José “Pepe” Mujica – Apologia à Sobriedade (ou A mensagem que todo político deveria ouvir e praticar) | Espiritualidade nos Negócios

José “Pepe” Mujica – Apologia à Sobriedade (ou A mensagem que todo político deveria ouvir e praticar)

Num tempo onde a ganância e a corrupção cegaram propósitos e ideais, o senador e ex-presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, parece ser uma das poucas (e raras) vozes lúcidas a defender um caminho diferente, pautado pela sobriedade em nossas relações. Mujica sempre foi um personagem controverso. Na década de 70, deixou a vida no campo para integrar o movimento guerrilheiro tupamaro no combate à ditadura militar no Uruguai, permaneceu durante 14 anos na prisão e após sua libertação, no fim do regime militar, ingressou na política. Diferente de muitos líderes políticos ditos de esquerda (que levam uma vida bem distante daquilo que pregam, motivados pela ambição desmedida pelo poder), ao assumir a presidência do Uruguai em 2010, Mujica chamou a atenção pelos hábitos simples que manteve em sua rotina. Avesso às mordomias reservadas ao cargo de direito, Mujica sempre doou 90% do seu salário para programas sociais enquanto esteve na presidência, o que lhe valeu o apelido de “presidente mais pobre do mundo”. Ele continuou morando em sua chácara, na zona rural de Montevidéu, onde cultiva hortaliças, e também manteve seu velho carro, um Fusca azul modelo 87, que costumava dirigir para ir ao “trabalho” – e, de quebra, ainda oferecia carona para as pessoas no meio do caminho. Durante seu governo, o Uruguai também adotou políticas controversas e corajosas, tais como a legalização da maconha e do casamento gay (permitindo também a adoção de crianças por casais homossexuais) e a descriminalização do aborto. Diferente também de muitos líderes latino-americanos, Mujica deixou a presidência com a economia em ordem e com altos índices de aprovação popular.

Nesta entrevista que concedeu para o documentário “Human”, Mujica oferece uma lição sobre vários aspectos da vida. Ele alerta que estamos desperdiçando nossas vidas, ou melhor, “gastando tempo de vida” para atender um padrão de vida consumista sem fim, aborda os motivos da atual crise política e fala sobre a importância de continuarmos sonhando, sempre levantando, queda após queda, carregando cicatrizes sem rancor, com os olhos sempre fixos no amanhã. Confira!

A Vida se Gasta
“A forma como vivemos e nossos valores são a expressão da sociedade na qual vivemos. E a gente se agarra a isso. Passei mais de 10 anos numa solitária, tive muito tempo pra pensar e descobri que ou você é feliz com pouco, com pouca bagagem, pois a felicidade está em você, ou não consegue nada. Isso não é uma apologia à pobreza, mas à sobriedade. Só que inventamos uma sociedade de consumo e a economia tem que crescer, senão acontece uma tragédia. Inventamos uma montanha de consumo supérfluo. Compra-se e descarta-se. Mas o que estamos gastando é tempo de vida. Porque quando eu ou você compramos algo, não pagamos com dinheiro. Pagamos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem uma diferença. Tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade.”

Sobriedade e Espírito Republicano
“Não estou pregando voltarmos ao tempo das cavernas, nem vivermos em cabanas de palhas. Não é nada disso. O que estou sugerindo é que acabemos com o desperdício e os gastos inúteis e os casarões suntuosos que exigem meia dúzia de empregados. Pra que tudo isso? Não precisamos disso. Podemos viver com mais sobriedade gastando nossos recursos em coisas realmente importantes para a sociedade. Esse é o verdadeiro espírito republicano que se perdeu na política. Se fosse para ter cortes reais, senhores feudais e vassalos tocando corneta na ponte quando o senhor sai do castelo para caçar, se fosse para ter tudo isto, teríamos ficado no mundo arcaico. Por que fizemos revoluções? Em nome da igualdade e tudo mais? Algumas casas presidenciais de hoje são quase a mesma coisa.”

Crise Política
Não se pode dizer que não há recursos. Não há governança política. Os governos se preocupam somente com as próximas eleições, quem vai sentar no trono. Brigam pelo poder e esquecem o povo, os problemas mundiais. Não há crise ecológica. Há crise política. Chegamos a uma etapa da civilização que exige acordos planetários. Mas viramos os olhos para outro lado. Nos prendemos a nacionalismos e a questões de potência nacional, sobretudo os países mais fortes, que deveriam dar exemplo. É vergonhoso que depois de 25 anos dos acordos de Kyoto, ainda nos recusamos a aplicar medidas elementares. É vergonhoso!”

Sentido da Vida
“A constituição de nossa natureza é tão notável que acabamos aprendendo mais pela dor do que pela bonança. O que quero dizer é que a gente pode cair e se levantar de novo. E sempre vale a pena voltar e recomeçar mil e uma vezes enquanto se está vivo. Essa é a maior mensagem da vida. Em suma, os derrotados são aqueles que deixam de lutar. E deixar de lutar é deixar de sonhar. Lutar, sonhar e andar com os pés no chão, encarando a realidade… Este é o sentido da existência, o sentido da vida. Não se pode viver a vida cultivando rancor. E não se pode viver a vida dando voltas no mesmo lugar. As dores que sofri na vida ninguém vai consertar. Ninguém vai apagar. É preciso aprender a carregar suas cicatrizes e seguir olhando para frente. Se eu ficar só cuidando dos ferimentos, não posso seguir adiante. A vida para mim é sempre o futuro. O que importa é o amanhã.”

 

Conheça o documentário “Human”
O que nos torna humanos? Por que amamos, brigamos, rimos, choramos? O que nos move? Somos impulsionados pela nossa curiosidade? A busca pela descoberta? Com essas questões em mente, o cineasta e artista Yann Arthus-Bertrand coletou histórias de vida reais de 2 mil homens e mulheres, em 60 países, durante três anos. As histórias reunidas no documentário “Human” versam sobre diversos tópicos que nos unem, tais como, a luta contra a pobreza, guerra, homofobia, amor, família, morte, direito das mulheres, e o futuro do nosso planeta misturado com momentos de amor e felicidade. Os depoimentos são intercalados por belas imagens aéreas de cidades e paisagens naturais. Resultado de uma parceria entre a Fundação Bettencourt Schueller, Fundação Good Planet e o Google Cultural Institute, o projeto foi disponibilizado no Youtube em seis idiomas. A versão completa encontra-se dividida em três capítulos, de 90 minutos cada. O volume 1 da trilogia aborda os temas amor, mulheres, trabalho e pobreza. Confira:

 

Autor: Fernando Ferragino

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1 Comentário on José “Pepe” Mujica – Apologia à Sobriedade (ou A mensagem que todo político deveria ouvir e praticar)

  1. elisabete Zocchi // 1 de outubro de 2016 em 00:03 // Responder

    A mais linda mensagem que já ouvi em toda a minha vida!!!!!

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