então fazê-lo”, disse à revista Planeta. Desde então, Ricard passou a se dedicar a questões humanitárias (ele coordena uma ONG com mais de 140 projetos de cunho assistencial, educacional e de saúde no Tibete, Nepal e Índia) e viaja o mundo promovendo um novo modo de vida norteado pelo altruísmo. Em 2012, foi intitulado o “homem mais feliz do mundo” após participar de um estudo científico que media os índices de felicidade do ser humano e hoje é considerado uma das maiores autoridades do budismo mundial, sendo, inclusive, conselheiro e intérprete do dalai lama.

Segundo Ricard, ter mais consideração pelos outros é a única maneira de reconciliarmos três escalas de tempo atualmente em descompasso: a busca imediatista por resultados que guia a economia a curto prazo, a qualidade de vida das pessoas a médio prazo e os impactos no meio ambiente, no longo prazo. “Quando nos importamos com os outros, temos uma economia solidária, em que as finanças estejam a serviço da sociedade e não o inverso. Esse é o caminho para diminuir a desigualdade e trazer algum tipo de bem-estar para a sociedade. Se uma nação é mais rica e poderosa, mas todos se sentem miseráveis, qual o sentido?”, questiona.

Na visão de Ricard, para que uma sociedade seja mais altruísta e suprima o egoísmo (o grande agente causador das mazelas sociais), precisamos operar uma mudança individual e social, de forma a aumentar a cooperação na sociedade, desenvolver uma harmonia sustentável, estimular a economia solidária, e assumir um compromisso local com responsabilidade global, estendendo desta forma o altruísmo a outras 1,6 milhão de espécies no planeta, seres sencientes que também são cidadãos da Terra.

Aliado à meditação, o altruísmo tem o poder até mesmo de alterar o funcionamento do cérebro e de despertar genes adormecidos, ligados ao florescimento de uma nova consciência e percepção do mundo. “Quatro semanas com 20 minutos por dia de meditação afetiva consciente são suficientes para promover uma mudança estrutural no cérebro, mostram estudos científicos”, afirma. O caminho é coletivo, mas somente tem início pela transformação individual. Ricard fala em detalhes sobre a revolução do altruísmo em uma palestra do TED Talks, gravada no Brasil, e também em uma entrevista concedida à revista Planeta, que reproduzo a seguir.


Salvação pelo altruísmo
Entrevista com Matthieu Ricard
Por: Renata Valério de Mesquita – revista Planeta

De que forma seu novo livro liga o altruísmo aos problemas ambientais enfrentados hoje?
Existe o desafio pessoal, que enfrentamos da manhã até a noite, dentro das nossas mentes. Mas, olhando mais globalmente, os maiores desafios são reconhecer as necessidades de curto, médio e longo prazo. No imediato, a questão é sobreviver, o que envolve os aspectos econômicos da vida. A economia muda rapidamente e você não tem controle sobre as bolsas de valores, os preços etc. Há também a questão da qualidade de vida, que já é mais de médio prazo. Costuma envolver os próximos dez anos, a formação de uma família, como desenvolver seus potenciais, por exemplo. Mas agora temos uma nova dimensão, que não existia antes: a de longo prazo. Porque já somos os principais agentes a determinar o destino das futuras gerações. Não só dos seres humanos, mas de toda a natureza. Dez mil anos atrás, havia apenas 5 milhões de humanos sobre a Terra, um número insignificante para o meio ambiente. Nos últimos séculos, a população cresceu muito – hoje somos 7 bilhões – e houve um aumento expressivo do nosso impacto sobre os ecossistemas. Entramos no Antropoceno, a era em que o homem passa a ser o principal causador das mudanças no planeta. A taxa de extinção de espécies animais é grande exemplo disso. De 1950 para cá, perdemos 30% do total das espécies, devido à ação humana.

Como o altruísmo se encaixa nesse contexto?
A questão é quanto eu me importo com as futuras gerações. Se não damos a mínima, não há por que se preocupar com o meio ambiente. Já se você tiver uma consideração pelos outros, não há como ignorar a situação que vai deixar para as futuras gerações. O problema é que quando economistas, assistentes sociais e ambientalistas conversam, não falam a mesma língua. Só há um conceito que pode fazer com que todos se entendam, que é simplesmente ter mais consideração pelos outros. E isso é altruísmo. Assim passamos a ter uma plataforma em comum para discutir, um conceito para fazer as pessoas entenderem como trazer bem-estar para a sociedade e também ter prosperidade para reduzir as diferenças sociais.

Será que os altos escalões do mercado chegarão a por esse conceito acima de seus interesses pessoais e profissionais?
Sou frequentemente convidado para o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Já fui sete vezes. Da primeira vez, dez anos atrás, os assuntos estavam totalmente relacionados com economia, petróleo, consumismo. Mas na abertura deste ano, a primeira frase do fundador e presidente executivo do evento, Klaus Schwab, foi: “Vamos dedicar esta semana ao cuidado e à compaixão”. Talvez sejam apenas palavras, talvez nem todos sigam essa proposta, mas, ainda assim, isso é um indicativo. É um pequeno sinal, assim como outros que vêm aparecendo em vários cantos antes inusitados. Compaixão não era um tema tratado por profissionais da área financeira.

Muitas pessoas defendem que se você se sente bem por ser altruísta, quer dizer que, no fundo, é egoísta.
Já usaram de todos os argumentos para tentar provar que só existe egoísmo no mundo, mas não tem sentido. Todos os estudos mostram que quando se faz o bem, sentir-se bem é um efeito colateral, e não a razão de fazer o bem. Se alguém pula no trilho do trem para salvar alguém, não está pensando “vou me sentir tão bem quando eu salvar essa pessoa”; ele pode morrer também. Esse efeito colateral só se dá quando sua principal intenção é ajudar o outro. Se sua atitude altruísta não for genuína, torna-se um sacrifício para você. É como um fogo que queima e não produz calor. A natureza do fogo é produzir calor. Claro que as pessoas não são 100% do tempo altruístas. Mas é erro pensar que só existe egoísmo. Existe altruísmo numa larga escala, que nós costumamos ignorar. Os olhares sempre se voltam para o individualismo e a violência, principalmente na mídia, e isso causa uma distorção.

É possível uma pessoa egoísta virar altruísta?
A plasticidade do cérebro e a epigenética dizem que é possível mudar. A prática da meditação – que é um treino para a mente – permite aprender qualquer coisa e despertar os genes. Porque os genes são como várias lâmpadas distribuídas em um ambiente. Algumas podem estar desligadas, mas ainda assim estão lá. É só questão de acioná-las. E isso não acontece uma única vez na vida. Eles estão o tempo todo ligando e desligando. Quando você dorme, 20% dos genes dos seus neurônios dormem também – ou seja, não se expressam. E porque todo ser humano tem potencial para o altruísmo, pode-se despertá-lo – é só questão de praticar. Praticar o altruísmo em si ou a meditação da compaixão. Várias pesquisas feitas nos últimos 15 anos mostram que é possível promover grandes alterações funcionais e estruturais no cérebro. Já está provado que basta praticar a meditação da compaixão oito horas, uma única vez, para despertar uma nova expressão dos genes. Ou que meditar por apenas duas semanas, 20 minutos por dia, já melhora a atitude em relação aos outros, levando qualquer pessoa a se tornar mais altruísta. Segundo muitos especialistas que consultei, somente os psicopatas dificilmente mudam, porque essa é uma característica genética forte. Fora esse grupo – que soma em torno de 1 a 2% da população mundial -, não há um segredo, é só questão de prática.

Autor (texto de abertura): Fernando Ferragino

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