“Que nós não sejamos totalitários nos nossos pareceres”. Monja Coen fala sobre como podemos conviver em um Brasil tão dividido | Espiritualidade nos Negócios

“Que nós não sejamos totalitários nos nossos pareceres”. Monja Coen fala sobre como podemos conviver em um Brasil tão dividido

Estamos vivenciando um momento conturbado e de divisão na sociedade, em razão do atual cenário político. O Brasil tornou-se um imenso “Fla x Flu”, com pessoas enrijecidas em suas posições. Em defesa das próprias “verdades”, paramos de ouvir e passamos a atacar. A polarização baseada no princípio de que “se você não concorda comigo, está automaticamente do lado do inimigo” exterminou o diálogo, algo essencial à democracia e à construção de um modelo que nos permita evoluir. A onda de intolerância e ódio que varre as mídias sociais destrói amizades e separa até mesmo famílias. Fica então a pergunta: como entender esse Brasil tão dividido e conviver em um mundo tão polarizado? Na opinião de Monja Coen, pra quebrar o gelo existente entre as pessoas, precisamos aquecer as relações. E o primeiro passo pra que isso aconteça é “parar de falar mal uns dos outros”.

No vídeo (abaixo), ela avalia de maneira bem sensata que essa polarização não é algo restrito ao Brasil, mas um fenômeno do ser humano. Basta dar uma olhada no noticiário internacional pra ver que o mundo todo está dividido e, praticamente, em guerra. Nos EUA, por exemplo, democratas brigam com republicanos, ou melhor, atualmente, nem mesmo os militantes dos próprios partidos se entendem e estão totalmente divididos na escolha dos candidatos que os representarão na próxima eleição presidencial. A Europa também vive um grande dilema e segue dividida em relação à questão dos refugiados, e por aí vai…

Trazendo o foco novamente para o Brasil, Monja Coen nos lembra que, mesmo em meio a tantas diferenças, precisamos olhar para o lado positivo, afinal, ainda é melhor conviver em uma democracia do que um governo totalitário. “Que nós não sejamos totalitários nos nossos pareceres”, alerta.

Mas como conviver com o “diferente” no dia a dia? Para Monja Coen, a resposta para esse dilema pode ser encontrada em um dos ensinamentos de Buda. “Um dos preceitos de Buda é não fale ou comente os erros e faltas alheios porque você acaba vendo que também são seus erros e suas faltas”, conta. “Vamos procurar atravessar esse momento e nos percebermos que é um país só, que todos queremos esse bem coletivo e que se trabalharmos juntos pelo bem coletivo, todos vamos nos beneficiar. Em vez de se firmar em partidos e ideias da dualidade, porque a dualidade é o que vai dar nome ao diabo, à divisão, nós podemos retornar à unidade”, conclui. Veja o vídeo:


“Se alguém o insultar, deixe que a pessoa leve o insulto de volta com ela.
Não aceite o presente desnecessário”

Nesse clima tenso de divisão e disputas ideológicas fervorosas, movidas pela paixão, as pessoas perdem a linha e passam a distribuir ofensas pra todo lado. Monja Coen também escreveu um texto, publicado na edição de março da revista Bons Fluídos, onde fala exatamente sobre como lidar com essa situação:

“Ryokân-sama foi um monge diferente… Tinha amigos entre as crianças, com quem gostava de brincar de esconde-esconde. Tinha amigas no prostíbulo, onde gostava de beber e pregar, vestia-se sempre como um pobre monge andarilho. Contam que, certo dia, o monge Ryokân-sama caminhava por uma estrada quando se abaixou para amarrar as sandálias de palha e foi atacado com pauladas. Apenas se encolheu, sem nada dizer. Quando o homem que nele batia percebeu que se tratava do monge, ficou atordoado: “Ryokân-sama, desculpe, desculpe. Estava certo de haver pegado o ladrão das minhas melancias, por isso bati tanto. Por que o senhor não reclamou? Por que não se identificou logo?”. Ryokân-sama sorriu. Terminou de amarrar as sandálias e disse: “Já passou!”. E foi embora.

Como é difícil ser assim. Conheço algumas pessoas que jamais esqueceriam o fato e jurariam vingança. Conheço outras que chorariam se considerando vítimas da vida. Outras que teriam batido em quem nelas batesse. Inúmeras possibilidades. Mas essa do monge Ryokân-sama, do século XVII, é muito rara. Receber os abusos como se nada recebesse.

‘Se alguém vier lhe dar um presente que não terá uso, é melhor não aceitar. Deixe que o presenteador o leve de volta’. Assim professores ensinam a seus alunos no Japão. Se alguém o insultar, deixe que a pessoa leve o insulto de volta com ela. Não aceite o presente desnecessário. Não é preciso reclamar, dizer que não é bem assim, se explicar ou exigir explicações, se desculpar ou pedir desculpas. Apenas não receba e não dê força ao que é prejudicial. Pelo contrário, estimule palavras, atitudes, gestos e pensamentos que beneficiem todos os seres.”

Acolher a discordância

A mesma linha de raciocínio exposta por Monja Coen é defendida pelo filósofo e educador Mario Sergio Cortella. Ele argumenta que precisamos aprender a “acolher a discordância” e que prestar atenção no outro de maneira sincera é um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações. “Como estamos acostumados ao que somos, o outro é que nos ensina e nos liberta das nossas amarras. Mas, para avançarmos, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo”, afirma. Somente quando estamos abertos às novas ideias, principalmente àquelas diferentes das nossas, conseguimos crescer. Esse tema já foi abordado aqui no blog, em outra notícia. Caso queira ler, é só clicar aqui.

Em tempo: não estou aqui levantando bandeira para nenhum partido ou lado. Sou favorável às investigações em curso de políticos e partidos. Acredito que nenhuma pessoa ou partido político está acima do bem e do mal, e que todos somos iguais perante a lei (pelo menos, deveria ser assim). Por outro lado, em defesa do regime democrático, defendo o diálogo sensato e razoável entre todas as partes, como caminho para a conquista da paz e a construção de um mundo mais igual e fraterno para todos.

Autor: Fernando Ferragino

Compartilhe

1 Comentário on “Que nós não sejamos totalitários nos nossos pareceres”. Monja Coen fala sobre como podemos conviver em um Brasil tão dividido

  1. Realmente, a questão da intolerância e da polarização nos discursos é um problema humano de longa data.
    Gratidão por compartilhar essas fantásticas palavras e ensinamentos da Monja Coen!

    Abraços!

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*