Sua empresa é Waze ou GPS? Educação, propósito e o novo mindset dos negócios | Espiritualidade nos Negócios

Sua empresa é Waze ou GPS? Educação, propósito e o novo mindset dos negócios

Se seu filho estivesse muito doente, você o internaria em um hospital do século XIX? Embora a pergunta possa parecer absurda, nós mandamos nossos filhos para escolas assim… Esta provocação, feita por Claudio Sassaki (cofundador da Geekie), em uma palestra do CONARH 2015, expõe a raiz de muitos problemas que enfrentamos atualmente na sociedade, no que diz respeito aos péssimos índices de educação do Brasil e à forma atrasada empregada na gestão de muitas empresas, que, via de regra, culmina em frustração e infelicidade para colaboradores e mau desempenho na produção e lucratividade.

Muitos dos modelos tradicionalistas criados há mais de 200 anos, durante a Revolução Industrial, de forma a atender uma padronização para todos em larga escala, continuam até hoje sendo utilizados nas escolas e nas empresas. Esta mentalidade mecanicista e fabril utiliza a premissa de que todos aprendem de maneira igual, de acordo com a data de validade (data de nascimento). Ou seja, se um aluno tem dificuldade em aprender e compreender um determinado conteúdo, o problema é dele e não da escola. Conforme diversos estudos psicológicos vem mostrando ao longo das últimas décadas, temos diversos tipos de inteligência (intelectual, emocional, espiritual, sistêmica) e aprendemos de forma diferente, em tempos diferentes, de acordo com o nível de maturidade ou consciência vivenciado. “A criança é adestrada a não questionar”, provoca Sassaki. O resultado desse cenário é que hoje, a cada 20 brasileiros que começam o ensino fundamental, somente 1 termina com nível esperado de português e matemática. Muitos alunos concluem o ensino médio sem a capacidade de compreender e interpretar um texto. Uma verdadeira tragédia.

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A consequência disso é que tendemos a replicar o mesmo tipo de comportamento no ambiente corporativo. Muitos RHs são orientados pela prática da punição e da disciplina rigorosa. Historicamente, as empresas foram moldadas por uma visão militar. John Mackey (fundador da rede Whole Foods Market e um dos criadores do movimento “capitalismo consciente”) explica que a cultura de liderança baseada em comando e controle foi herdada pela cultura corporativa. “As companhias atraíam pessoas motivadas principalmente pela oportunidade de exercer o poder. Tendo a organização miliar como modelo, passou-se a ver o ambiente de negócios como praça de guerra – e difundiu-se o mito de que os melhores guerreiros são os melhores líderes. As empresas tomaram emprestadas até mesmo a linguagem bélica, ao falarem de estratégias e táticas e usarem expressões como ‘engajar a linha de frente’ ou ‘capturar o market share’”, esclarece. Assim como nas escolas, as empresas passaram a adotar um ambiente regido pela disciplina, que pune o erro e inibe do diálogo, afinal, o funcionário é pago para fazer a sua tarefa e não para pensar. Em ambientes assim, é praticamente impossível engajar e, principalmente, inovar.

Pedro Passos

Pedro Passos: “As estruturas e os papeis nas empresas estão congelados no século XX”

Curioso que em uma outra palestra que assisti no CONARH, Pedro Passos (um dos fundadores da Natura) apresentou uma linha de raciocínio similar. “As estruturas e os papeis nas empresas estão congelados no século XX. É preciso aliviar o sistema de liderança atual que hoje é muito velho e enrijecido e trabalhar a cultura da empresa”, disse. Ainda segundo Passos, principalmente agora, em tempos de crise, é necessário afastar os burocratas e promover as pessoas engajadas com a cultura da empresa, tendo sempre como premissas a transparência, ética, boa comunicação e um olhar sensível para as demandas da sociedade.

Fábio Barbosa (líder empresarial que também estava presente na mesma mesa-redonda) concorda. Segundo ele, as empresas travam hoje um dilema entre “comado e controle versus trabalho em rede compartilhado”. Para Barbosa, uma analogia que exemplifica bem esta situação é a diferença existente entre o aplicativo Waze e o GPS convencional. Enquanto o GPS traça uma rota e mantém o motorista preso a ela de maneira inflexível, não obstante os obstáculos que possam surgir no meio do caminho, o Waze “ouve” as percepções do ambiente para tomar direcionamentos mais assertivos e inteligentes, tendo ainda flexibilidade e dinamismo para traçar rotas alternativas, de acordo com problemas e fatores imprevistos que possam surgir de surpresa durante o percurso.

Coincidência ou não, apesar de estarem em salas e palestras diferentes, Sassaki utilizou a mesma analogia do Waze para falar sobre modelos de educação ultrapassados e inovadores. Incomodado com o cenário da educação e movido por um propósito maior, Sassaki abandonou uma carreira de sucesso rentável e garantida no mercado de finanças, no exterior, para criar o Geekie, único sistema de ensino adaptativo credenciado pelo MEC no Brasil, uma plataforma online onde o conteúdo se adapta à forma como o aluno aprende melhor, e não o contrário. Com base nas lacunas identificadas no diagnóstico do aluno, o Geekie traça um plano de estudo personalizado para que o aluno melhore sua performance. E assim como o Waze, o Geekie também é dinâmico, ou seja, o sistema aprende e evolui com base nas experiências de todos os alunos que utilizam a ferramenta. O software ainda fornece feedbacks em tempo real sobre o desempenho do aluno para os professores do colégio que utilizam o sistema, permitindo que as devidas correções de rota possam ser implementadas no mesmo ano letivo, para o mesmo aluno. Embora possa parecer óbvio, no ensino tradicional, os feedbacks demoram a acontecer e normalmente são utilizados para nortear o ensino da turma vindoura, no ano seguinte. “É como se, baseado nos sintomas apresentados por uma paciente hoje, o médico utilizasse o mesmo diagnóstico para tratar outros pacientes, partindo do pressuposto de que por terem a mesma idade, ambos possuem os mesmos problemas”, explica Sassaki. Com 5 milhões de usuários e utilizado por alunos de 20 mil escolas no Brasil, o Geekie está fazendo a diferença para alunos com dificuldade de aprendizado, principalmente nas escolas públicas. Para cada aluno pagante, o sistema é disponibilizado gratuitamente para um aluno da rede pública.

claudio sassaki

Claudio Sassaki: “O cargo te faz gestor. O time te faz um líder”

O modelo de negócios da Geekie só é possível graças ao estilo de gestão moderna da empresa, que estimula a criatividade e a inovação entre os funcionários. O propósito e o significado são os diferenciais que “movem” os profissionais que trabalham na Geekie. Segundo Sassaki, muitos dos engenheiros e programadores que ajudaram a desenvolver o sistema tinham ofertas de trabalho no Google, Facebook, entre outras empresas de grande prestígio, mas optaram por aceitar um salário bem menor na Geekie, por partilharem dos mesmos ideais e propósito da empresa.

Para uma start-up de tecnologia que entrega inovação, velocidade é primordial, algo que só acontece quando as pessoas têm autonomia e confiança no ambiente de trabalho. “O gestor tem que sair da frente, não deve atrapalhar o andamento da equipe. O time que tiver a capacidade de aprender mais rápido é que vai ganhar. Pra que isso aconteça, o gestor precisa confiar, dar autonomia para as pessoas e fazer do funcionário um protagonista. Erro não tem que ser punido, mas corrigido com rapidez, deve fazer parte do processo de aprendizagem. O poder de decisão tem que estar na ponta”, afirma Sassaki. “O cargo te faz gestor. O time te faz um líder”, completa. Uma nova postura e a adoção de um novo modelo mental, mais consciente, para a educação e os negócios são fundamentais para que possamos trazer escolas e empresas ao século XXI.

Autor: Fernando Ferragino

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